6 tipos de câncer estão crescendo mais rápido entre os jovens, aponta estudo; veja quais

Pesquisa global mostra o aumento mais acelerado de diagnósticos entre pessoas abaixo dos 50 anos do que entre idosos

O que diz a mídia

A incidência de seis tipos de câncer tem aumentado mais rapidamente entre pessoas de 20 a 49 anos do que entre aquelas com 50 anos ou mais. É o que aponta um estudo feito por pesquisadores da Universidade Harvard, que analisaram dados de 44 países entre os anos de 2000 e 2017.

Os tumores com crescimento mais rápido na população jovem foram: colo do útero (cervical), colorretal, pancreático, de próstata, renal e mieloma múltiplo (que afeta o sangue e se desenvolve na medula óssea).

Em alguns países, o crescimento não ficou restrito ao número de novos casos, afetando também o aumento de mortes na mesma faixa etária, principalmente por câncer colorretal e de colo do útero.

Apesar dos bancos de dados do estudo não abrangerem toda a América Latina, deixando o Brasil de fora, há paralelos sobre o cenário da doença no País quando se fala na incidência de tumores em jovens adultos.

“Na prática clínica, nós já percebemos essa tendência. É uma mudança de perfil que nós precisamos vigiar e que exige políticas mais inteligentes”, observa a oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC).

Ela destaca que dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) mostram que o câncer de mama e de cólon estão entre os mais incidentes no País. Contudo, faz a ressalva de que as estatísticas brasileiras não estão totalmente estratificadas para observar a tendência em menores de 50 anos.

Câncer colorretal é o que mais preocupa

Para os autores, em alguns países incluídos no estudo, o câncer colorretal já apresenta um padrão preocupante.

A pesquisa aponta que cerca de 10% dos casos globais da doença ocorrem em pessoas abaixo dos 50 anos. A projeção é de que, se essa tendência continuar, a incidência continue crescendo de forma expressiva entre indivíduos de 20 a 34 anos até 2030.

No Brasil, segundo dados mais recentes divulgados pelo Inca, a estimativa é de que o país tenha 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028. Desses, os tipos mais frequentes devem ser próstata e colorretal entre homens, e mama e colorretal entre mulheres.

“O câncer colorretal, de intestino, é hoje o maior sinal de alerta”, afirma Clarissa. A presidente da SBOC diz que os consultórios recebem pacientes cada vez mais jovens investigando sintomas como sangramento, anemia e alterações no funcionamento do órgão, como prisão de ventre ou diarreia.

O problema, segundo ela, é que muitos chegam tardiamente ao diagnóstico. “Isso acaba acontecendo porque, como a faixa etária não era a mais comum (para ter câncer), o rastreamento e os exames de detecção precoce não são feitos.”

Pedro Uson, oncologista do Einstein Hospital Israelita e integrante do comitê científico do Instituto Vencer o Câncer, acrescenta outro fator ao cenário. Para ele, a demora na busca por ajuda também denota uma negligência em relação aos sintomas: “Muitas vezes (as pessoas concluem, de forma equivocada) ‘ah não, eu sou jovem, não deve ser nada’”, diz.


Ele reforça, contudo, que sintomas como sangramento, alteração persistente dos hábitos intestinais, perda de peso inexplicada e dor abdominal são sinais que não devem ser ignorados, independentemente da idade.

Por que os mais jovens são mais afetados?

No estudo, a hipótese levantada é a de que fatores de risco clássicos estariam se deslocando para faixas etárias mais jovens, a exemplo de obesidade, sedentarismo e padrões alimentares desequilibrados.

Na prática clínica, essa percepção também aparece. Uson destaca que muitos pacientes jovens não apresentam síndromes hereditárias conhecidas, ou seja, mutações genéticas herdadas que aumentam o risco de desenvolver tumores.

“Acredita-se que tenha realmente associação com obesidade, sedentarismo e impacto da alimentação ultraprocessada, gordurosa, calórica, como alimentos defumados, embutidos, enlatados, além das bebidas açucaradas”, enumera.

Segundo o oncologista, a exposição a esses fatores começa cada vez mais cedo. “As crianças e os adolescentes de hoje em dia entram em contato com essas substâncias carcinógenas (que potencialmente levam ao desenvolvimento de tumores) muito mais precocemente”.

O que pode ser feito?

Diante do cenário, especialistas reforçam que a prevenção continua sendo a principal estratégia.

“O sedentarismo tem que ser combatido com a realização de exercício”, orienta Uson. O oncologista acrescenta também que a alimentação deve incluir legumes, frutas e verduras, evitando alimentos processados.


Além das mudanças no estilo de vida, é importante discutir sobre a idade para iniciar exames de rastreamento, especialmente para o câncer de intestino. Nos Estados Unidos, por exemplo, a indicação é realizar o rastreamento aos 45 anos. A presidente da SBOC defende que esse debate também aconteça por aqui.

“No Brasil, é preciso analisar como essa política será aplicada, especialmente no Sistema Único de Saúde (SUS), com base no perfil de pacientes que precisamos estudar melhor.”

Ela ressalta, porém, que o País ainda enfrenta outros desafios. “Precisamos melhorar o acesso ao diagnóstico precoce e ao rastreamento na faixa etária habitual, o que ainda não acontece de forma ideal no Brasil”, destaca.

Clarissa explica que a SBOC vem trabalhando esse tema junto ao Ministério da Saúde e os órgãos responsáveis. “Essa mensagem é importante porque, no final das contas, a prevenção precisa ser a principal estratégia”, finaliza.

Fonte: Estadão – acesse aqui