Não faltam vacinas, faltam vacinados

Com metade da população mundial vacinada contra a Covid-19 com pelo menos uma dose, chegamos em um ponto de virada.

O que diz a mídia

Um feito colossal da ciência, que já produziu bilhões de doses de vacinas seguras e eficazes. Pela primeira vez, nosso desafio em uma pandemia deixou de ser entender o que se passa, para ser agir de acordo com o que entendemos. Nosso problema passa a ser a falta não de vacinas, mas de vacinados.

Como destaca a Unicef, os países do G20 concentram 15 vezes mais vacinas por habitante do que os países da África Subsaariana. Mas essa desigualdade não explica os números recentes da Covid. Em setembro, ao mesmo tempo que EUA e Europa ultrapassaram a metade de sua população completamente imunizada, concentraram por volta de metade dos casos mundiais de Covid. São regiões ricas que garantiram várias doses de vacina por habitante. Mas a resistência de parte dessa população a se vacinar mantém o vírus circulando.

Segundo o Office for National Statistics do Reino Unido, entre janeiro e setembro de 2021, não vacinados tiveram um risco 32 vezes maior de morrer por Covid do que os completamente imunizados. E segundo o Centro de Controle de Doenças dos EUA, quem pegou o novo coronavírus e se curou, mas não se vacinou, teve mais de cinco vezes mais chances de ter Covid novamente do que quem nunca pegou o vírus mas tomou as duas doses das vacinas. Ou seja, até curados não estão tão protegidos quanto quem se vacinou e têm mais chances de ter e passar Covid.

Estamos em uma corrida para vacinas mais universais contra novas variantes e outros coronavírus. Algo importante, já que não faltam vírus parecidos com o Sars-CoV-2 em morcegos pela Ásia, um grande potencial de futuras pandemias. Mas mesmo se tivéssemos bilhões dessas vacinas hoje, talvez não atingíssemos a proporção de vacinados necessária para resolver o problema.

Mesmo no Brasil do Zé Gotinha, enquanto SP se aproxima de 70% da população totalmente imunizada, RR e AP, mal atingiram 30%. A falta de infraestrutura e uma população mais dispersa na Região Norte explicam parte da nossa disparidade, mas isso se soma à “recusa à vacina por ideologia religiosa e cultural”, segundo apurou Mariana Alvim da BBC.

Assim como nas mudanças climáticas, as soluções que a ciência pode prover também precisam de ação. Donald W. Braben serve de exemplo involuntário com seu livro “Scientific Freedom: The Elixir of Civilization”. Na obra, ele defende que o financiamento da pesquisa científica sem finalidade prática é fundamental para o avanço humano. Nisso, concordamos.

Ele argumenta que, se os rapanui da Ilha de Páscoa tivessem cientistas, poderiam entender e evitar o colapso do ecossistema da ilha e o declínio que sofreram por consequência. Só que o próprio Braben —que coordenou um centro de pesquisa movida à curiosidade financiado por uma petroleira— afirma no livro que não se sabe se o aquecimento global foi causado pela nossa emissão de carbono. Aquele carbono muito produzido pela indústria do petróleo. O próprio autor teve acesso à informação científica sólida que mostra que somos a causa da maior catástrofe ambiental recente e precisamos agir para evitar o pior. E não acredita nos cientistas que iluminariam os rapanui.

Graças ao nosso desmatamento, o Brasil aumentou a emissão de carbono nos últimos anos, na contramão do mundo e da ciência. Na gestão da pandemia, idem. Não nos falta conhecimento ou soluções, nos faltam ações alinhadas à ciência.

Fonte: Folha de S.Paulo