O editor-chefe da publicação, Luís Henrique Wolff Gowdak, destaca, em editorial da Revista da SOCESP recém-publicada, que o avanço das terapias cardiovasculares nas últimas décadas transformou de forma significativa o prognóstico de pacientes com doenças cardíacas complexas. Ele ressalta que dispositivos de suporte circulatório, intervenções estruturais e estratégias farmacológicas cada vez mais eficazes ampliaram a sobrevida, mas também trouxeram novos desafios clínicos, éticos e humanos. “Neste contexto, os cuidados paliativos deixam de ser uma abordagem restrita ao fim da vida e passam a ocupar um papel central e transversal na prática cardiológica contemporânea”, completa Gowdak.
Segundo ele, os artigos que compõem a nova edição convergem para a mensagem de que a integração precoce e estruturada dos cuidados paliativos é essencial para qualificar o cuidado cardiovascular em diferentes cenários clínicos. “Seja no manejo da insuficiência cardíaca avançada associada a dispositivos de suporte circulatório, nas decisões complexas envolvendo estenose aórtica grave ou na abordagem da cardiopatia congênita na infância, o cuidado paliativo emerge como instrumento de alívio de sintomas, suporte psicossocial e, sobretudo, de promoção de decisões compartilhadas, alinhadas aos valores do paciente e de sua família”, contextualiza o editor-chefe.
Gowdak destaca ainda que os trabalhos reunidos na Revista da SOCESP evidenciam que os cuidados paliativos devem ser compreendidos como um processo contínuo, que acompanha a trajetória da doença cardiovascular e se adapta às suas diferentes fases. “Essa perspectiva rompe com a falsa dicotomia entre ‘tratamento ativo’ e ‘cuidado paliativo’, reforçando que ambas as abordagens podem e devem coexistir”, afirma. Para ele, a cardiologia moderna exige, cada vez mais, a capacidade de reconhecer o momento adequado para reavaliar metas terapêuticas, ponderar a proporcionalidade das intervenções e incorporar, de forma explícita, preferências, expectativas e limites individuais no plano de cuidado.
O editor-chefe da publicação também lembra que a excelência assistencial depende de equipes multiprofissionais capacitadas e preparadas para lidar com a complexidade clínica e emocional desses pacientes. “Temas como capacitação profissional, cuidados odontológicos, terapia nutricional e comunicação efetiva não são periféricos, mas componentes estruturais de uma abordagem verdadeiramente integral. Investir na formação em cuidados paliativos em cardiologia é investir em qualidade assistencial, segurança do paciente e sustentabilidade dos sistemas de saúde”, conclui.
A publicação, que conta com os coeditores Daniel Dei Santi e Douglas Henrique Crispim, pode ser baixada gratuitamente no site da SOCESP. A edição reúne sete artigos médicos e quatro artigos multiprofissionais dos Departamentos de Nutrição, Enfermagem e Odontologia, além de podcasts.