No dia 10 de fevereiro, o diretor Executivo da Comissão Especial de Médicos Jovens da Associação Paulista de Medicina, Guilherme Marques, participou do podcast Doutor em Pauta para falar sobre a cannabis medicinal.
Também diretor Político da APMC Pro, diretor médico da Terps Brasil e do ICR Brasil, o médico explicou que o uso da cannabis medicinal é seguro e regulado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ele esclareceu que se trata de ativos derivados da planta que mimetizam moléculas produzidas pelo corpo humano.
“É irreal acreditar que nosso corpo teria um sistema feito para ser acionado somente por uma planta. Este sistema é endógeno, mas descobrimos via ciência que a cannabis consegue copiar esses endocanabinoides a partir de fitocanabinoides”, explicou.
Tratando de medicamentos oriundos de plantas, como os opioides provenientes da papoula, Marques acredita que estes passam por processos mais longos de apuramento da molécula. “Não é à toa que não temos só a morfina, que é a mais conhecida; temos o fentanil e outras variantes. No caso da cannabis, passamos talvez por menos processos, o que não a torna insegura, mas sim menos passível de etapas até o produto final. Pensando na planta, conseguimos destilar o canabidiol (CBD), o THC — conhecido pelo efeito de euforia e que pode ser um grande aliado no tratamento da dor —, bem como outros fitocanabinoides. Podemos dizer que ele é oriundo da planta, mas não passa pelos mesmos processos, como no exemplo da morfina”.
Sobre o uso da cannabis na Dermatologia, o médico afirmou que a especialidade discute muito o potencial terapêutico. O estudo do sistema endocanabinoide tem ganhado evidência científica relacionado a certas desordens dermatológicas. “Claro, nem sempre falaremos apenas de doenças. Hoje há uma grande demanda para a estética e como o componente pode tratar, por exemplo, um eritema, irritação ou inflamação da pele em pós-procedimentos. Na Dermatologia, esse potencial terapêutico significa que ele ainda não faz parte de guidelines de tratamentos ou doenças, mas há potencial para isso conforme houver mais robustez científica para entender não só se serve, mas em que momento e com o que mais podemos usá-lo para potencializar o desfecho”, completou.
Guilherme Marques explicou que, atualmente, produtos com cannabis, como pomadas e cremes, são majoritariamente passíveis de importação. Existem três fontes principais para
adquirir produtos de cannabis: as associações, que cultivam a planta por meio de decisões judiciais (habeas corpus); as farmácias de grandes redes, sob o regime de exceção previsto pela RDC da Anvisa; e a importação direta, regida pela RDC 660, que oferece uma gama mais ampla de produtos.
Quando questionado sobre a existência de médicos especializados no assunto, ele diz que não há especialidade ainda. “Hoje, a endocanabinologia não é reconhecida como especialidade. À medida que o tema ganha relevância e traz resultados, talvez seja o momento de pensar nisso, como ocorreu com a Saúde Digital. Atualmente, não há essa delimitação, mas espero que, no futuro, possamos enquadrar o tema na grade das faculdades para que o médico tenha conhecimento e a possibilidade de modular esse sistema, e se entender que deve fazê-lo”.
Em relação aos efeitos colaterais, especialmente sobre a preocupação de o uso medicinal desencadear condições como a esquizofrenia, o médico esclareceu que o uso não origina a doença, mas exige cuidado para quem já tem propensão, devido aos efeitos psicoativos. “Quando você usa o CBD para ansiedade, ele é psicoativo, mas não significa que seja psicodisléptico, ou seja, que cause euforia ou confusão mental. Para quem tem propensão, o cuidado deve ser redobrado com o THC. Não é qualquer componente da cannabis que gera essa preocupação”.
Por fim, ressaltou a importância de não prescrever o canabidiol apenas por desejo do paciente, mas sim por necessidade clínica. “Infelizmente, vemos essas tecnologias sendo usadas de maneira indiscriminada porque o paciente quer. Isso não é adequado e é perigoso”, concluiu.
Fotos: Reprodução