Efeitos da vacina contra a Covid-19 em crianças e adolescentes são tema de artigo da D&T

O diretor de Economia Médica e Saúde Baseada em Evidências da Associação Paulista de Medicina, Álvaro Nagib Atallah, é um dos autores do artigo “Efetividade e segurança das vacinas para Covid-19 em crianças e adolescentes: sinopse baseada em evidências”

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O diretor de Economia Médica e Saúde Baseada em Evidências da Associação Paulista de Medicina, Álvaro Nagib Atallah, é um dos autores do artigo “Efetividade e segurança das vacinas para Covid-19 em crianças e adolescentes: sinopse baseada em evidências”, que será disponibilizado na próxima edição da revista científica Diagnóstico & Tratamento.

O objetivo foi conduzir um estudo baseado nas melhores evidências científicas para avaliar a segurança das vacinas contra o coronavírus em crianças e adolescentes, verificar a sua eficácia e descrever eventuais efeitos adversos associados ao imunizante.

Segundo o artigo, embora muitos países ainda sejam afetados por ondas de surtos de Covid-19, a transmissão e os óbitos por conta da doença diminuíram de forma inegável graças aos imunizantes. “As vacinas constituem a necessidade imediata para conter o desastre associado à pandemia que já abalou o sistema de saúde, econômico e social do mundo todo. A maioria dos estudos clínicos realizados até o momento não demonstram a ocorrência de eventos adversos graves associados às vacinas para Covid-19”, relata o documento.

A estratégia da pesquisa seguiu a metodologia das Revisões Cochrane, com a busca em bases eletrônicas de dados – Medline via PubMed, Embase e Portal Regional BVS, além do metabuscador Trip Database – sem limitações de datas, idiomas ou restrições geográficas. O planejamento de estudo requereu identificações a análises da melhor qualidade de revisões sistemáticas de ensaios clínicos randomizados (ECR) e não randomizados, estudos coorte, estudos caso-controle e estudos de séries de casos.

Resultados 

No geral, a revisão contempla o envolvimento de mais de 13 milhões de participantes que fizeram parte de seis diferentes estudos, sendo eles as análises de Tian (2023), Sadeghi (2022), Le Corre (2023), Cinza-Estévez (2023), Kani (2023) e Walter (2021).

Os dados de Tian envolveram 17.731 pacientes e analisaram a população menor de 18 anos vacinada contra a Covid-19, indicando que a maior parte das reações adversas locais ou sistêmicas tiveram gravidade predominantemente leve e moderada, desaparecendo poucos dias após a aplicação da vacina.

Por sua vez, as informações do estudo Sadeghi, que incluíram 50.148 participantes, apontam que a resposta imunológica e a eficácia das vacinas foi de 96% a 100% em crianças e adolescentes saudáveis, além de serem bem aceitas em pacientes com doenças subjacentes e imunodeprimidos.

O ensaio clínico Le Corre trouxe informações referentes a 1.139 crianças entre três e 17 anos de idade que foram vacinadas com a CoronaVac no Chile. A primeira dose da vacina trouxe o maior número de eventos adversos (22,2% dos participantes relataram efeitos no local da vacina e 17,1% efeitos sistêmicos), sendo mais frequentes em adolescentes, com sintomas transitórios e leves, como dor na inoculação – o mais frequente para todas as idades. Febre e efeitos adversos sistêmicos tiveram mais manifestações para pacientes de três a cinco anos, enquanto dor de cabeça foi a principal queixa da faixa etária dos seis aos 17 anos.

Cinza-Estévez totalizou 592 casos obtidos por meio de um ensaio clínico conduzido em nove diferentes policlínicas de Cuba. A análise, feita com crianças e adolescentes saudáveis de três a 18 anos, demonstra que o efeito adverso mais comum foi dor no local da vacina e dor de cabeça. Nestes casos, os sintomas desapareceram em um período de 24 a 48 horas.

Um grande levantamento de Kani incluiu um total de 10.935.541 vacinados e 2.635.251 não-vacinados, totalizando 13.570.792 crianças entre cinco e 11 anos de idade. Apesar de contar com uma incidência de 8,8% de eventos adversos que impediram a rotina diária de atividades e com ocorrência de miocardite estimada em 1,8 caso por milhão de vacinados após a segunda dose. A revisão conclui que a vacina é segura e eficaz para prevenir a Covid-19 e as complicações graves relacionadas à ao Covid-19.

