Webinar APM/Regionais debate Bioética e Cuidados Paliativos

Na noite da última quarta-feira, 15 de setembro, a Associação Paulista de Medicina e as Regionais de Ribeirão Preto e de Jundiaí realizaram mais uma edição do webinar APM. Os temas escolhidos para debate foram “Bioética em Tempos de Covid-19” e “Cuidados Paliativos sem tabu”, com transmissão ao vivo no Youtube.

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Na noite da última quarta-feira, 15 de setembro, a Associação Paulista de Medicina e as Regionais de Ribeirão Preto e de Jundiaí realizaram mais uma edição do webinar APM. Os temas escolhidos para debate foram “Bioética em Tempos de Covid-19” e “Cuidados Paliativos sem tabu”, com transmissão ao vivo no Youtube.

João Sobreira de Moura Neto, 1º vice-presidente da APM, foi o responsável pela apresentação do evento. “Os temas abordados são muito palpitantes e com certeza teremos excelentes apresentações pelos palestrantes”, disse.

Em seguida, os moderadores Fábio José Gonçalves da Luz, presidente da APM Ribeirão Preto, e Fabiano Genôva de Oliveira, presidente da APM Jundiaí, fizeram as apresentações dos convidados. “Para nós, é uma honra estar participando de mais um webinar. Os participantes terão a oportunidade de aproveitar da sabedoria e sapiência dos palestrantes e poderão discutir um assunto tão interessante”, refletiu Gonçalves.

“Nós, médicos, não estamos acostumados a lidar com esse tipo de disciplina. Apenas algumas faculdades brasileiras têm a Medicina paliativa como parte de seu currículo, e muitos colegas acabam tendo contato com a prática após se tornarem médicos. É uma prática muito importante, pois visa promover a qualidade de vida ao paciente mesmo em seu pouco tempo de vida e entender quais são suas expectativas”, destacou Oliveira.

Valores da Bioética

O debate sobre Bioética em tempos de Covid-19 ficou por conta de Isac Jorge Filho, ex-presidente do Cremesp e do Centro Médico de Ribeirão Preto (Regional da APM). Ao iniciar sua apresentação, explicou que o tema é muito mais complicado do que possa parecer. “A maioria das faculdades de Medicina já desistiu da bioética. Em todo o mundo, o número de cursos de bioética está aumentando e, no Brasil, as coisas não acontecem.”

Antes de dar continuidade à exposição sobre o assunto, o especialista emocionou-se ao fazer uma homenagem a um jovem casal de amigos que infelizmente faleceu por conta de complicações da Covid-19. “Me emociono trazendo essa homenagem aos dois e relembrando como está inseguro viver em tempos de pandemia. Era um casal que não tinha nenhuma doença aparente e, de repente, faleceu. Quero fazer um grande pedido a todos, não falem que sabem alguma coisa sobre a Covid-19, essa doença é uma tortura e ninguém realmente entende o que está acontecendo, ainda continuamos apanhando com esta terrível pandemia”, salienta.

Em seguida, explicou sobre as ideias que o levaram a escrever o livro “Bioética – fundamentos e reflexões”, publicado em setembro de 2017. Para Isac Jorge, a prática é um campo do conhecimento humano que cresce cada vez mais, pois inclui diversas áreas de atuação, jurídicas, médicas e físicas.

Outro ponto levantado pelo palestrante foram os valores agregados com a chegada da pandemia de Covid-19, entre eles beneficência, não maleficência, autonomia e justiça. “Esses são os campos de estudos da bioética. Com o passar do tempo, percebemos que estes quatro valores apresentados não davam conta de explicar todos os problemas da bioética. A partir de estudos, foram criadas sete diretrizes, que ajudam a explicar o que os princípios são conseguem. A bioética na era de Covid-19 é uma prática solidária. Durante este período, muitas pessoas também se interessaram pela espiritualidade ligada a essa prática, não voltada para a religião, mas um estado de valor colocado em diversos raciocínios”, complementou.

Finalizando a exposição sobre o tema, o especialista ainda ressaltou que, durante a pandemia, todos os valores da bioética foram modificados. “Não há um valor que permanece igual, percebemos que a pandemia trouxe e tem mostrado cada vez mais as diferenças sociais no País. Aumentaram os crimes, acidentes, fome, tudo está aumentando para pior, e o que parte para o melhor, não é suficiente. Na verdade, estamos em um novo tempo, e precisamos impedir ou diminuir a transmissão do vírus, mantendo o isolamento social, usando máscara e estimulando a vacinação em massa. Por mais que tenhamos preocupação com isso, não temos nenhum remédio eficiente para a doença, temos que fazer o que está ao nosso alcance.”

