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Edição 562
Novembro / 2005

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APM 75 anos

Sobe!



A história da APM completa 75 anos no dia 29 de novembro. A história do seu Carvalho completou 68 anos no dia 25 de outubro. Na história do seu Carvalho tem muita história da APM, e na história da APM tem muita história do seu Carvalho

Luciana Oncken

 

A vida do seu Carvalho é um sobe e desce, um vai e vem, um abre e fecha. Quem visita a sede da Associação Paulista de Medicina (APM), na avenida Brigadeiro Luís Antônio, sabe bem o porquê. Seu Carvalho, ou melhor, Demerval Carvalho Pimentel, é ascensorista do prédio sede (que tem 14 andares, sendo 13 servidos por elevador) há 20 anos.

- Primeiro!

Mas a primeira vez que Demerval teve a chance de subir, que as portas da vida se abriram para ele, foi quando seu pai Laudemiro de Oliveira Pimentel o escolheu, e a mais um irmão, entre os 12 que formavam a prole, para estudar. Coisa que não era nada fácil lá na terra do seu Carvalho. Era um tal de vai e vem. Longas caminhadas de 30 quilômetros da zona rural de Teresina, no Piauí, até à escola, pra aprender o beabá. Ele não desistiu, tomou gosto pelos estudos e percebeu que Teresina era pequena demais para os sonhos de jovem. Ao terminar o ginasial, aos 21 anos, comunicou ao pai:

- Vou tentar a vida lá em São Paulo.

O pai consentiu. E, assim, Carvalho veio, deixando o pai, a mãe Inácia e os 11 irmãos, entre eles Gumercindo, com o qual iniciou os estudos. A intenção do jovem Demerval era continuar a estudar, seguir a Contabilidade.

- Segundo!

Foi aí que começou a descida. E que descida! Foram 9 dias de viagem num ônibus bem precário. "Saí de lá às 7 horas da manhã do dia 5 de fevereiro e cheguei em São Paulo às 10 horas da manhã do dia 14 de fevereiro", lembra com precisão, num tom de voz grave, ressaltando que essa passagem da entrevista é só uma curiosidade, um parênteses. E que parênteses, heim, seu Carvalho?

Demerval é mesmo assim, um gentleman com seu jeito meio formal, gentil, prestativo. Parece não querer incomodar com esses "detalhes da vida". Tem um tom de voz realmente marcante, estufa o peito de ar para falar e parece até ficar maior do que o seu apenas 1,50 metro de altura. Seu sorriso largo, sua simpatia são suas marcas registradas.

- Terceiro!

E com todo esse seu jeito, ao chegar aqui em baixo, no sudeste do país, com toda vontade de vencer em São Paulo, se deparou com a primeira dificuldade. Na prática, as coisas não eram assim tão fáceis como pareciam em sonhos. Veio para ficar com um tio e com um primo que já moravam por aqui, mas encontrou na casa deles condição pior do que a que vivia lá no Piauí. "As coisas eram realmente difíceis". As portas pareciam estar se fechando.

Mas acontece que esse primo dele, Pedro Alves Pereira, trabalhava como faxineiro no 278 da avenida Brigadeiro Luís Antônio, ou seja, na APM e o indicou para trabalhar numa cooperativa para médicos que ficava no térreo do prédio sede. "Era um tipo de um supermercado para os médicos, vendia de tudo", explica. Foi a primeira vez que Carvalho entrou na APM.

- Quarto!

Trabalhou por ali durante dois anos, de março de 1960 a setembro de 1962. Em outubro desse mesmo ano, começou a trabalhar como funcionário da Associação Paulista de Medicina, no Clube Médico. Esse tal clube não tem nenhuma relação com o Clube de Campo da APM de hoje. Era aqui mesmo na sede, um espaço reservado no 12o andar onde os médicos se reuniam para jogar carteado, fazer apostas e jogar conversa fora. Na época, o jogo era permitido por lei e parte dos prêmios era revertida para financiar as atividades da entidade nas mais diversas áreas de atuação, como educação continuada, cultura, e defesa profissional. 

Seu Carvalho aprendeu os macetes do trabalho com um espanhol chamado José de La Fuente, que estava prestes a se aposentar. Ele conta que os médicos varavam a madrugada por aqui. Aos finais de semana, a casa vivia cheia. Tinha associado que chegava no sábado à tarde e só ia embora na madrugada de segunda-feira. "Não era bem assim (faz questão de explicar), eles iam para a casa de madrugada e voltavam na tarde do dia seguinte para ir embora de madrugada novamente."

- Quinto!

Até hoje, o 12o andar guarda as características arquitetônicas dos anos 1950: pastilhas de vidro no piso do hall, lambris de madeira nas paredes. Nos lambris há campainhas onde se lê "Bar", por meio das quais os médicos chamavam os garçons. O prédio foi concebido já com essa idéia do Clube Médico ocupar o 12o, com a área de jogos, e o 13o andar, com um refinado restaurante.

O único problema é que com esse negócio de trabalhar no Clube não sobrou mais tempo para estudar. Mas entre estudar e conseguir se manter em São Paulo, Carvalho preferiu ficar com a segunda opção.

- Sexto!

