“Viver é gostar de gente”

Há 50 anos, serviço voluntário promovido pelos Médicos do Cangaíba contribui para levar Saúde e qualidade de vida às populações mais vulneráveis

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Foi durante um dos períodos mais críticos da ditadura militar no Brasil que o então estudante de Medicina Gilberto Natalini se viu preso em uma das celas do Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Movido pela promessa que havia feito ao companheiro de cela, o operário João Chile, de que o seu compromisso como médico era sério e buscava olhar para as populações carentes, Natalini cumpriu a palavra e ao lado de outros médicos recémformados, Henrique Francé e Nacime Mansur, iniciou o atendimento voluntário nos fundos da Paróquia Bom Jesus do Cangaíba, em janeiro de 1976.

Hoje, quase 50 anos depois, o grupo contabiliza em torno de 150 mil atendimentos, além de incontáveis histórias que elucidam como o trabalho voluntário é transformador. Em entrevista à Revista da APM, Natalini e Francé relembram a trajetória do projeto e reforçam que “viver é gostar de gente”. Confira a seguir.

Quais atividades e tipos de atendimentos são promovidos pelo voluntariado? Como os pacientes são selecionados?
Natalini: Nós começamos o atendimento voluntário do Cangaíba em janeiro de 1976, entre 14 médicos e estudantes de Medicina. Com o tempo, muitos não conseguiram ficar, foram saindo, e dos antigos restaram eu, doutor Francé e doutor Nacime. Lá, nós atendemos Clínica Geral, Pediatria, Geriatria, até Psiquiatria, cada médico atende os pacientes que chegam, na medida de sua capacidade, e depois, se for o caso, encaminhamos para as especialidades. Nossos encaminhamentos são feitos conforme o acordo que temos com o Ambulatório Médico de Especialidades Maria Zélia, em que eles atendem todas as especialidades, inclusive, operam e fazem procedimentos, até mesmo na área da Oncologia. Calculamos que nestes 50 anos, em torno de 150 mil pacientes foram atendidos e, atualmente, quase 80% dos casos cuidamos ali no Cangaíba mesmo e entre 20% e 30%, fazemos encaminhamento. Nós somos um laboratório de Medicina Geral, mas com portas de entrada e de saída para as especialidades.

Francé: Atualmente, fazemos atendimento de pacientes que podem vir com uma queixa e que precisam de condutas clínicas, como receita e coletas de exames, e alguns são de necessidades cirúrgicas. Queremos fazer tudo direito, apesar de sermos voluntários, porque isso não pode ser “Medicina para gente pobre”, não, tem que ser Medicina boa para qualquer tipo de pessoa, então fazemos a parte clínica, com apoio diagnóstico e tratamento. Isso foi mudando com o passar dos anos, em 1976 não havia SUS e nenhum recurso de Saúde lá [no Cangaíba], então, na época, fazíamos pré-natal, atendíamos
crianças e adultos. Hoje, 50 anos depois, existem mais recursos, então levamos em conta as necessidades, quando são doenças muito mais graves, ajudamos a fazer diagnóstico e encaminhamos para a rede do SUS. Além do atendimento médico, nós temos uma farmácia, então fazemos a assistência farmacêutica, com uma pessoa que comparece duas vezes por semana, analisa as receitas e dá o medicamento. Inclusive, a farmácia é abastecida com remédios que são doados por pessoas que não os usam mais e por amostras grátis, que às vezes algum laboratório traz ou que a gente acaba ganhando.

Conseguem se recordar do caso mais marcante durante estes anos de voluntariado?
Natalini: Um dos casos médicos mais desafiadores que eu tive ali foi o de um senhor de 83 anos, que apareceu com uma dor abdominal e eu diagnostiquei um câncer, isso já faz uns 25 ou 30 anos. Depois de diagnosticar, fiz todos os exames preparatórios, levei ele para o Hospital Cristo Rei, operei, fiz uma hemicolectomia direita e o trouxe de volta para o ambulatório para acompanhamento. A família comprou os quimioterápicos e eu fiz quimioterapia naquele senhor durante muito tempo, até que ele teve remissão completa e ainda viveu mais dez anos e morreu, mas não de câncer. Como ele era alfaiate, todo ano, no Natal, fazia um terno e me dava de presente. Foi um desafio médico muito grande, mas que conseguimos vencer ali naquele ambulatório do Cangaíba.

Francé: Eu consigo sempre me lembrar de um caso em que a minha paciente, que tinha 50 e poucos anos, estava com uma dor muito grande de um lado da face. Nós fizemos o diagnóstico de neuralgia do trigêmeo. Certo dia, eu fui visitá-la na casa dela, a chamei, e ela estava ajoelhada diante um anjo, pela fé que ela tem, implorando para que o anjo tirasse a sua dor. Como médico, consegui fazer o diagnóstico, dei a medicação e ela melhorou muito.

