Avanço da variante delta e baixa vacinação fazem Covid disparar no Sudeste Asiático

Países que controlaram pandemia na primeira onda veem agora seus sistemas colapsarem

O que diz a mídia

“Exemplo de sucesso”, “fenômeno” e “modelo para o mundo”. Assim o Vietnã foi descrito em estudos e reportagens que relatavam o triunfo do país asiático de 100 milhões de habitantes contra a Covid-19. Até maio deste ano, o Vietnã tinha registrado só 35 mortes pela pandemia, todas elas concentradas em pouco mais de um mês no ano passado.

O cenário no país, no entanto, mudou. Embora ainda registre apenas 1.161 mortes por Covid-19 ao todo até o último sábado (30), o número de baixas pela doença explodiu no último mês, a ponto de em um único dia, a última quinta (29), o Vietnã contar 392 vítimas.

O caso do Vietnã é emblemático do que vem enfrentando o Sudeste Asiático, região que conseguiu controlar, cada país à sua medida, o avanço do coronavírus ao longo de mais de um ano, mas que tem visto seus sistemas colapsarem em um momento em que as nações mais ricas do mundo avistam o outro lado do túnel da pandemia.

É na região asiática, por exemplo, onde está o país no qual mais se morre pela doença hoje, a Indonésia. Só na última terça (27), foram registradas 2.069 mortes pela doença por lá. Para se ter uma ideia, isso é quase 7 vezes as cerca de 300 mortes por dia que o país registrava entre o fim de janeiro e o começo de fevereiro, no que havia sido até agora o pico da doença.

Uma combinação de três fatores explicam a explosão de casos e mortes no Sudeste Asiático, na avaliação do epidemiologista indonésio Dickie Budiman, pesquisador da Griffith University, na Austrália.

O primeiro é o que vem preocupando o mundo todo, o avanço da variante delta do coronavírus, que só na Indonésia corresponde a 93% dos casos. A mutação não é só mais contagiosa como também tem derrubado a eficácia das vacinas em aplicação, ainda que elas continuem eficientes para prevenir mortes e hospitalização.

Há discussões defendendo, por exemplo, que a Coronavac —vacina largamente usada na região, desenvolvida pela chinesa Sinovac e, no Brasil, distribuída pelo Butantan— tenha uma terceira dose para a população em geral, de reforço. Trabalhadores da área da saúde já estão recebendo um reforço de outra fabricante, a Moderna, depois que o país registrou a morte de vacinados, e a medida pode ser estendida para o restante da população.

Mas aumentar o número de doses necessárias deve dificultar ainda mais o controle da pandemia no Sudeste Asiático, já que outro fator que explica o colapso da região é a baixa oferta de vacinas, afirma Budiman.

Indonésia e Filipinas, os países mais populosos da área, não atingiram 8% da população vacinada completamente. No Vietnã, com seus quase 100 milhões de habitantes, a taxa de pessoas completamente imunizadas é de 0,6%. Para comparação, o Brasil se aproxima dos 20% da população total completamente imunizada.

A baixa capacidade de testagem é o terceiro motivo elencado pelo epidemiologista indonésio para explicar a explosão de Covid-19 no Sudeste Asiático.

“Infelizmente, antes mesmo do avanço da variante delta, as condições já eram ruins, com poucas vacinas e testagem baixa. Agora a situação é ainda pior, com os hospitais lotados”, diz Budiman à Folha.

Ele reforça que o baixo índice de imunização se dá pela falta de disponibilidade de vacinas. “Não existe um sentimento antivacina expressivo, as pessoas estão ansiosas para se vacinar. Isso é uma boa notícia, mas o desafio é conseguir imunizantes para milhões e milhões de pessoas”, completa.

A explosão da Covid na região atraiu atenção internacional, já que a falta de controle da doença é o caldo ideal para o surgimento de mutações que podem burlar as vacinas.

O Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, se reunirá por cinco dias na próxima semana com dez ministros das relações exteriores da Asean, associação de países do Sudeste Asiático, e terá na pauta, entre outras coisas, a doação de vacinas para a região —23 milhões de doses foram doadas. Além disso, a vice-presidente do país, Kamala Harris, visitará o Vietnã e Singapura em agosto.

Os americanos têm especial interesse em fortalecer sua imagem na região como uma forma de conter o avanço da China. É no Sudeste Asiático que fica um dos maiores desafios geopolíticos do mundo hoje, a questão do Mar do Sul da China, região estratégica de grande importância econômica sobre a qual os chineses reivindicam controle, o que é contestado por outras nações.

Além dos americanos, o Reino Unido recorreu ao Conselho de Segurança da ONU na última quinta para alertar para a situação de Mianmar, clamando por um cessar-fogo para garantir a vacinação. Isso porque, além de lutar contra o vírus, a população do país de 54 milhões de pessoas foi surpreendida por um golpe de Estado em fevereiro, que instalou um governo militar. Uma parcela reagiu e, segundo a associação de assistência a presos políticos do país, 940 pessoas já foram mortas pela junta militar.

Mas o caso que mais tem preocupado o planeta é o da Indonésia, hoje epicentro da doença, que tem recebido doações de vacinas, oxigênio e outros suprimentos para conter o contágio.

Apesar de o número de casos e mortes não parar de crescer, o país de 270 milhões de habitantes começou a aliviar restrições e permitiu na última semana, por exemplo, que pequenos comerciantes, mercados tradicionais, shoppings centers e restaurantes com área externa reabram as portas.

Por outro lado, Singapura é a principal exceção da região. Apesar da concentração de gente (é o segundo país mais denso do mundo), o controle da doença no país é mais fácil na cidade-Estado insular do que em outros locais como a Indonésia, cujo território é dividido por mais de 17 mil ilhas.

Embora Singapura tenha registrado um aumento recente de casos à medida que a variante delta avança por toda a região, o número de confirmações diárias da doença é hoje cerca de 15% do que foi no pico de abril do ano passado. Até agora, só 37 pessoas morreram no país de quase 6 milhões de habitantes. É que lá 55% da população já está completamente imunizada contra a Covid-19 e 73% recebeu ao menos uma dose.

Fonte: Folha de S. Paulo