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Edição 562
Novembro / 2005

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APM 75 anos

Alberto Nupieri: O "pai" da APM, um peregrino



Há 75 anos, um homem de grandes ideais, inquieto, visionário, quis uma entidade aberta à participação de todos os médicos e fez uma verdadeira peregrinação para convencer os colegas da criação da Associação Paulista de Medicina

Luciana Oncken (pesquisa, reportagem e texto) e

Leandro de Godoi (pesquisa e reportagem)

 

Um jovem muito magro bate à porta do consultório médico. O profissional atende e se depara com um homem de olhos claros, olhar penetrante e uma densa cabeleira de calabrês, pasta em punho e muitas idéias na cabeça. Explica os motivos pelos quais ali se encontra. Em seguida, tira uma lista, de onde constam alguns nomes. A cena se repete nos diversos consultórios médicos pela capital paulista. Uns não dão ouvidos ao caniço. Outros assinam a lista para se verem livres do importuno. Outros escutam, mas não dão ouvidos. Chamado de o italianinho do Brás, por colegas, ele é Alberto Nupieri, médico formado pela segunda turma da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Sua missão? Convencer os médicos paulistas de que São Paulo precisa de uma nova entidade médica que congregue todos os médicos, sem distinção.

Ali, em setembro de 1930, surge o embrião do que viria a ser a Associação Paulista de Medicina. De gestação rápida, nasceu depois de dois meses, em 29 de novembro daquele mesmo ano.

Em outubro deste 2005, depois de 75 anos, foi a vez da APM fazer o caminho inverso. Batemos à porta de um apartamento num dos muitos prédios charmosos do bairro de Higienópolis. A porta se abre. Do lado de dentro, surge uma senhora de baixa estatura, cabelos densos. Esboça um sorriso reservado. Somos convidados a entrar. O espaço é aconchegante. Três salas formam o ambiente social: a sala de jantar, a de estar, e um cantinho para uma conversa. A decoração é impecável. Ali, encontramos a única filha do idealizador da APM, Mara Nupieri, 68 anos. Mas poderíamos até dizer que Mara tem uma irmã, concebida a partir de um sonho de seu pai, antes mesmo dela existir. Uma irmã mais velha fruto de um ideal, fecundado por mais de 200 médicos em 1930. Essa irmã, de 75 anos, é justamente a Associação Paulista de Medicina, que está ali para resgatar a sua história por meio de seu "pai" Nupieri.

E a história de Alberto Nupieri começa no século XIX, mais precisamente em 8 de setembro de 1891, quando nascia esse filho de imigrantes italianos vindos da Calábria. De origem humilde, rígido de princípios, foi uma pessoa que lutou muito para estudar. "Os italianos não eram assim bem-vindos, sabe?", conta a filha.

Para arcar com os estudos e se manter, trabalhava nos Correios. Praticamente não comia, seu almoço era uma média (café com leite). "Acho que era por isso que o papai era magro! (risos)". Tanto era magro que costumavam chamá-lo de caniço (magrelo).

Mara não sabe explicar de onde veio o interesse do pai pela medicina. Ela acredita que foi simplesmente porque não havia muitas opções na época para o estudo superior. "Vovô era uma pessoa muito simples, não tinha muito estudo. Era um italiano que veio para cá e viveu comprando e vendendo imóveis. Naquela época era tudo restrito, ou era medicina, ou engenharia, ou direito".

Ao falar do pai, os olhos de Mara brilham. Voluntária encantada pelo seu trabalho no Hospital Sírio-Libanês, é mãe de três filhos, dois homens e uma mulher. Nenhum deles seguiu a profissão de médico. "Eu tenho muita tristeza quando pego essas coisas (se referindo aos documentos em cima da mesa: recortes de jornal sobre a criação da APM, artigos, fotografias...), porque teve uma época da minha vida que acompanhei muito o trabalho dele, vocês sabem, quando a pessoa morre, as coisas vão para cima do armário. Então é triste isso, não é? Mas o que ele fez nunca vai morrer, não tem como apagar", fala num tom suave e doce.

A filha começou a acompanhar o trabalho do pai depois dos 18 anos, quando trabalhou com ele na prefeitura. Ela destaca, entre os feitos do pai, sua dedicação pela saúde e bem-estar da criança. Chegou a idealizar o Grande Conselho da Criança Paulistana, aprovado por unanimidade pela Câmara de São Paulo. Fazia parte do projeto passar o Hospital Menino Jesus à prefeitura para ficar subordinado ao departamento que Nupieri coordenava. "Eu trabalhava com ele quando ele criou um departamento de assistência à infância e maternidade, que cuidava desde o pré-nupcial, pré-natal, eugenia e puericultura."