Qual o significado de promover o trabalho voluntário e levar cuidado e atenção às populações mais vulneráveis?
Natalini: Eu fui por dois motivos. Primeiro, porque eu queria atender as pessoas mais pobres, sempre tive isso comigo, estudei com dificuldades e minha família sofreu para eu me formar, eu queria devolver para a sociedade um pouco do que eu recebi da Escola Paulista de Medicina e da escola pública. Também me
tornei voluntário para, por meio do atendimento à Saúde, mobilizar e organizar a população por melhores condições de Saúde e de vida, foi assim que nós fizemos e fazemos até hoje no atendimento do Cangaíba.

Francé: Eu sou formado por uma escola pública, a Escola Paulista de Medicina, e tinha essa vontade. Estudamos com pacientes mais pobres, mais simples e queríamos levar esse cuidado para lugares em que não havia recursos. O significado de promover o voluntariado é que a gente se sente bem fazendo isso, a gente melhora como pessoa. Na região do Cangaíba não tinha nenhuma unidade básica de Saúde e nós fizemos uma luta importante e juntamos muita gente para conseguir o chamado posto de saúde, depois eu fui trabalhar lá, fui médico por 16 anos. Também participamos da conscientização das pessoas, para que formassem conselhos para lutar pela Saúde.

Como o público geral, que não é médico, pode fazer para participar das ações do voluntariado? Atualmente, o grupo conta com quantos voluntários?
Natalini: O público que não é médico pode ajudar de muitas maneiras. Precisamos também de enfermeiros, farmacêuticos, e se a pessoa não é a da área da Saúde, pode ajudar nas fichas, na organização das marcações de consulta, nos papéis de encaminhamento. Fazemos treinamento, ensinamos a medir pressão, por exemplo, então podem nos ajudar na pré-consulta, fazendo teste de diabetes, medindo a temperatura, pesando. Também podem nos ajudar fazendo campanhas para o ambulatório, arrecadando medicamentos, com o material de limpeza, com algum aparelho que quebre e precise ser reposto. Enfim, a ajuda no voluntariado pode ser feita de muitas maneiras.

Francé: Atualmente, o grupo tem sete médicos e seis outras pessoas, entre elas, técnicos de Enfermagem e farmacêuticos. Temos muitas formas de participar do voluntariado.

Quais foram os desafios enfrentados durante todos os anos de voluntariado?
Natalini: Os desafios são enormes. O primeiro desafio de um voluntariado é você mantê-lo por 50 anos. Isso não é uma coisa fácil, é muita persistência em um trabalho. Ou seja, é um compromisso de vida. Esse desafio nós vencemos, mas tivemos outros, por exemplo, a estrutura do local, o pagamento das despesas, hoje quem paga as contas de água e luz, essas coisas básicas, é a Paróquia do Bom Jesus do Cangaíba, em que estamos instalados. Agora, na época da ditadura, como fazíamos muita movimentação social em torno de reivindicação de Saúde, tivemos vários episódios de perseguição política, prisão, tentativa de prisão com as pessoas que nos ajudavam e conosco mesmo. Foi um desafio muito grande.

Francé: Olha, são 50 anos. Às vezes, não tínhamos serviço de urgência, precisávamos levar a pessoa para
o pronto-socorro nos nossos carros ou no carro de um colega. A vida era muito mais miserável, as pessoas moravam em lugares difíceis, tinham problemas de alimentação e não tinham saneamento básico, portanto havia muita infecção de diarreia, com desidratação, era muito comum isso, principalmente em crianças, que morriam por essas enfermidades, e por sarampo e broncopneumonia. Era muito difícil, fazíamos, por exemplo, pré-natal sozinhos, sem ultrassom, e depois lutávamos para a mulher grávida ter assistência na maternidade.

Qual recado gostariam de deixar para colegas de profissão que também tenham interesse em exercer o trabalho voluntário?
Natalini: O principal mote da Medicina hoje é a humanização. O voluntariado é uma forma de você se doar completamente para os pacientes, de uma maneira humana e dedicada, então, eu deixo aqui um convite aos meus colegas médicos, todos que puderem e quiserem, que possam se aproximar da gente ou de outras oportunidades de voluntariado e nos ajudem doando uma parte do seu tempo para atender as pessoas que não têm condições.

Francé: Eu acho que o bom trabalho voluntário não é pensando em recompensa, nem espiritual, nem material. Nós nos sentimos bem fazendo o bem, melhoramos como ser humano, isso nos ajuda, nos humaniza mais, então, ver de perto as condições das pessoas, poder conhecer melhor e ser o médico da família inteira também. Se tiverem condições, estão convidados, inclusive, para participar do nosso trabalho voluntário, que faz bem para o nosso espírito, para a nossa cabeça e para a nossa mente.