Como as drogas psicodélicas agem no cérebro – e por que isso importa para a saúde

Estudo mostra como essas substâncias integram percepção e pensamento

O que diz a mídia

À medida que os pesquisadores buscam demonstrar os benefícios terapêuticos de drogas psicotrópicas, como o LSD e psilocibina, os cogumelos mágicos, muitos têm dificuldade em explicar exatamente como esses compostos atuam no cérebro humano.

Uma das maneiras pelas quais os cientistas tentaram mostrar o que esses compostos fazem é usando máquinas de ressonância magnética funcional (RMf) para observar o cérebro de participantes de pesquisa durante uma experiência psicodélica.

Isso produziu imagens coloridas evocativas que mostram um turbilhão de atividade à medida que as drogas interrompem os padrões de conectividade entre regiões e redes cerebrais.

Mas as interpretações dessas imagens, publicadas em periódicos científicos, têm sido inconsistentes e até contraditórias.

Nos últimos cinco anos, um grupo internacional de pesquisadores tentou compreender os resultados divergentes, reunindo dados de quase uma dúzia de estudos de neuroimagem realizados em cinco países e publicados desde 2012.

Os estudos incluíram mais de 500 exames de 267 participantes sob o efeito de cinco substâncias: LSD, psilocibina, mescalina, DMT e ayahuasca.

Suas descobertas, publicadas no último dia 6 no periódico Nature Medicine, sugerem que os psicodélicos provocam uma intensa atividade entre regiões do cérebro que normalmente operam de forma independente. Essas áreas seriam aquelas que processam informações sensoriais, como visão, audição e tato, e aquelas envolvidas no pensamento abstrato e na autorreflexão.

A pesquisa sugere que os compostos psicodélicos reduzem temporariamente a separação entre como pensamos e como percebemos. Isso poderia explicar os mecanismos neurológicos por trás das distorções sensoriais, experiências místicas e dissolução do ego relatadas pelos pacientes durante as sessões.

Compreender esses mecanismos tornou-se cada vez mais importante, visto que um crescente número de pesquisas sugere que drogas psicoativas, incluindo ayahuasca, cetamina e MDMA, podem ser eficazes no tratamento da depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático e outras condições de saúde mental.

Manesh Girn, neurocientista da Universidade da Califórnia e um dos principais autores do novo estudo, afirma que os resultados fornecem um ponto de referência geralmente aceito para entender como os psicodélicos afetam o cérebro e se esses compostos têm benefícios terapêuticos.

“Isso ajuda a mudar a conversa do exagero para a clareza”, avalia Girn. “Se os psicodélicos vão se tornar parte da medicina, precisamos de parâmetros confiáveis ​​sobre como eles realmente afetam o cérebro”.

Frequentemente descritas como psicodélicos clássicos devido à forma como atuam no cérebro, essas drogas têm sido o foco de centenas de ensaios clínicos que exploraram seu potencial terapêutico.

Os pesquisadores descobriram que todas as cinco drogas afetaram regiões do cérebro envolvidas na coordenação da percepção e da ação, sugerindo que os psicodélicos influenciam não apenas o pensamento, mas também a forma como a informação flui pelos circuitos cerebrais centrais.

As descobertas fornecem mais evidências de que os psicodélicos alteram fundamentalmente a forma como o cérebro processa informações e sua relação com o mundo. As drogas podem induzir mudanças terapêuticas ao “libertar as pessoas de padrões de comportamento e maneiras usuais de perceber e se relacionar com o mundo”, explica Girn.

Ao analisar dados existentes sob uma única estrutura, os pesquisadores conseguiram determinar quais efeitos cerebrais relatados eram robustos e quais eram menos certos.

Por exemplo, as descobertas pareceram contradizer afirmações anteriores de que os psicodélicos desintegravam de forma confiável as redes cerebrais, incluindo a rede de modo padrão, o sistema de áreas cerebrais interconectadas que se ativam quando uma pessoa está sonhando acordada ou refletindo sobre o futuro.

Girn observa que o estudo não encontrou evidências sólidas para apoiar tais afirmações. As descobertas, segundo ele, foram muito mais complexas do que se supunha anteriormente.

Amy Kuceyeski, especialista em neuroimagem da Weill Cornell Medicine que não participou do estudo, classifica as descobertas como uma “obra-prima”, mas diz que gostaria de ter visto dados sobre como a idade e o sexo podem influenciar os efeitos dos psicodélicos na conectividade cerebral.

“Estudos de ressonância magnética funcional oferecem uma visão poderosa do funcionamento do cérebro humano, mas as imagens são frequentemente processadas e analisadas usando métodos diferentes, o que pode levar a resultados aparentemente divergentes”, afirma.

Joshua Siegel, pesquisador do Centro Langone de Medicina Psicodélica da New York University (NYU) e outro autor do estudo, diz que as descobertas seriam úteis para aqueles que desenvolvem novos compostos, incluindo medicamentos que podem proporcionar benefícios terapêuticos sem a experiência psicodélica, o Santo Graal para algumas empresas.

“Para cada uma dessas drogas, surgem perguntas como: É um psicodélico? Quais redes cerebrais ele atinge? Ele está produzindo os mesmos efeitos cerebrais?”, questiona. “Ter consenso sobre os biomarcadores cerebrais será útil para os 150 novos fármacos com propriedades psicodélicas que estão em desenvolvimento.”

Danilo Bzdok, neurocientista da Universidade McGill e principal organizador do grupo de pesquisas internacional, conta que um dos maiores desafios foi estruturar a cooperação entre dezenas de pesquisadores em três continentes, cujas posições sobre metodologia e análise às vezes os colocavam em desacordo.

Parte dessa discordância, segundo ele, reflete o estado incipiente da pesquisa psicodélica, mas também as diferentes maneiras pelas quais os especialistas têm usado a tecnologia de imagem para medir e interpretar a atividade cerebral.

“É uma comunidade altamente fragmentada que não concorda em muita coisa, então fazer com que todos se sentassem à mesma mesa exigiu muito trabalho.”

Fonte: Estadão – acesse aqui