O presidente da Associação Paulista de Medicina, Antonio José Gonçalves, escreveu um artigo à coluna “Opinião” do Estadão, abordando a campanha Janeiro Branco, que chama atenção para o avanço da depressão e da ansiedade no Brasil. Confira na íntegra:
Janeiro Branco chama atenção para avanço da depressão e da ansiedade no Brasil
Cuidar da saúde mental não é apenas tratar doenças
O mês de janeiro, tradicionalmente associado a recomeços, ganhou nos últimos anos um significado adicional: a reflexão sobre a saúde mental. A campanha “Janeiro Branco” surge em um contexto em que depressão e ansiedade deixaram de ser questões individuais para tornarem-se um desafio coletivo, com impacto direto na saúde pública.
O cenário é preocupante no Brasil. O País aparece entre os líderes mundiais em prevalência de ansiedade, afetando aproximadamente 9,3% da população, enquanto a depressão atinge cerca de 10% dos brasileiros. Esses números revelam não apenas um problema de saúde, mas também um reflexo das desigualdades sociais, das condições de trabalho e das fragilidades no acesso ao tratamento.
A pandemia de covid-19 aprofundou esse quadro. O isolamento social, o luto coletivo e a instabilidade econômica provocaram um aumento estimado de 25% nos casos de ansiedade e depressão em escala global, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Embora a emergência sanitária tenha sido superada, seus efeitos emocionais permanecem, especialmente entre jovens, mulheres e trabalhadores submetidos a rotinas de alta pressão.
Apesar da magnitude do problema, o cuidado com a saúde mental ainda enfrenta obstáculos estruturais. A oferta de serviços especializados é insuficiente, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, e o estigma continua sendo uma barreira que afasta pessoas do diagnóstico e do tratamento. Muitas vezes, o sofrimento psíquico é silenciado até se transformar em incapacidade, adoecimento crônico ou afastamento social.
O “Janeiro Branco” propõe uma mudança de paradigma: falar sobre emoções, reconhecer limites e buscar ajuda profissional. Mais do que uma campanha de conscientização, a iniciativa reforça a necessidade de integrar a saúde mental às políticas públicas de forma permanente, com investimentos em atenção básica, formação de profissionais e fortalecimento da rede de cuidado psicossocial.
Cuidar da saúde mental não é apenas tratar doenças, mas promover qualidade de vida, relações mais saudáveis e sociedades mais produtivas e humanas. Ao dar visibilidade à depressão e à ansiedade, o “Janeiro Branco” lembra que o silêncio custa caro à sociedade.
Transformar essa consciência em ação contínua é o desafio que se impõe para além do mês de janeiro.
Fonte: Estadão – acesse aqui