Entrevista imaginária
Luciana Oncken e
Leandro de Godoi (colaborou)
Nestes 75 anos, a classe médica mantém vivo o ideal de Alberto Nupieri por meio desta Associação Paulista de Medicina, a partir da qual, tantas outras entidades nasceram: conselhos, sociedades de especialidade, cooperativas. Uma filha de Nupieri que também gerou frutos.
O grande sonhador, visionário, pai, avô, na sua inquietude de calabrês, viveu até completar 91 anos. Morreu em 1979. No ano seguinte, recebeu uma homenagem póstuma, quando sua filha mais velha, APM, completou 50 anos.
Tomamos a liberdade de importuná-lo em seu descanso eterno com uma entrevista imaginária. As perguntas foram criadas, a introdução é fictícia, feita com base nas descrições de sua filha e depoimentos de amigos. As respostas foram tiradas de textos e discursos que Nupieri fez ao longo de sua vida, publicados na Revista da APM, na A Gazeta, Diário da Noite e O Estado de S. Paulo.
APM para os médicos
Alberto Nupieri entra na sala pontualmente na hora marcada para a entrevista. Andar firme, caminha em nossa direção e estende a mão num cumprimento firme. Chama atenção a sua baixa estatura, a sua magreza. Mas é o olhar seu ponto forte. Nele guarda a seriedade e a serenidade de um idealizador e de um realizador.
O criador da Associação Paulista de Medicina é um homem inquieto. Sua inquietação se reflete numa mania sua de mexer a perna sem parar. Mania essa que rendeu uma bronca de um professor, quando ainda estava no colégio:
- Pára, Nupieri, pára de mexer esta perna!
Ele não parou. A sua inquietude rendeu muitas realizações. Manteve-se sempre ativo. É freqüentador assíduo da APM.
O amigo e admirador Fernando Fonseca, em carta enviada ao editor do jornal A Gazeta, em 23 de outubro de 1949, assim define a inquietude de Nupieri:
"Nupieri, meu jovial e espirituoso colega de turma da Faculdade de Medicina de São Paulo, transformou-se, agigantou-se. Não esmoreceu ante a indiferença e a incredulidade da maioria. Não parou um só instante. Prejudicou enormemente a sua clínica em formação: pessoalmente ou pelo telefone, dias e semanas inteiras procurava adesões (...)".
E adesões não faltaram. Hoje, são aproximadamente 30 mil. Aqui, nesta entrevista, ele explica os motivos que o levaram a idealizar e fundar a Associação Paulista de Medicina (APM), os entraves que encontrou pelo caminho e como fez para vencê-los.
Revista da APM - Por que a idéia de criar uma entidade médica?
Alberto Nupieri - Com pouco mais de mil médicos, via-se a classe médica peada nas suas exigências expansionistas. Agrilhoavam-na os estatutos rígidos, arcaicos, da única Sociedade (a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo) existente que, entretanto, não há de negar, serviços sem conta lhe prestara. Poucas dezenas de médicos, o mesmo número de decênios anterior, lotavam seus quadros.
Revista - A participação não era aberta para todos os médicos?
Nupieri - Não. De vez em vez, seus portões vetustos se abriam para um novo titular que vinha preencher uma vacância por falecimento.
Revista - O senhor era contra este método?
Nupieri - Estou aqui fornecendo subsídio para a história, destituído de qualquer móvel polemista. Sempre reconheci na Sociedade de Medicina notáveis serviços prestados à classe. Sempre foi um padrão de glória.
Revista - Se era um padrão de glória, o que o levou a querer criar uma outra entidade?
Nupieri - Seu diploma não mais se harmonizava com a época, que estava a exigir sua maleabilização, sua harmonização com o surto expansionista que a nossa urbe vinha tendo em todos os setores de atividade. Portanto, recém-egresso do ambiente universitário, concebi então uma nova estrutura societária, com caráter amplo, sem restrição de número.
Revista - E o que mais o senhor vislumbrava?
