Fibrilação atrial: o que é, quais os sintomas e como tratá-la?

Condição aumenta o risco de acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca

O que diz a mídia

Daniel Moore tinha cerca de 30 anos quando isso aconteceu pela primeira vez. Ao fim de um dia longo, quente e estressante, ele tomou um copo de leite gelado de uma vez só.

“Parecia que um coelho estava tentando pular para fora do meu peito”, conta ele, agora com 60 anos.

Moore, um radiologista, sabia o que era: fibrilação atrial.

A fibrilação atrial é uma palpitação ou batimento cardíaco irregular que representa um fator preocupante para o desenvolvimento de coágulos sanguíneos, acidente vascular cerebral (AVC) e insuficiência cardíaca. Alguns pesquisadores acreditam que mais de 10 milhões de norte-americanos sofrem com a condição (no Brasil, um estudo mostra que a prevalência pode chegar a 2,5%) — a maioria idosos. E a expectativa é que ela se torne ainda mais comum nos próximos anos.

No entanto, T. Jared Bunch, pesquisador da Universidade de Utah, vê motivos para otimismo.

“Embora vejamos mais casos da doença, estamos melhores em tratá-la”, afirma Bunch, coautor de um livro sobre fibrilação atrial.

Sintomas podem incluir falta de ar

A fibrilação atrial ocorre quando as câmaras superiores do coração, chamadas átrios, batem de forma dessincronizada em relação às câmaras inferiores, os ventrículos. Nem todos percebem que algo está errado, mas alguns sofrem sintomas alarmantes, como palpitações e falta de ar.

“Definitivamente não tenho condições de fazer exercícios quando estou nesse estado”, conta Moore. “Não consigo correr. Caminhar me cansa mais rápido. Fico um pouco tonto ao me levantar.”

Em pessoas com fibrilação atrial, o coração pode ultrapassar 200 batimentos por minuto, mais que o dobro dos 60 a 100 batimentos típicos da frequência cardíaca em repouso de um adulto saudável.

Os sintomas podem ir e vir, e geralmente não representam risco de morte por si só. Mas a arritmia cardíaca pode levar ao acúmulo de sangue no coração, o que pode favorecer a formação de coágulos em dias ou até mesmo horas. Esses coágulos, por sua vez, podem se deslocar até o cérebro e causar AVCs.

A fibrilação atrial também pode aumentar o risco de desenvolver fibrilação ventricular — uma condição mais grave.

Diagnóstico está se tornando mais comum

Especialistas afirmam que os relógios inteligentes e outros dispositivos capazes de detectar batimentos cardíacos irregulares são um dos motivos para o aumento dos diagnósticos de fibrilação atrial.

Muitas pessoas que apresentam sintomas não entendem o que está acontecendo.

A Associação Americana do Coração (AHA, na sigla em inglês) descobriu que mais de 50% das pessoas com fibrilação atrial desconheciam a condição antes de receberem o diagnóstico.

Estudos sugerem que 15% ou mais dos AVCs podem estar relacionados à fibrilação atrial, e que essa porcentagem aumenta em pessoas idosas. A condição é um dos motivos pelos quais as mortes por AVC nos EUA aumentaram na última década, embora a taxa de mortalidade por AVC tenha diminuído nos últimos anos.

Quais as causas da fibrilação atrial?

Os pesquisadores atribuem a fibrilação atrial a danos nas câmaras superiores do coração e em sua sinalização elétrica. A genética pode desempenhar um papel, mas outros fatores contribuintes incluem pressão alta, diabetes, estresse, apneia do sono, tabagismo e consumo de álcool.

Esses danos se acumulam ao longo do tempo, o que explica, em parte, por que a doença tende a afetar adultos mais velhos. Cerca de 70% dos casos de fibrilação atrial ocorrem em pessoas com 65 anos ou mais, afirma Bunch.

Os vírus também podem representar uma ameaça porque podem afetar as proteínas responsáveis ​​pelos sinais elétricos do coração ou desencadear uma resposta imunológica que danifica o tecido cardíaco. A covid-19 está entre os vírus causadores de fibrilação atrial e provavelmente contribuiu para o quadro em alguns pacientes, segundo especialistas.

Estudos não encontraram nenhuma ligação entre a vacinação contra a covid-19 e a fibrilação atrial, afirma Jose Joglar, especialista de Dallas que ajudou a elaborar as diretrizes da AHA sobre o diagnóstico e o tratamento da fibrilação atrial.

Há uma variedade de opções de tratamento

Não existe cura, mas diversas terapias podem ajudar a controlar o problema.


“Estamos muito à frente do que tínhamos” para o tratamento da fibrilação atrial, diz Laurence Epstein, da Universidade Hofstra e da Northwell Health. “A tecnologia realmente evoluiu.”

Um dos tratamentos iniciais é a cardioversão, que consiste em usar um desfibrilador para aplicar um choque elétrico no coração e restaurar o ritmo cardíaco. Muitas vezes a terapia é bem-sucedida, mas em outras ela funciona apenas temporariamente.

Para alguns pacientes, os médicos podem recomendar dispositivos implantáveis. Os marcapassos podem regular o ritmo cardíaco, e um dispositivo chamado Watchman pode fechar uma área da parte superior do coração propensa à formação de coágulos.

E depois há a ablação. É um procedimento no qual um médico usa calor, frio ou pulsos elétricos para atingir certas áreas do coração, criando cicatrizes que bloqueiam os sinais elétricos defeituosos. Tradicionalmente, a ablação era usada quando outras abordagens falhavam, mas nos últimos anos as técnicas tornaram-se mais avançadas e ela passou a ser a primeira opção para certos pacientes, incluindo aqueles com insuficiência cardíaca.

Medicamentos para regular o coração ou afinar o sangue para reduzir o risco de AVC, por sua vez, podem ter efeitos colaterais incertos.

Como reduzir o seu risco

As pessoas podem reduzir o risco de desenvolver fibrilação atrial adotando um estilo de vida saudável. Isso inclui praticar exercícios físicos, dormir o suficiente, ter uma alimentação saudável, controlar a pressão arterial e evitar o consumo de tabaco e álcool.

Os médicos também alertam há muito tempo sobre os riscos do consumo excessivo de cafeína, embora novas evidências sugiram que uma pequena quantidade possa ser aceitável. Um pequeno estudo publicado recentemente constatou que pacientes que consumiam, em média, uma xícara por dia apresentaram menor recorrência dos sintomas do que aqueles que se abstiveram completamente.

Caso surjam sintomas, é importante levá-los a sério, aconselha Amy Stahley, que recebeu o diagnóstico há três anos.

Certa noite, ela foi para a cama e seu coração começou a bater muito rápido, a mais de 150 batimentos por minuto. Ela foi imediatamente para o hospital.

“Se você estiver se sentindo um pouco indisposto, procure um médico”, diz Amy, que é enfermeira e reitora da Faculdade de Profissões da Saúde da Universidade de Davenport, em Michigan.

Moore, professor de radiologia no UT Southwestern Medical Center em Dallas, concorda.

“Quanto mais tempo você permanecer em fibrilação atrial, maior a probabilidade de permanecer nela para o resto da vida”, diz ele.

Fonte: Estadão – acesse aqui