Diretor da APM aborda neuropatia periférica no portal Drauzio Varella

O neurocirurgião Julio Leonardo Barbosa Pereira concedeu entrevista sobre o tema

APM na imprensa

O neurocirurgião e diretor de Tecnologia de Informação da Associação Paulista de Medicina, Julio Leonardo Barbosa Pereira, concedeu entrevista ao Portal Drauzio Varella para falar sobre a neuropatia periférica, doença caracterizada por atacar os nervos periféricos e que podem comprometer as funções motoras, sensoriais ou autonômicas. Confira a seguir: 

Neuropatia periférica: doença dos nervos exige atenção e controle das causas

Doença tem múltiplas causas, como diabetes e deficiências vitamínicas, e exige diagnóstico precoce para evitar danos irreversíveis

Nossos braços, mãos, pernas e pés estão conectados ao sistema nervoso central — formado por cérebro e medula espinhal —, por meio dos nervos periféricos, responsáveis pela capacidade motora e pelas percepções sensoriais. Quando essa comunicação apresenta falhas, pode surgir um quadro de neuropatia periférica. Entender como essa condição se desenvolve é o primeiro passo para controlar a doença.

A neuropatia periférica é caracterizada por danos aos nervos periféricos, que podem comprometer funções motoras (movimento muscular), sensoriais (como dor e sensibilidade) ou autonômicas (funções involuntárias, como digestão e respiração). As causas podem ser hereditárias, como na doença de Charcot-Marie-Tooth, que afeta sensibilidade e movimentação, na ataxia de Friedreich (movimento) e na neuropatia axonal gigante, mais rara e com impacto motor e sensorial.

Aqui, o foco principal é a neuropatia periférica adquirida, que tem como uma das causas mais frequentes o diabetes não controlado. A neuropatia diabética figura entre as três complicações mais comuns em pessoas com diabetes e, sem tratamento adequado, pode levar a danos permanentes, incluindo amputações.

“O diabetes é a principal causa, disparada, porque ela é muito comum. Alguns estudos apontam que dez por cento da população adulta tem a doença”, destaca Júlio Leonardo, neurocirurgião nos hospitais Sírio-Libanês e Beneficência Portuguesa, em São Paulo. “E há um problema aí, porque a maioria dessas pessoas não sabem que têm a doença, então há a necessidade de todos terem um controle mais preciso, de pelo menos uma vez por ano realizar análises glicêmica e neurológica”, enfatiza.

Sintomas da neuropatia periférica

Os sintomas da neuropatia periférica costumam surgir de forma gradual e, na maioria dos casos, começam pelas extremidades do corpo, especialmente pelos pés e mãos. Isso ocorre porque os nervos mais longos e finos são mais vulneráveis a danos. Com a progressão da doença, os sinais podem se intensificar e se espalhar para outras regiões.

Entre os sintomas mais comuns, estão:

  • Dormência nas mãos e nos pés;
  • Formigamento persistente nas extremidades;
  • Sensação de queimação nos braços e nas pernas;
  • Dor nos pés ou nas mãos, que pode piorar à noite;
  • Redução ou perda da sensibilidade ao toque, calor ou frio;
  • Sensação de estar usando “luvas” ou “meias”, mesmo sem estar;
  • Dificuldade de movimentação e perda de coordenação;
  • Contrações musculares frequentes;
  • Fraqueza muscular progressiva.

Em quadros mais avançados, a perda de sensibilidade pode aumentar o risco de ferimentos, infecções e quedas, já que o paciente deixa de perceber pequenos traumas ou alterações na pele. Por isso, qualquer sintoma persistente deve ser avaliado por um profissional de saúde, especialmente em pessoas com diabetes ou outras doenças crônicas.

Outras condições associadas

O diabetes é uma das principais causas de lesão dos nervos periféricos, mas não é a única. Outras condições também podem desencadear neuropatia, como alcoolismo, insuficiência renal, deficiência vitamínica, infecções (como HIV, hanseníase e doença de Lyme) e distúrbios autoimunes.

A neuropatia periférica adquirida também pode resultar da compressão de nervos, causada por traumatismos, por exemplo, ou da exposição a substâncias tóxicas, como mercúrio e chumbo.

“Nos primeiros sinais, é importante procurar um especialista, que pode ser um endocrinologista ou até clínico geral, inicialmente. Mas algumas atitudes podem ser utilizadas, como evitar o álcool. [Deve-se] analisar também como estão as vitaminas no corpo, principalmente a B12, mas também B6 e B9”, recomenda o médico. Pacientes veganos ou idosos devem ter atenção especial à reposição vitamínica.

Diagnóstico e tratamento da neuropatia periférica

O diagnóstico precoce é fundamental, pois o tratamento tende a ser mais eficaz quando iniciado nos primeiros estágios da doença. A investigação começa com a análise do histórico clínico do paciente e um exame físico detalhado.

Exames complementares podem ser solicitados, como ressonância magnética, ultrassom de alta resolução, eletroneuromiografia e, em casos específicos, painel NGS para investigação de neuropatias hereditárias.

A neuropatia periférica não tem cura, mas há estratégias para controlar os sintomas e retardar a progressão da doença. Entre elas, estão sessões de fisioterapia e o uso de medicamentos, como analgésicos, anticonvulsivantes e antidepressivos, sempre prescritos por um especialista, conforme o perfil clínico do paciente.

“Geralmente, eu explico para o paciente que é tentativa. Alguns se dão bem com uma classe de remédio, outros com certo tipo e vamos encontrando o melhor tratamento”, diz o especialista.

Ele também alerta sobre o uso de medicamentos e pomadas vendidas na internet sem prescrição médica. “Tem que ter muito cuidado. Certas pomadas até podem trazer alguns estímulos, como a sensação de quente e frio, que trazem algum alívio para o paciente, mas não agem na causa do problema. Então, tratar com isso não vai ser solução. Procure um médico e só ele vai poder analisar a sua situação e o tratamento adequado.”

Quanto às terapias complementares, podem ser indicadas fisioterapia, para fortalecimento muscular e melhora da coordenação motora, e terapia ocupacional, que auxilia pacientes com limitações nas atividades do dia a dia.

Fonte: Drauzio Varella/UOL – acesse aqui