A Academia Nacional de Medicina dirige-se à sociedade brasileira, às instituições de ensino, aos profissionais de Saúde e aos estudantes para manifestar sua posição acerca dos desafios contemporâneos do ensino médico no País.
A formação médica constitui o alicerce sobre o qual se sustentam a qualidade da assistência à Saúde, a segurança dos pacientes e a confiança social na profissão médica. Fragilidades nesse processo repercutem diretamente em todo o sistema de Saúde, com impactos éticos, técnicos e sociais de grande magnitude.
Nas últimas décadas, observou-se uma expansão significativa do número de escolas médicas no Brasil, nem sempre acompanhada da necessária garantia de qualidade. Esse processo resultou em acentuada heterogeneidade na formação, com a coexistência de centros de excelência dotados de tradição, infraestrutura adequada e consistente produção científica e cursos que enfrentam limitações relevantes quanto ao corpo docente, aos cenários de prática e à integração com o sistema de Saúde. Tal desigualdade transcende o âmbito acadêmico e representa potencial risco à assistência prestada à população.
Resultados de avaliações recentes evidenciam essa assimetria, revelando diferenças importantes na aquisição de competências essenciais entre instituições. Diante desse quadro, torna-se imperativo reconhecer que a ampliação do número de profissionais não pode prescindir do compromisso com a qualidade da formação.
Nesse contexto, a Academia Nacional de Medicina considera essencial a adoção de medidas estruturantes para o aprimoramento do ensino médico no Brasil:
- Implementação de exame nacional único ao final do curso de Medicina destinado a avaliar, de forma padronizada, se os egressos atingiram competência mínima necessária ao exercício profissional. Tal instrumento deve assegurar critérios claros, universais e transparentes, contribuindo para a qualidade e a responsabilidade social da formação médica e que deve ser realizado sob a coordenação do Conselho Federal de Medicina.
- Fortalecimento dos processos de acreditação e reavaliação periódica das escolas médicas, com base em critérios rigorosos que incluam infraestrutura adequada, qualificação do corpo docente, inserção em cenários reais de prática e efetiva integração com o sistema de Saúde. Instituições que não atendam a esses padrões devem ser objeto de reestruturação ou descontinuidade.
- Valorização do corpo docente, por meio de investimentos em formação pedagógica, estímulo à carreira acadêmica e reconhecimento institucional. A excelência do ensino médico depende diretamente de professores qualificados, comprometidos e inseridos em ambientes acadêmicos dinâmicos.
- Integração qualificada entre ensino e prática assistencial, com ênfase na utilização do Sistema Único de Saúde como espaço privilegiado de aprendizagem, asseguradas condições adequadas de funcionamento e supervisão competente.
- Atualização curricular, incorporando competências essenciais à Medicina contemporânea, como o uso crítico de tecnologias digitais, a compreensão da inteligência artificial, o trabalho em equipe multiprofissional e a atenção à Saúde mental de pacientes e profissionais.
A Academia Nacional de Medicina ressalta que o desafio do ensino médico ultrapassa a esfera educacional, configurando-se como questão ética, social e civilizatória. Preservar e renovar a tradição da Medicina brasileira exige compromisso coletivo, responsabilidade institucional e visão de futuro.
Reafirmando sua missão histórica, a Academia Nacional de Medicina coloca-se como espaço de reflexão qualificada, proposição responsável e liderança no debate sobre a formação médica no País. Formar bem médicos é garantir melhor cuidado à sociedade brasileira.
Rio de Janeiro, 30 de março de 2026.
Diretoria da Academia Nacional de Medicina (2026-2027)