Nupieri - Que ela fosse distribuída em setores especializados, com sua mobilidade social, seu bar, sua seção de jogos, seu órgão amparador trabalhista. A Associação Paulista de Medicina foi fundada em obediência a uma exigência do ambiente médico de São Paulo, exigência de ordem científica, imposta pelo notável desenvolvimento da classe que vinha ocorrendo desde os anos 1920 e pela necessidade de se criar um organismo capaz de defender os seus direitos. Com mais de mil profissionais somente na cidade, com uma Faculdade de Medicina notável pelo valor de seus professores e pelo critério e rigor com que prepara os futuros médicos, a idéia da criação de um novo núcleo de atividade cientifica há muito existia em estado latente.
Revista - O senhor estaria então atendendo a essa necessidade? Como a sua idéia foi recebida pelos colegas?
Nupieri - A Associação foi uma realização a jato e evocou o espírito empreendedor bandeirante, pela sua ousadia e amplitude de ação. Mas é evidente que só uma equipe homogênea, impelida e fanatizada pela flâmula de um ideal, poderia levá-la a um bom porto.
Revista - E quem participou dessa empreitada?
Nupieri - Centenas de colegas daquela geração. Procurei-os em seus consultórios, pacientemente, metodicamente, na faina de um amanho da terra para a sementeira. Nessa peregrinação diária, teimosa, tivemos, de pronto um núcleo de colegas entusiastas que se incorporou à cruzada. E esse foi o grupo que empunhou e carregou entusiasticamente a flâmula.
Revista - Qual a importância de Rubião Meira para a consolidação da idéia? Nupieri - Rubião Meira endossou a idéia e lhe emprestou o concurso robusto do seu nome, do seu talento e do seu prestígio. Diariamente, lhe freqüentávamos o consultório e, entre uma consulta e outra, procurávamos adesões pelo telefone. Formaram logo: Cesário Mathias, Oscar Monteiro de Barros, Felipe Figliolini, Barbosa Corrêa, Ahahyde Pereira, Ernesto Moreira, Espírito Santo, Belfort de Matos, Ferraz Alvim, Marcus Lindemberg e outros. Após um trabalho continuado, atingimos 200 adesões. Revista - Como eram as reações que o senhor encontrava nessa peregrinação? Nupieri - Reações diversas, muitas simpaticamente receptivas, mas havia os que de pronto assinavam a lista, impacientes de se verem livres do importuno, certos da inexiqüibilidade da idéia. Outros me olhavam de alto a baixo, de baixo para cima e, depois, me obrigavam a "repetir o disco". Abriam a porta do consultório. Eu lia na sua fisionomia: - De onde teria saído esse caniço tão atrevido? Outros... Ah! Estes quantas vezes e ainda hoje estão a evocar no meu espírito os pingüins de Anatole France em sua obra "A Ilha dos Pingüins".
(Conta a parábola que um frei octogenário, numa missão de catequização, aporta em uma praia dos mares nórdicos, percorrre-a até uma plataforma de rochedo e avista ali uma multidão de homens e passa a discorrer a mensagem divina. E durante três dias batizou-os. Mas o seres que o bom evangelista tomara como homens, não passavam de pingüins aboletados, indiferentes à mensagem. Sua visão escassa, deu-lhe a noção de indivíduos de pequena estatura e solene andança).
Revista - Estavam alheios à mensagem...
Nupieri - Não consegui batizar a esses. Com muitos topei eu. Posudos, empertigados, alguns de ciência concentrada nas barbas esvoaçantes. Às vezes, batiam no meu ombro e me davam conselhos preciosos: - Não se meta, moço.
Revista - Pelo visto, o senhor não seguiu o conselho (risos).
Nupieri - Eu, solícito, ia azucrinar o colega do apartamento vizinho. E aquele colega, ulteriormente, veio a prestar bons serviços em uma de suas diretorias (na APM).
Revista - E o que o senhor diria a esses?
Nupieri - É assim a psicologia humana. O general do exército napoleônico sintetizou-a bem. Conspirador frustrado, perguntou-se o genial corso, ante o Conselho da Guerra:
- Quem são seus cúmplices?
- Toda a França e vós mesmos, se eu tivesse triunfado.
Revista - E todos gostaram da idéia da Associação ter sua seção de jogos?