Nupieri era um visionário. Defendia a obrigação, por parte da Igreja, de exame pré-nupcial. "Mas isso não foi aprovado na época, porque senão ninguém ia se casar. Era época que havia muita sífilis", relembra Mara. Também estudou a legalização do jogo em diversos países. Há uma pasta que reúne todas as cartas que enviava para os mais diversos países questionando a legislação do jogo. A sua idéia era que parte dos prêmios fosse revertida para ações sociais. Também já pensava na criação de creches para as mães trabalhadoras deixarem seus filhos, isso numa época em que não era comum as mulheres trabalharem. "Ele era um lutador, e não se cansava de escrever cartas e mais cartas, para tudo o que ele queria".

O trabalho de Nupieri era reconhecido e prestigiado pelos secretários de higiene da época, entre eles, Vladimir Piza e Demóstenes de Martine. "Eles atendiam papai em tudo o que ele precisava para o trabalho com as crianças, porque confiavam e sabiam que o trabalho seria feito.

Como pai, era um incentivador. Mara passou a dirigir automóvel por insistência dele. "Eu guiava meu próprio carro. Isso era um privilégio para as moças da época. Guio até hoje e ele foi o meu maior incentivador, me fez perder o medo, porque eu sou medrosa igual a minha mãe. Ele não. Era muito corajoso."

Mas ela lembra que ele também era um pai exigente. Fazia questão que a filha estudasse. Da mesma forma, foi com os netos. Sempre os acompanhando nos estudos. "Ele era bravo, nada bonzinho. Eu odiava estudar e ele exigia. Ele nunca achou que nota fosse coisa importante, porque dizia que os colegas de classe melhores do que ele não tinham se realizado profissionalmente, não tinham grandes realizações."

Mas havia as compensações. O pai a levava em todos os bailes de formatura dos clubes. Fazia questão de acompanhá-la e sempre levava as amigas junto. "Sempre ficava numa mesinha, me esperando." Já a casa na Nova Cantareira (próxima à Serra) vivia cheia de amigos da filha. "E eles gostavam muito dele, porque era muito sociável." Mara recorda-se que a casa era grande e tinha até um bar. Era lá também que Nupieri recebia os colegas e amigos e fazia festas todas as sextas-feiras para a vizinhança. "Era a casa mais sociável da região, por isso todos iam lá. Vinham também os colegas, principalmente aqueles que o ajudaram a fundar a Associação."

Uma história, contada por ela, ilustra bem o clima e até que ponto ia a sociabilidade de Nupieri. Aos sábados, a família realizava open-house, as pessoas entravam, comiam, bebiam, iam embora. Até que, num sábado desses, entra um sujeito na casa, se farta de comida, bebe meia garrafa de whisky e sai.

- Você o conhece - Alberto pergunta à filha.

- Não!

"Até hoje, ninguém sabe quem era aquele homem (risos)."

A característica mais marcante, apontada e confirmada por Mara, amigos e admiradores de Nupieri, é o idealismo e a capacidade de realização. "Lutava sempre, sempre, sempre. Tinha uma personalidade marcante. Não era homem de fazer jogo de cintura, mantinha os princípios dele. Não era político, nem socialmente, nem de partido", ressalta a filha.

O médico e professor Pedro Monteleone, precursor do jornalismo médico e diretor de A Gazeta, assim o definia: "Este grande idealista, pioneiro da defesa dos direitos do médico, ilustre médico paulista, foi o primeiro a ventilar no Brasil os problemas da classe e sua tribuna foi a Associação Paulista de Medicina. Aí, agitada por ele, tivemos sessões memoráveis que vararam madrugadas. Destas, destacamos a questão da Ordem dos Médicos".

Sim, a Ordem dos Médicos do Brasil também era um sonho de Nupieri e uma bandeira que ele carregava. Ao que chamava de Ordem, era um modelo de fiscalização de disciplina da profissão, ao qual todos os médicos obrigatoriamente deveriam ser inscritos. Na visão dele, uma ferramenta indispensável que criaria um sistema de disciplina e da atividade médica. A idéia foi amplamente debatida durante 14 anos. Críticos e admiradores se degladiavam em longos debates nos periódicos A Gazeta, Diário da Noite, entre outros.

Em 1944, são criados os Conselhos Federal e Estadual de Medicina. Mais um sonho de Nupieri era realizado. "Acaba de ser distinguido ao alto cargo de Conselheiro o Dr. Alberto Nupieri, nome por demais conhecido e admirado nas lides classistas", anunciava a notícia da Tribuna Médica de 28 de outubro de 1946.

E vinha acompanhada da seguinte "Notícia Biográfica":

"Alberto Nupieri é um nome que sintetiza uma época, uma luta, um ideal. Luta de reivindicações classistas. Idealismo e abnegação próprios dos grandes lutadores. Em 1930, inicia sua fecunda atividade em benefício da classe, lançando a idéia da fundação da Associação Paulista de Medicina (...)".

Jairo Ramos, outro grande nome da classe médica paulista, costumava dizer, em meio aos jogos de bilhar, quando a entidade ainda era no edifício Martinelli e ele ainda não pensava em ser presidente:

- Você é secretário, datilógrafo, moço de recados.

Ao que Nupieri respondia:

- Não há outro remédio. Tarefa ingente, recursos parcos.

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