Estadão publica artigo do diretor da APM sobre Inteligência Artificial

Para Guido Arturo Palomba, a tecnologia deve ser instrumento de apoio, jamais protagonista da decisão clínica

APM na imprensa

O médico e o robô

A IA amplia o alcance da prática médica, mas a arte de cuidar permanece ancorada no olhar atento, na palavra ponderada e no gesto compassivo

Num de seus versos mais célebres, Antero de Quental, chamava a atenção para a travessia evolutiva: rocha, tronco, fera e, enfim, o homem, ser que olha o infinito e aspira à liberdade. É justamente o livre-arbítrio que distingue o humano de tudo o mais que existe. A consciência de si, a capacidade de escolher e de responder moralmente pelos próprios atos constituem a essência da experiência humana.

Séculos depois, Jorge Luis Borges definiu o livro como o mais extraordinário instrumento criado pelo homem, por expandir a memória e a imaginação. As demais invenções, dizia ele, seriam extensões do corpo: o microscópio amplia a vista; o telefone, a voz; o arado, o braço. A inteligência artificial (IA) talvez seja a mais sedutora dessas extensões contemporâneas. Ela amplia não apenas a força física, mas a capacidade de cálculo, a velocidade de processamento e o acesso ao conhecimento acumulado.

Na Medicina, sua utilidade é realidade. Sistemas baseados em IA já auxiliam na leitura de exames de imagem com precisão, comparam milhares de padrões radiológicos em segundos, apoiam cirurgias robóticas e analisam grandes bancos de dados epidemiológicos para prever riscos e orientar condutas. Em áreas como cardiologia, oncologia e neurologia, algoritmos identificam alterações sutis que poderiam escapar ao olhar humano. Trata-se de uma potência técnica que amplia o alcance da prática médica.

Entretanto, o limite aparece quando se ultrapassa o campo da técnica e se adentra o território da consciência. A inteligência artificial não intui, não sofre, não experimenta angústia diante de uma decisão difícil. Ela não assume responsabilidade moral. Opera a partir de dados previamente existentes, combinando informações segundo padrões matemáticos. Pode simular linguagem empática e oferecer respostas coerentes, mas não possui experiência própria nem liberdade interior.

Na prática clínica, sobretudo em especialidades como a psiquiatria, a diferença torna-se ainda mais evidente. O paciente não é apenas um conjunto de sintomas classificáveis ou probabilidades estatísticas. Ele é história, cultura, crença, medo e esperança. É alguém que traz consigo narrativas singulares, muitas vezes contraditórias, que exigem escuta atenta e sensibilidade. O diagnóstico, nesse contexto, não nasce apenas da soma de critérios objetivos, mas do encontro entre duas subjetividades.

O risco contemporâneo não reside na tecnologia em si, que é bem-vinda e necessária, mas na tentação de substituir o encontro humano por protocolos automatizados. Quando a consulta se reduz a cliques e formulários, quando a escuta é abreviada por telas e algoritmos, algo essencial se perde. A Medicina, desde suas origens, sempre foi mais do que técnica: é relação.

A inovação faz parte do progresso científico e deve ser incorporada com responsabilidade. O desafio está em manter a centralidade do médico como sujeito ético, capaz de ponderar, contextualizar e decidir à luz de valores humanos. A tecnologia deve ser instrumento de apoio, jamais protagonista da decisão clínica.

O futuro pertence à integração equilibrada. A inteligência artificial pode ampliar a capacidade diagnóstica e tornar os sistemas de saúde mais eficientes. Mas a arte de cuidar permanece ancorada no olhar atento, na palavra ponderada e no gesto compassivo. Quando o médico se automatiza, perde aquilo que o distingue da máquina. Quando utiliza a tecnologia sem abdicar da própria humanidade, reafirma a essência da profissão.

Entre o homem e o robô, não há disputa inevitável. Há, sim, uma escolha ética sobre como usar as ferramentas disponíveis. E essa escolha, por enquanto, ainda pertence exclusivamente ao ser humano.

Fonte: Estadão – acesse aqui