Presidente da APM palestra em evento do Cremero

Responsável pela palestra “Formação médica e o exercício da Medicina no Brasil”, Amaral recordou que antes da chegada dos portugueses ao território brasileiro, o que se entendia como Medicina era exercida pelos pajés por meio de uma grande variedade de misturas e práticas fitoterápicas

Últimas notícias

O Conselho Regional de Medicina do Estado de Rondônia realizou, na última quinta-feira (24), um evento com foco em Direito na Medicina. A noite, que fez parte do jubileu de diamante da instituição, referente aos 60 anos de fundação, reuniu diferentes autoridades e referências em Saúde, entre elas o presidente do Conselho Federal de Medicina, José Hiran da Silva Gallo, a presidente do Cremero, Ana Ellen de Queiroz Santiago, e o da Associação Paulista de Medicina, José Luiz Gomes do Amaral.

Responsável pela palestra “Formação médica e o exercício da Medicina no Brasil”, Amaral recordou que antes da chegada dos portugueses ao território brasileiro, o que se entendia como Medicina era exercida pelos pajés por meio de uma grande variedade de misturas e práticas fitoterápicas. Contudo, após as embarcações lusitanas chegarem no Brasil, aos poucos, os médicos de formação também começaram a exercer as suas práticas no País.

”A Medicina era muito pouco valorizada sob qualquer aspecto, com salários baixos, sobretudo em Portugal, por isso, os médicos sempre tinham outra profissão. De modo geral, os que vinham para o Brasil ou eram fugitivos da inquisição ou trabalhavam na Medicina em tempo parcial e vinham nas expedições com a ideia de irem para as Índias, porque o objetivo era de que lá o resultado financeiro com a viagem seria muito melhor. Por isso, poucos se aventuravam a ficar aqui”, explicou.

Escolas Médicas

O presidente da APM relembrou que o contexto da abertura de escolas médicas no Brasil se iniciou em 1808, em Salvador. Porém, por conta da mudança da capital do Império para o Rio de Janeiro, naquele mesmo ano, a família real se mudou, ocasionando a abertura da segunda escola de Medicina do País, que ficava situada em uma localização vizinha à Santa Casa de Misericórdia carioca.

De acordo com o palestrante, as quase 390 faculdades de Medicina existentes atualmente no Brasil surgiram entre duas inflexões. Uma, na década de 1970, em que o número de escolas e médicos era limitado, levando à conclusão de que havia a necessidade de expandir este cenário – de modo que, ao chegar entre meados dos anos 1980 e começo de 1990, a multiplicação das faculdades era acompanhada pelo aumento da população, juntamente ao aumento do número de médicos. “A partir de 2010, há uma segunda inflexão e o número de médicos cresce de maneira desenfreada, sem ter relação com o crescimento da população brasileira.”

A análise de Amaral também contribuiu para elucidar que, em relação às novas escolas médicas, 64,43% delas estão na iniciativa privada – das 41 mil vagas disponibilizadas no País, 30 mil são em instituições particulares e apenas 11 mil estão no contexto público. Além disso, o médico salientou que os números são convidativos para o mercado de ensino, por gerar uma receita muito pertinente.

“Para uma cidade, a chegada de uma faculdade de Medicina significa novos alunos, ou seja, novos moradores. Pessoas que gastam cerca de 9 mil de mensalidade em uma instituição e que também precisam gastar para se manter, seja com acomodação, para lazer ou para gastos no geral. Todo mundo quer uma escola de Medicina nas cidades porque ela gera empregos, eleva o mercado imobiliário e movimenta a economia local”, destacou.

Habilidades

Desde o desenvolvimento de faculdades de Medicina no Brasil, eram solicitadas algumas exigências que comprovassem a competência e a habilidade dos futuros profissionais. Exemplo disso foi o Bom Será que, dentre as obrigatoriedades, destacava a necessidade de os alunos falarem inglês e francês, além de realizarem exames em latim, enquanto no Brasil República, as faculdades criaram sabatinas, realizadas mensamente.

“O Cremesp resolveu aplicar uma prova aos egressos – um grande passo, que deveria ser considerado por todos os conselhos. A prova não tinha efeito de diplomação ou restrição ao exercício profissional, mas sim, um efeito importante na avaliação da educação médica daquela região. O índice de aprovação dificilmente ultrapassava 60%. Todavia, em 2018, por algum motivo que desconheço, o Conselho deixou de fazer este exame, o que é lamentável porque deixar de fazê-lo é nos deixar navegar sem alguém que nos diz onde estamos”, pontuou.

Durante a palestra, José Luiz Gomes do Amaral também apresentou informações referentes à ociosidade de vagas em algumas residências médicas, demonstrando que, mesmo em instituições conceituadas (como a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e a Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo), alunos estão desistindo da especialização.

“Cerca de 40% dos alunos não fazem residência porque o curso é ruim, não tem cenário prático e faltam supervisores. Não há estrutura e vivemos uma situação em que não se pode dar qualidade para todas as áreas. Uma opinião pessoal, é necessário selecionar bem o aluno que entra no curso médico, ele precisa ser beneficiado de avaliação contínua, com testes de progresso para avaliar se as competências ao longo do curso foram aprimoradas. É importante que isso seja complementado com o exame final, no tipo de ‘exame de ordem’ e com caráter reprobatório. Ninguém entra em um avião se o piloto não está apto a voar, então deixar alguém clinicar sem o exame é uma irresponsabilidade”, manifestou.

Ao finalizar, Amaral salientou a importância da realização do Exame Nacional de Revalidação – popularmente conhecido como Revalida – e exaltou a trajetória de Luiz Pereira Barreto, notável médico formado na Bélgica que, a voltar para o Brasil, revalidou o seu diploma para poder exercer a profissão por aqui. “Eu queria concluir a minha apresentação com a revalidação do diploma de um dos ícones da nossa Medicina, que entendeu que para voltar ao Brasil, tinha que seguir a legislação brasileira e, assim, ter o seu diploma reconhecido.”

Fotos: Divulgação Cremero