Malária, suas mazelas e uma nova vacina

Doenças infecciosas moldaram a história humana e a malária tem um lugar de destaque entre todas elas. Há relatos de suas vítimas desde o período neolítico, quando foi intensificado o desenvolvimento da agricultura, com a sedentarização de grupos humanos e o aparecimento dos primeiros assentamentos.

O que diz a mídia

Doenças infecciosas moldaram a história humana e a malária tem um lugar de destaque entre todas elas. Há relatos de suas vítimas desde o período neolítico, quando foi intensificado o desenvolvimento da agricultura, com a sedentarização de grupos humanos e o aparecimento dos primeiros assentamentos.

A malária marcou grandes civilizações e é tida como uma das principais causas para a queda do Império Romano. Coincidência ou não, o nome deriva do italiano e significa “ar ruim” (mal’aria, do italiano medieval), pois acreditavam que a doença emanava de ares pútridos dos pântanos, que transmitiam a doença às pessoas.

Estima-se que, somente no século 20, tenha causado a morte de 150 a 300 milhões de pessoas. As principais vítimas são crianças, de países ao sul do Saara africano. E, tudo isso, a despeito da existência de medidas preventivas, drogas profiláticas e tratamento eficaz. Somente em 2020, foram registrados 241 milhões de casos e 627 mil mortes.

Apesar do apelo de países que sofrem com a doença, bem como de organizações não governamentais, o acesso às medidas de enfrentamento e o investimento em pesquisa de novas soluções continuam limitados. Estes parâmetros definem a malária como uma “doença negligenciada”. Ocorresse ainda em países desenvolvidos, a busca por soluções seria, muito provavelmente, bem mais ágil.

Os anofelinos, principais mosquitos transmissores do Plasmodium, gosta do clima quente. Com clima tropical, o Brasil é um país onde também tem casos. Entretanto, o perfil local da doença é diferente do encontrado em outros países africanos. A principal razão é que aqui predomina um tipo menos agressivo do Plasmodium vivax, enquanto a causada pelo Plasmodium falciparum leva à forma de apresentação mais grave.

Ainda assim, foram várias as tentativas de controle da doença em nosso país. Uma das mais notórias foi a decisão do uso, “em massa”, de cloroquina. A medicação, que voltou à baila durante a pandemia de Covid-19, foi empregada nos anos 1950, pois apresentava efeito contra todos os tipos de malária. Tendo sido misturada ao sal de cozinha, surtiu efeito mas acabou gerando outra consequência: o Plasmodium falciparum ficou resistente à cloroquina, levando à mudança de diretrizes de tratamento.

A solução ansiosamente aguardada por todos é uma vacina eficaz. E aí, a contribuição inclui fortes laços com o Brasil.

Ruth Sonntag Nussenzweig dedicou sua vida a estudar a malária. Formada em medicina pela USP, foi com o marido Victor para os EUA, desmotivados pelo momento brasileiro hostil aos pesquisadores, após 1964. Demonstrando sua viabilidade em modelos animais, desenvolveu ferramentas fundamentais para a produção de uma vacina, testada em várias formulações, junto com outros pesquisadores brasileiros.

Em 2021, os resultados da vacina, apelidada de Mosquirix, foram publicados. Ela passou a ser recomendada pela OMS em outubro, depois de mostrar-se capaz de reduzir em 30% os casos de malária grave, quando usada em associação com medicamentos preventivos.

Embora esta proteção fique aquém do que se gostaria, uma barreira fenomenal foi transposta, mostrando que uma vacina é possível. Tamanha descoberta poderia colocar Ruth como forte candidata ao prêmio Nobel em Fisiologia e Medicina. Ela morreu em abril de 2018.

Aliada ao uso de repelentes, inseticidas, telas de proteção, controle de mosquitos e tratamento adequado, esperamos que esta vacina, e as que porventura surgirão, possam finalmente controlar a malária e salvar milhões de vidas.

Fonte: Folha de S.Paulo