Realizado pela Associação Paulista de Medicina, na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), no dia 26 de fevereiro, o Fórum Paulista de Ensino e Qualidade da Assistência Médica promoveu um amplo debate sobre a formação médica no Brasil.
Um dos destaques da programação foi a palestra “Especializações – Desafios na Formação de Médicos Especialistas”, ministrada pelo professor adjunto da Disciplina de Gastroenterologia Cirúrgica e vice-chefe do Departamento de Cirurgia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (EPM/Unifesp), Ramiro Colleoni Neto.
O painel foi moderado pelo presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), César Eduardo Fernandes, e contou com a participação dos debatedores Clóvis Francisco Constantino, diretor adjunto de Previdência e Mutualismo da APM e professor da Unisa (Universidade de Santo Amaro); Nelson Wolosker, reitor da Faculdade de Ciências da Saúde Albert Einstein; e do deputado estadual e vice-presidente da Comissão de Saúde da Alesp, Oseias de Madureira.
Em sua apresentação, Ramiro Colleoni destacou que o exercício da Medicina está cada vez mais complexo, um contexto em que o especialista assume papel primordial para garantir qualidade e segurança na assistência. O médico também citou alguns conceitos fundamentais na formação de especialistas.
“O primeiro é reconhecer que a Residência Médica é a forma de aprendizado mais adequada e precisa ter supervisão qualificada. É necessário entender o conceito das competências, porque não basta apenas dar informação, mas compreender como o indivíduo que está sendo treinado vai mobilizar esse conhecimento em diferentes contextos. Além disso, essas competências devem estar estruturadas em uma matriz que as sociedades de especialidades já estipularam junto da Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM). Por serem dinâmicas, elas precisam ser atualizadas periodicamente. Outros aspectos relevantes são os cenários de práticas, considerados indispensáveis no processo formativo”, explicou.
O palestrante ressaltou que formar um especialista é um processo longo, trabalhoso e que demanda recursos. “Entre eles, o cenário de prática, e o principal ainda é o SUS (Sistema Único de Saúde). Quando falamos em formação de especialistas, esse elemento é indispensável”, afirmou.


Fiscalização
Ramiro Colleoni também lançou um desafio à AMB para analisar os cursos que se apresentam como formadores de especialistas. Ele questionou como são credenciados pelas sociedades, se os centros formadores são qualificados e avaliados periodicamente, como ocorre o processo seletivo e quais são os critérios de aprovação. Também destacou a importância da qualificação dos preceptores.
“As sociedades de especialidades e a AMB, ao promoverem a certificação, acredito que seja fundamental que tenha também uma parte prática e não apenas uma prova meramente teórica. É uma oportunidade de as sociedades montarem uma real rede colaborativa de especialistas, independente da especialidade que seja ou do porte dela, e de integrar esses programas, promovendo intercâmbio e reconhecendo as assimetrias que existem nacionalmente, bem como as dificuldades de alguns serviços”, acrescentou.
Ao comentar a palestra, César Fernandes reforçou que a Residência Médica é o principal e mais estruturado modelo de formação do especialista. O presidente da AMB ressaltou que a implementação de um programa precisa de centros competentes, que façam alta complexidade. “Nós temos 55 especialidades médicas e algumas de altíssima complexidade, então é preciso ter esses centros que tratem pacientes, tenham especialistas e preceptores bem formados e que atendam todas as necessidades de formação do especialista”, pontuou.
Fernandes complementou que em alguns países mais avançados, a Residência Médica não concede título. “Lá, ela é pré-requisito para que depois seja aplicado o exame, avaliado pelos seus pares, com avaliações teóricas e práticas.”
Clóvis Constantino complementou o debate ressaltando que os programas de Residência Médica são realizados após os seis anos da graduação, com 2.880 horas por ano. “Muito diferente dos cursos de 360 horas, que acabam dando às pessoas, de maneira incauta, a sensação de serem especialistas”, concluiu.

Fotos: Alexandre Diniz