Nupieri - Havia os puritanos que não admitiam bar e clube. Pessoalmente, não jogo; escopa, escopone e canastra, algumas vezes, mas no jogo sou um canastrão.
Revista - Quais eram as bandeiras de luta quando ela foi fundada?
Nupieri - A luta contra charlatanismo médico, com controle da publicidade profissional; a luta contra o curandeirismo; honorários médicos; assistência gratuita (já naquela época falava sobre o papel do Estado no que se refere à saúde pública); caixa de reserva para o médico inválido (viabilizado, mais tarde, pelo Selo Médico).
Revista - Como foi o clima da primeira Assembléia, em 29 de novembro?
Nupieri - A reunião foi uma magnífica concentração da classe, a ela comparecendo pouco mais de cem colegas, número respeitável para a época. Presidiu-a Rubião Meira; e eu a secretariei. Cintra do Prado hipotecou a solidariedade da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade (de Medicina da USP) e Ferraz Alvim propôs a denominação vencedora (havia mais duas, além de Associação Paulista de Medicina: Centro Médico de São Paulo e Associação Médica Cirúrgica de São Paulo).
Revista - Onde inicialmente se instalou a entidade?
Nupieri - A Faculdade de Medicina e o Instituto de Higiene foram seus primeiros locais.
Revista - O senhor se refere aos trabalhos para a fundação da primeira sede oficial como "As noitadas no Martinelli" (a primeira sede da APM foi o 13o andar do Edifício Martinelli, no centro novo de São Paulo, fundada em 1931). Como eram essas noitadas?
Nupieri - Foram três meses de trabalho, 90 noitadas ininterruptas no local. Plantas na mão, corrigindo, revisando, avançando, retrocedendo. Quando deixávamos a sede pela uma hora da madrugada nos dávamos por felizes.
Revista - E como ficava o convívio com a família?
Nupieri - Uma noite Fligliolini (Felipe), com fisionomia de profunda tristeza, quase chorando, disse-me que havia 15 dias não conversava com os filhos. Residia em Santana, saía cedo, com os filhos ainda no leito; almoçava no centro e, quando voltava de madrugada, os filhos já tinham voltado para o leito.
Revista - E a parte financeira? Como a obra foi bancada?
Nupieri - Ernesto Moreira e Potiguar Medeiros manejavam as escassas receitas. Potiguar criou um complicado sistema de apólices da ordem de 50 contos de réis, jeitosamente impingidas aos laboratórios, que num gesto de simpática colaboração, desistiram do seu resgate. Rubião Meira aceitou títulos do Mappin Stores, na importância de 180 contos, recusando o aval que nós lhe havíamos proposto. Estávamos todos obcecados. Arcava eu, ainda, com o ônus de uma secretaria de uma entidade em organização.
Revista - A que se deve o surto de crescimento da Associação Paulista de Medicina? No primeiro ano de funcionamento, passou de 200 sócios para 700, sendo que o número total de médicos no Estado era da ordem de mil.
Nupieri - Deve-se a três fatores: a oportunidade do seu lançamento como exigência da época; a descentralização científica nos diversos setores especializados; a unidade social, como centro de recreação.
Revista - O senhor se orgulha da APM?
Nupieri - A Associação carrega em sua esteira um imenso acervo de serviços prestados ao País. Como paulista e brasileiro, dela me orgulho.
Revista - Qual a mensagem que o senhor deixaria para os médicos deste século XXI que enfrentam tantas dificuldades?
Nupieri - A Associação Paulista de Medicina, organismo de classe, incumbe a obrigação de focalizar as causas do mal estar e cujos esforços devemos coordenar. Articulemos as nossas aspirações em um memorial, solicitemos a colaboração da classe médica do País, mobilizemos todas as nossas energias, não desfaleçamos, pois a continuidade de ação é o dínamo do sucesso, e estou certo que as nossas aspirações entrarão em breve para o domínio das realizações. Poderemos, dessa maneira, conservar o magnífico patrimônio moral da classe, e manter em toda a pureza, o apostolado inerente à nobreza da nossa profissão. |