O artista plástico Cláudio Tozzi tem uma relação de longa data com a Associação Paulista de Medicina, que ele próprio descreve como um “ambiente familiar”. Com obras presentes no acervo da entidade, atualmente o pintor e arquiteto está com a mostra “Geometrias da Urgência: Derivas com Claudio Tozzi” em exibição na sede da APM. E na última quinta-feira, 19 de março, aproveitou o momento especial para promover o lançamento do livro “No limiar da imagem – da retícula à arena pública” na Pinacoteca da instituição.
O livro conta a trajetória artística de Tozzi e traz explicações sobre a elaboração de suas obras, desde o início da execução até o resultado delas. Segundo o artista, os trabalhos são frutos de muitas décadas de dedicação e conversam diretamente com o contexto histórico da época em que foram confeccionados, muitos deles se caracterizando como críticas sociais.
“Os primeiros trabalhos são sobre as multidões que aconteciam, as passeatas dos estudantes e todos os movimentos de protesto que, naquela época, tinham uma repressão muito grande, tanto para os movimentos sociais quanto para a parte cultural. Mas era um trabalho muito ligado ao que acontecia, muito semelhante ao de um jornalista. São obras que refletiam as proibições de peças de teatro, de música e toda a censura que existia na época”, relembra.
De acordo com o artista, suas obras conversam com vivências, situação política e acontecimentos que vão transformando a sociedade. “Recentemente, fiz uma criação que se chama ‘É necessário que o capital não exceda a poesia’. Esta frase é uma síntese também do meu trabalho.”



Exposição em conjunto
A exposição que está sendo exibida atualmente na APM é uma ação conjunta com membros do Instituto Olga Kos, que tiveram a oportunidade de também pintar algumas telas e, assim, despertar o lado artístico. Segundo relembra a curadora e supervisora de Artes da instituição, Débora Hermann, a exibição nasceu de uma parceria entre Claudio Tozzi e a equipe de Arte e Educadores, que apresentaram as obras do pintor para os participantes em oficinas.
“Eles foram estudando o artista, qual era a sua poética, a técnica utilizada, e foram criando releituras e reinterpretando as obras. Claudio Tozzi é um artista que tem uma tecnicidade muito forte, mas ao mesmo tempo, um gesto muito livre, e essa parceria foi a partir da referência dele. Então, a exposição é especial para nós, porque dialogamos e mostramos as obras de ambos [do artista e dos membros do Instituto Olga Kos], de uma forma integrada e de uma maneira que instigue os visitantes a se perguntarem quem é o responsável por trás de cada uma delas”, explica.
Tozzi reforça que a participação dos membros do Instituto na elaboração desses projetos é algo que estimula o lado artístico deles. “É muito bonito e é uma coisa até bem emocionante, porque a partir de uma obra, eles fazem uma interpretação que é muito livre e que eu acho que agiganta o meu trabalho. É mais espontâneo, mais solto.”
“O meu trabalho tem uma estrutura e é mais ligado à arte construtiva, e eles têm uma liberdade muito grande de brincar com a cor, com a textura, eu fico muito feliz em ver. E acho que estimula também para a produção, talvez uma das pessoas que está fazendo esses trabalhos venha a ser artista, monte um ateliê e continue a produzir. É bom ver isso porque é um incentivo para uma inclusão maior”, detalha.
Débora corrobora com o posicionamento e afirma que uma exposição inclusiva permite alavancar o potencial dos participantes. “Nós acreditamos que qualquer ser humano tem potencial para criar arte e percebemos isso por meio das oficinas. Trabalhamos com pessoas neuroatípicas e acho que inspirá-las a se olharem, se identificaram e perceberem que podem realizar é a forma de termos esse diálogo com o público, que vê e também sente o potencial. Eles passam a se enxergar enquanto um artista e não só mais uma pessoa ali no mundo. Acho que o impacto é muito legal e traz um sentimento de poder fazer a diferença”, complementa.
A mostra segue em exibição na APM até o dia 27 deste mês, de segunda a sexta, das 10h às 18h, com entrada gratuita. Para mais informações sobre o livro “No limiar da imagem – da retícula à arena pública” acesse o site do Instituto Olga Kos.


Fotos: Divulgação Instituto Olga Kos