Já a pesquisa Walter, que avaliou a segurança da vacina da Pfizer (BNT162b2), apurou resultados de 2.316 participantes. Assim como os demais, o imunizante apresentou segurança favorável em sua aplicação e não foram observados eventos adversos graves relacionados à vacina.

Dentre os sintomas apresentados como efeitos colaterais do pós-vacina, os estudos relatam que podem surgir eritemas/vermelhidões, náusea/vômito, dor na inoculação da vacina e febre. As revisões apontam que tais manifestações são transitórias e facilmente resolvidas, não afetando a saúde dos imunizados.

A análise de Tian conclui que ainda são necessários mais pesquisas e acompanhamentos de longo prazo para avaliar a duração das respostas imunológicas dos pacientes. As demais investigações também apresentaram resultados favoráveis à aplicação dos imunizantes nos indivíduos das faixas etárias observadas.

Assim, o artigo destaca que “diante das evidências de efetividade das vacinas e baixo risco de complicações associados, o risco-benefício justifica largamente sua utilização em crianças e adolescentes”.

É importante salientar que este estudo se baseou nas melhores evidências científicas existentes na literatura médica. Há uma tendência atual de se tentar substituir as provas científicas por opiniões, chamadas de consensos, da população e de médicos, via questionários discutíveis e sem valor científico. Há quem queira uma espécie de democratismo opinativo, em substituição aos estudos comparativos imparciais, que exigem muito trabalho e imparcialidade.

Na atualidade, não há dúvida que as decisões em Saúde precisam ser baseadas em provas. Do inglês, evidência significa prova. Poucas intervenções em Saúde, ou medicamentos, têm provas tão robustas de efetividade e segurança quanto as vacinas, dado que as exigências metodológicas são muito mais rigorosas do que mesmo os medicamentos que são prescritos aos milhares diariamente. Veja as bulas dos medicamentes que você tem em casa. E no caso, de crianças, o rigor é ainda maior. 

Referências

  1. Li M, Wang H, Tian L, Pang Z, Yang Q, Huang T, Fan J, Song L, Tong Y, Fan H. Desenvolvimento de vacinas COVID-19: marcos, lições e perspectivas. Transduto de Sinal Alvo Ther. 3 de maio de 2022; 7(1):146. DOI: 10.1038/s41392-022-00996-y. PMID: 35504917; PMCID: PMC9062866.
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  6. Biblioteca Virtual de Saúde. Disponível em: Crianças não podem tomar a vacina contra a Covid-19 junto com outras vacinas | Biblioteca Virtual em Saúde MS (saude.gov.br). Acessado em 21 de janeiro de 2024.
  7. CNN Brasil. Disponível em: Covid-19: Especialistas discutem efeitos colaterais das vacinas em crianças | CNN Brasil. Acessado em 21 de janeiro de 2024.
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10.  Tian, Y.; Chen, L.; Shi, Y. Safety, Efficacy, and Immunogenicity of Varying Types of COVID-19 Vaccines in Children Younger Than 18 Years: An Update of Systematic Review and Meta-Analysis. Vaccines 2023, 11, 87. https://doi.org/ 10.3390/vaccines11010087.

  1. Sadeghi et al, 2022. https://doi.org/10.1016/j.jcv.2022.105196.
  2. Le Corre N et al. Different Safety Pattern of an Inactivated SARS-CoV-2 Vaccine (CoronaVac®) According to Age Group in a Pediatric Population from 3 to 17 Years Old, in an Open-Label Study in Chile. Vaccines (2023) 11:10 Article Number: 1526. Date of Publication: 1 Oct 2023. DOI 10.3390/vaccines11101526
  3. Cinza-Estévez Z et al. www.thelancet.com Vol 63 September, 2023. eClinicalMedicine 2023;63: 102160 Published Online 18 August 2023. https://doi.org/10. 1016/j.eclinm.2023. 102160
  4. Kani R.; Watanabe A.; Iwagami M.; Takagi H.; Yasuhara J.; Kuno MD T. Efficacy and Safety of mRNA COVID-19 Vaccines in Children Aged 5-11 Years: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of the Pediatric Infectious Diseases Society (2023) 12 Supplement 1 (S5). Date of Publication: 1 Nov 2023
  5. Walter et al, 2021.  DOI: 10.1056/NEJMoa2116298