A mortalidade materna está diminuindo, mas ainda é muito alta 

Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020.

O que diz a mídia

As novas estimativas de mortalidade materna divulgadas pelas Nações Unidas são uma boa notícia, mas não o suficiente. Todas as evidências apontam para mais de 250 mil mortes de mulheres que ainda morrem anualmente em decorrência da gravidez e do parto – cerca de uma a cada dois minutos através do mundo, principalmente em países de baixa e média renda com grande ênfase à África, infelizmente. Sabemos que logística e assistência médica adequadas podem, em princípio, prevenir quase todas essas mortes.

É fundamental uma atenção primária adequada, com assistência à saúde, ultrassonografias durante a gestação, ótima assistência ao parto e disponibilidade de UTIs para as mães e crianças para grande redução da mortalidade materna e infantil.

Na Escandinávia, por exemplo, as taxas caíram para menos de 1 em 10.000 nascimentos, mas, para o mundo todo, permanecem em torno de 20 por 10.000 nascimentos, e em alguns países as mortes maternas ainda ocorrem em 1% dos nascimentos – um índice totalmente inaceitável para o século XXI. Felizmente, em Campinas, temos indicadores semelhantes aos mais desenvolvidos países do mundo. Isto se deve a muito bom pré-natal disponível e ótimas maternidades tanto ao SUS quanto ao sistema privado de saúde.

Por que precisamos de estimativas desses números importantes em todos os países e regiões do mundo? A resposta é que os detalhes, em escala mundial, são simplesmente desconhecidos. Esta informação é inaceitável. A OMS, em seu perfil no Twitter apontou que “nem mesmo a melhor modelagem pode nos dar os números reais. Portanto, a OMS pede um registro mais robusto de nascimentos, óbitos e causas de morte”.

Contudo, o progresso insuficiente na redução da mortalidade materna – e o fracasso global quase inevitável em atingir a redução de 75% na mortalidade materna prevista pelo Objetivo de Desenvolvimento do Milênio 5 (ODM 5) – é uma realidade inegável, independentemente das técnicas de estimativa utilizadas.

Quando novos conjuntos de estimativas globais são publicados, a primeira atenção naturalmente se volta para os resultados principais – 287.000 mortes maternas, segundo o relatório recente. Mas essas estimativas também contêm muitos detalhes. Uma das questões mais complexas na estimativa da mortalidade materna é modelar as interações entre gravidez e, por exemplo, HIV/AIDS em termos de causas de morte de mulheres, particularmente em áreas como a África Austral, onde as infecções por HIV/AIDS ocorrem em altas taxas. Mulheres com HIV têm menos probabilidade de engravidar, mas estar grávida e ser HIV positiva pode representar um risco aumentado. Há um apêndice inteiro sobre os cálculos matemáticos disso nas novas estimativas – mas o fato é que existem dificuldades e incertezas em fazer qualquer estimativa desse tipo.

Toda mulher que engravida corre riscos. É um momento fisiológico que exige atenção e cuidado. A comunidade global de Saúde possui o conhecimento e os recursos para gerenciar esses riscos e minimizar as consequências adversas. Por que não conseguimos impedir que mães morram?

Fonte: Hora Campinas – confira aqui