Com o emprego, conseguiu sair da casa do tio e foi morar perto da APM. Ele explica que sempre preferiu morar nas redondezas do trabalho para não precisar pegar condução. Ainda hoje ele aluga um espaço independente na casa de duas senhoras, mãe e filha, próximo ao Elevado Costa e Silva, na Bela Vista. Mora ali já há 13 anos, desde que se separou da mulher, em 1992, e entregou o apartamento onde morava de aluguel.

Demerval se manteve na APM até 31 de dezembro de 1981, quando houve um corte de funcionários. As portas da APM se fecharam para ele e mais 19 pessoas que trabalhavam na entidade. Ele foi embora, não para sempre. Tentou a vida de empresário ao abrir as portas de um bar, na zona leste, em sociedade com um amigo. Como não entendiam nada do negócio, tiveram de fechar em apenas nove meses.

- Sétimo!

E a vida do seu Carvalho continuou nesse vai e vem, nesse sobe e desce, nesse abre e fecha. Chegou a hora do cinema abrir as portas para Demerval. Não, ele não foi tentar ser ator. Isso nunca esteve nos seus planos. Na verdade, ele conseguiu um emprego de gerente de cinema na empresa Cinematográfica Sul, responsável por salas como o Marabá e o Olido. "Isso foi bem no final de 1982, na época daquele filme ET", recorda.

Passou quatro anos nessa vida de cinema, até 1986. Ali, conheceu uma moça chamada Maria Geralda, que trabalhava na bilheteria, com quem se casou.

- Oitavo!

Ao sair do emprego, seu Carvalho andava meio cabisbaixo, meio desanimado. Sempre passava em frente ao prédio da APM para conversar com os amigos, entre eles o seu Ari, Aristides Alves.

- Ô, Ari, não tem nenhuma vaga aí pra mim, não? - perguntou ao colega de muitos anos.

- Vou conversar com o chefe para ver se ele não quer contratar você - disse Ari.

- Rapaz - disse Carvalho - você não sabe como eu vou ficar satisfeito.

Seu Ari explicou ao superior quem era o Carvalhinho e ele o chamou para conversar. "Só havia uma vaga de ascensorista para o período noturno. Ele ficou feliz demais", relembra o amigo.

- Nono!

Tão feliz que há quase 20 anos, vai e volta a pé, todos os dias, de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Às vezes, com direito a alguma parada no meio do caminho para um almoço, um bate-papo... Há 13 anos, o itinerário é sempre o mesmo: sai da rua 14 de julho, com a sua pasta em punho, atravessa a Major Diogo, até chegar na esquina da Rua Santo Amaro com a Rua Francisca Miquelina, entra na Miquelina e segue até o número 67, a entrada do estacionamento da APM. Isso sempre muito antes do horário. Conversa um pouco com os colegas e, finalmente, bate o ponto às 17h, pra sair só às 23h. Conforme a escala, trabalha também aos sábados.

- Décimo!

Esses poucos quarteirões que separam a casa em que ele mora da Associação fazem companhia diária a sua vida solitária, assim como os colegas de trabalho, os médicos que freqüentam a casa, as pessoas que sobem e descem pelo elevador do seu Carvalho, para as quais ele abre e fecha a porta todos os dias. Demerval não tem filhos. Depois que os pais morreram não tem ido muito ao Piauí e vê muito pouco o único irmão, Laudemiro Filho, aposentado pela empresa Cofap, que mora em São Paulo, na zona leste, com a mulher e os três filhos.

- Décimo primeiro!

Uma coisa é certa, embora nem tudo tenha saído como planejado, Carvalho nunca deixou de sonhar. Ele é um inventor. Por volta de 1995, criou uma peça portátil para auxiliar as pessoas de baixa estatura a andarem mais confortavelmente nos ônibus. Pelo invento, ganhou até seus 15 minutos de fama, ao protagonizar uma matéria na Rede Cultura de Televisão. Mas o sonho não saiu do papel. Apesar de registrado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial, não conseguiu nenhum empresário para bancar a invenção.

- Décimo segundo!

E desde aquele agosto de 1986, quando entrou pela segunda vez como funcionário da APM, o elevador é o seu instrumento de trabalho. Passaram-se já quase 20 anos, literalmente no sobe e desce, no vai e vem, no abre e fecha. Não que ele goste tanto assim de elevador. Demerval gosta mesmo é da APM. "As pessoas acham que é exagero, mas não é, a APM é mesmo uma mãe pra mim". E ele faz questão de explicar:

- Cheguei em São Paulo e não conhecia praticamente ninguém, a APM me acolheu no início e quando precisei de novo.

- Décimo terceiro!

O amigo Ari confirma:

- Quando entrei na APM, ele era auxiliar do caixa do Clube Médico, era o segundo homem de confiança do diretor (o primeiro era o Sr. José de La Fuente). O Carvalhinho tinha acesso a tudo. E, em todos esses anos, percebemos que a APM foi, constantemente, mãe, pai e filhos para ele. Sempre tratou esta Casa com muito amor.

Tudo bem, seu Carvalho, pode ficar tranqüilo, ninguém vai achar que o senhor está exagerando não.

- Desce! Ou sobe?

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