Primeiro Cine Debate de 2022 discute filme de Federico Fellini

Na última sexta-feira, 11 de março, foi transmitida no canal da Associação Paulista de Medicina (APM) no YouTube a primeira edição de 2022 do Cine Debate, programa coordenador por Wimer Bottura Júnior, psiquiatra e psicoterapeuta. O filme da vez foi “A Estrada da Vida” (1954), do italiano Federico Fellini.

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Na última sexta-feira, 11 de março, foi transmitida no canal da Associação Paulista de Medicina (APM) no YouTube a primeira edição de 2022 do Cine Debate, programa coordenador por Wimer Bottura Júnior, psiquiatra e psicoterapeuta. O filme da vez foi “A Estrada da Vida” (1954), do italiano Federico Fellini.

A obra é centrada em Gelsomina (vivida por Giulietta Masina), uma garota vendida pela mãe a um brutamonte chamado Zampano (Anthony Quinn), estrela de um número em que arrebenta correntes amarradas em seu corpo. A jovem passa, então, a se apresentar como palhaça e auxiliar o homem, a despeito das constantes agressões que sofre.

Iniciando as discussões da noite, a psicóloga e psicoterapeuta Catarina Vidal destacou que, antes de ver o filme, escutou sua trilha sonora – cuja partitura foi escrita pelo célebre compositor italiano Nino Rota. “As músicas trouxeram muitas emoções, principalmente de tristeza. Com essas sensações fui ver o filme, que é bastante complexo e se passa em um cenário árido, com personagens muito fortes e com muitas nuances”, introduziu.

A seguir, ela destacou a atuação de Masina, à época já casada com Fellini. “Se olharmos para seus olhos, para o sorriso e o conjunto do rosto, vemos uma expressão muito forte e engraçada. Ela agrada uma pequena multidão com esse seu jeito, que lembra muito Charles Chaplin. Este filme, aliás, tem muitas referências.”

Outro ponto destacado pela psicóloga foi a grande quantidade de boas cenas que o filme carrega. “Todas têm profundidade e um porquê. Poderíamos detalhar cada uma delas, mas o que importa é conversarmos sobre a sensibilidade humana que a obra traz”, argumentou a psicóloga.

Clássico tardio
Yuri Teixeira, produtor cultural e audiovisual, também comentou a relação entre Giulietta e Fellini. Ambos se conheceram antes das suas carreiras no cinema, ainda em 1942, quando ele escrevia um roteiro para uma novela radiofônica em que ela atuava. Casaram-se no ano seguinte e viveram juntos por cinco décadas, até a morte do diretor em 1993 (a atriz faleceu cerca de cinco meses depois).

“Juntos, eles só fizeram clássicos. Muita gente a limita aos filmes de Fellini, mas Giulietta fez filmes antes dele estrear como diretor, quando era apenas um roteirista que colaborava com Roberto Rossellini ou programas de televisão e rádio. Ela estreou em 1948 e ele apenas em 1950. É bom lembrarmos isso”, pontuou Teixeira.

Segundo o palestrante, “A Estrada da Vida” é marcante por representar o início de um estilo próprio que o diretor desenvolveu ao longo de sua carreira. Ele também concordou com Catarina Vidal em relação à influência de Chaplin em Gelsomina, mas ampliou a análise. “Vejo muito de Harpo Marx, inclusive na indumentária. Gosto de incluir isso nesse caldeirão de referências.”

Apesar de sua qualidade, o filme só ganhou notoriedade posteriormente, explicou o produtor cultural. “Em seu ano, ele foi lançado no Festival de Veneza e não recebeu muita atenção. Concorreu ao prêmio, mas perdeu para o mais tradicional ‘Romeu e Julieta’. Depois, foi para outros festivais e países europeus e começou a surgir uma nova mitologia em torno dele.”

Conforme relatou, a revista francesa “Cahiers du Cinéma”, referência sobre o tema, foi a primeira publicação a louvar o filme em um artigo. “Assim, muitos cineastas foram descobrindo, sendo um filme citado como referência por vários deles. Inclusive o Martin Scorsese, que faz a introdução de uma edição especial em DVD”, detalhou Teixeira.

Debate
Muitos pontos foram discutidos pelos palestrantes e espectadores. Bottura, por exemplo, comentou que quando o filme foi selecionado, ainda não havia conflito entre Rússia e Ucrânia. “Creio que a obra tem tudo a ver com a realidade atual. Temos de um lado essa força bruta de um homem que não pensa, sem noção da consequência dos seus atos, que não sente culpa. Um amoral. Uma força da natureza que vive a cada dia.”

Em relação a essa caracterização das personagens, o coordenador do Cine Debate indica que há uma representação e separação dos universos masculino e feminino antigos. Com uma personagem feminina submissa e fraca e uma masculina agressiva e hostil. “Qual a força de Gelsomina? Gerar mudança em um homem de força bruta. Ele começa a ter sensibilidade ao longo da história a partir da relação com ela. Ele enxerga um outro que até então não percebia. Quando ele a abandona, deixa seu trompete, demonstrando uma sensibilidade nova até então. E vemos depois que ele será torturado pelo sentimento de culpa”, analisou Bottura.

Sobre Zampano, a debatedora também chamou atenção a uma cena em que ele coloca uma corrente em Gelsomina. “Fiquei pensando em sua intenção de deixar algo com ela. E na simbologia das correntes no filme.”

Por fim, Teixeira lembrou que o diretor italiano sempre reserva espaço para retratar os artistas em sua obra. “Dá para notar que os circenses do filme são pessoas de espírito livre. Torcemos, inclusive, que Gelsomina fuja com o circo, já que seu dono não é um explorador. O circo é demonstrado como um ambiente bacana”, comentou.

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