Pela primeira vez, telecirurgias robóticas foram realizadas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Os procedimentos ocorreram entre os dias 24 e 26 de fevereiro e foram conduzidos por equipes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
Os procedimentos conectaram, em tempo real, um console de comando localizado no Centro de Treinamento em Procedimentos Minimamente Invasivos (PROMIN) aos braços robóticos instalados a cerca de 15 quilômetros de distância, no Hospital Universitário da USP (HU-USP).
Segundo os idealizadores do projeto, o intuito era demonstrar que esse tipo de operação, antes presente apenas na rede particular, também pode ser democratizado.
“Ou seja, levar essas operações a pessoas que normalmente não teriam acesso a essa tecnologia, algo que dialoga diretamente com um dos princípios do SUS: a equidade”, afirma José Pinhata Otoch, professor titular do Departamento de Cirurgia da FMUSP, superintendente do HU-USP e um dos coordenadores da iniciativa.
Para Everson Luiz de Almeida Artifon, coordenador do PROMIN e do projeto ao lado de Otoch e de Giovanni Guido Cerri, professor titular do Departamento de Radiologia e Oncologia da FMUSP e coordenador do InovaHC, a realização das telecirurgias comprova ainda que é possível ampliar o acesso a procedimentos de alta complexidade na rede pública.
“Mas nós temos que realizar todas essas técnicas com responsabilidade ética, sempre querendo o bem do paciente. Por isso, fizemos de A a Z tudo o que o protocolo pede”, diz Artifon.
A FMUSP afirma que o modelo é replicável e que iniciou conversas com o Ministério da Saúde para a constituição de um grupo de trabalho. A ideia é avaliar critérios para a eventual incorporação da telecirurgia robótica como política pública e discutir termos regulatórios.
Etapas do processo
Segundo Artifon, a primeira etapa do processo ocorreu cerca de quatro meses antes das operações e serviu para testar um dos pontos centrais das telecirurgias: a conectividade da rede. Ao todo, 28 cirurgiões operaram modelos de silicone para avaliar suas habilidades e validar a estabilidade da conexão entre os dois centros.
O protocolo de segurança incluiu três linhas de fibra óptica — uma “mãe” e duas redundantes — e um console de backup na sala de cirurgia, de forma que um médico no local pudesse assumir o procedimento de forma imediata em caso de falha de sinal.
A segunda fase marcou as operações em si. Ao todo, foram realizados procedimentos em cinco especialidades: urologia, cabeça e pescoço, cirurgia torácica, cirurgia geral e ginecologia.
Uma das cirurgias foi uma prostatectomia oncológica, que consiste na remoção completa da próstata e das vesículas seminais para tratamento de câncer localizado. O paciente recebeu alta hospitalar no dia seguinte ao procedimento, com evolução clínica satisfatória.
De acordo com Otoch, todos os cinco pacientes estavam na fila de espera do Hospital das Clínicas da FMUSP.
Telecirurgias robóticas
Segundo Artifon, uma das principais vantagens da cirurgia robótica é o fato de ser minimamente invasiva. Por conta disso, os pacientes costumam ter menos sangramento, menos dor e menor tempo de recuperação. “O paciente também tem mais segurança cirúrgica em operações em áreas com maior dificuldade de acesso da mão, como pelve e tórax”, detalha.
Em cirurgias abertas, o cirurgião precisa fazer um corte grande para enxergar e acessar o órgão ou tecido do paciente, enquanto na cirurgia minimamente invasiva são feitos pequenos cortes, de um centímetro até poucos milímetros.
Artifon ainda destaca que esse tipo de tecnologia abre portas para o treinamento de novos profissionais, desde que também tenham acesso a um console e aos braços robóticos.
“Isso facilita a chamada telementoria. Nesse modelo, um cirurgião realiza a operação enquanto outro profissional, em outra localidade, acompanha e monitora o procedimento. Caso ocorra algum erro técnico, o piloto principal pode assumir o controle automaticamente. Esse uso no ensino é outro ponto bastante relevante.”
Fonte: Estadão – acesse aqui