Cuidados paliativos

Juliana Mandato Ferragut, mestre em saúde pública pela Universidade Federal do Ceará (UFC), ficou responsável pelo debate sobre Cuidados Paliativos sem tabu. “É uma honra estar aqui, transformar o que para mim hoje não é somente minha profissão, mas o que me identifiquei como ser humano, dentro da lógica do existencialismo, isso é o meu sentido de vida”, agradeceu.

O primeiro ponto levantado pela especialista foi o alívio ao sofrimento grave relacionado à saúde.  “Cuidados paliativos sem tabu no Brasil talvez seja o tópico, pois nós carregamos uma cultura que traz muito tabus e estudos ainda estão muito atrasados sobre o que realmente essa ciência significa”, explicou.

Segundo a médica, muito do que se fala sobre cuidados paliativos no Brasil, em serviços de saúde e na sociedade em geral, não possui correspondência com o que a área realmente se propõe, uma abordagem de cuidado composta de práticas de assistência no âmbito de saúde e de estratégias sociais. “Trata-se de uma abordagem complexa transdisciplinar, que envolve uma filosofia de cuidado, que precisa ser executada através de políticas em saúde e sociais, com o intuito de promover prevenção, diagnóstico e tratamento qualificado de sintomas e sofrimento”, explicou.

“Desde a idade média, cuidados paliativos não têm nada a ver com o conceito ‘não posso fazer nada por você ou pela pessoa que você ama’. Na verdade, indica que o diagnóstico é de uma doença grave, que ameaça a vida e que uma equipe irá tratá-lo, juntamente com profissionais especializados na doença”, complementa.

A especialista também explica que não se pode falar da prática sem falar do movimento ‘Hospice Moderno’, criado pela médica britânica Cicely Saunders, que promove cuidados de modo integral à pessoa em processo de terminalidade, bem como de sua família, inclusive no período de luto. Ainda citou a frase da pesquisadora: “Ao cuidar de você no momento final da vida, quero que você sinta que me importo pelo fato de você ser você, que me importo até o último momento de sua vida, e faremos de tudo que estiver ao nosso alcance, não somente para ajudá-lo a morrer em paz, mas também para você viver até o dia de sua morte. Não podemos curar você, mas continuaremos a cuidar de você!”.

“É preciso nos aprimorarmos dos conceitos corretos, da queda de tabu e, assim, compreender que a filosofia hospice trata-se de ser praticada em todo o mundo, e em como nos portar na comunidade de forma comprometida com o cuidado de pessoas, cuja vida se torna vulnerável e com sofrimento”, explica Juliana.

A filosofia hospice propõe um novo paradigma para a assistência à saúde e social, executado através de uma abordagem complexa denominada de Cuidados Paliativos. Essa abordagem baseia-se em prestar assistência ampliada para todo indivíduo que tem uma doença grave, promovendo a prevenção e o diagnóstico precoce, em associação com o controle de sofrimento.

Por fim, a especialista ressaltou o fato de que o alívio de sofrimento é um direito humanitário, e o fato de o acesso a uma intervenção tão barata, eficaz e essencial ser negada à maioria dos pacientes, hoje é entendido como uma falha médica, de saúde pública e moral. “Por não dominarmos tecnicamente estratégias especializadas em favorecer a qualidade de vida e proteger esse indivíduo, não significa que esses pacientes não existam, precisamos cuidá-los”, concluiu. 

Debate

Após concluírem as apresentações iniciais, os moderadores e participantes tiveram a oportunidade de levantar questionamentos sobre os temas discutidos. Questionada pelo presidente de Jundiaí sobre o que o médico deve realmente saber e carregar como bagagem sobre cuidados paliativos, a especialista respondeu que a prática está dividida em níveis: abordagem, complexidade de tratamento e necessidades do paciente.

“Se os profissionais realizassem cursos de comunicação em saúde e manejo de sintomas, conseguiríamos resolver muita coisa. Outro ponto importante é o contato com profissionais que já possuem experiência na área, isso irá ajudar a entender o nível de complexidade da prática”, respondeu.

O vice-presidente da APM Estadual também levantou o questionamento sobre os limites do cuidado paliativo sob o olhar da bioética. Por sua vez, Isac respondeu que não existem limites. “Acredito que precisamos rever esses conceitos, o paciente precisa saber que pode contar com o profissional de Saúde para tudo, o tempo todo, até que dê o último respiro.”

“Agradeço aos participantes pelas excelentes palestras. Com esse webinar, a APM cumpre um de seus principais papéis, o de levar atualização científica, informação e interação social não só com médicos associados, temos esse papel de intercâmbio com a sociedade”, finalizou Sobreira.

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