IA para Médicos: contribuição na assistência e melhoria nos resultados

Professor do novo curso do IESAPM voltado ao tema destaca de que maneira a inteligência artificial vem se consolidando como uma aliada da profissão

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A inteligência artificial vem ocupando um espaço relevante na Medicina. Ao otimizar processos, auxiliar em diagnósticos, minimizar burocracias e contribuir para a atualização científica, a ferramenta se torna uma importante aliada dos médicos. A tendência é que ela amplie, cada vez mais, a sua dimensão no apoio à tomada de decisões e se consolide como um instrumento fundamental para o setor.

Desta forma, é fundamental que os profissionais se mantenham atualizados e saibam utilizar a IA a seu favor. Pensando nisso, o Instituto de Ensino Superior da Associação Paulista de Medicina (IESAPM) dará início, em março, ao Curso IA para Médicos, coordenado pelo radiologista Fabrício Próspero Machado, especialista no tema. Em entrevista exclusiva à Revista da APM, ele destaca a influência e a dimensão da inteligência artificial nesta nova era. Leia a seguir.

O que diria para médicos que têm resistência em utilizar a inteligência artificial e outras tecnologias?
A resistência é compreensível e, em certa medida, saudável, pois a Medicina sempre exigiu cautela diante de novas ferramentas. No entanto, ignorar a inteligência artificial não protege o médico, apenas o deixa menos preparado para um cenário que já está em curso. A IA não substitui o médico, mas tende a ampliar o alcance e a eficiência daqueles que sabem utilizá-la de forma crítica. O caminho mais seguro não é a negação, e sim o aprendizado gradual, com uso controlado, validação constante e compreensão clara dos limites da tecnologia.

De que maneira utilizar a IA de forma ética e segura?
O uso ético e seguro da inteligência artificial na Medicina passa, acima de tudo, pelo entendimento de que essas ferramentas devem atuar como apoio e não como instâncias decisórias finais. É essencial preservar a confidencialidade dos dados dos pacientes, evitar o uso de informações identificáveis em plataformas não autorizadas e sempre validar as informações geradas pela IA com fontes confiáveis e conhecimento clínico. A supervisão humana contínua, a transparência no uso da tecnologia e a consciência de seus limites são pilares indispensáveis para uma adoção responsável.

Sabemos que a inteligência artificial pode ser utilizada para auxiliar em diagnósticos e otimizar processos, mas além disso, quais outros benefícios também oferece aos médicos?
A inteligência artificial oferece benefícios relevantes relacionados à qualidade do trabalho médico e ao bem-estar profissional. A redução do tempo dedicado à documentação e a tarefas repetitivas permite que o médico se concentre mais no cuidado ao paciente e no raciocínio clínico. A IA também pode melhorar a comunicação médico-paciente ao auxiliar na explicação de diagnósticos, tratamentos e planos terapêuticos em linguagem mais clara. No campo acadêmico, contribui para a atualização científica, a preparação de aulas e a organização de conteúdos, tornando o aprendizado contínuo mais viável em meio à rotina intensa da Medicina.

Quais as mudanças mais marcantes trazidas no âmbito da Medicina e da Ciência que já podem ser observadas?
Entre as mudanças mais evidentes está o aumento da eficiência na prática médica e científica, com profissionais conseguindo lidar com volumes crescentes de informação de forma mais estruturada. A inteligência artificial tem acelerado processos de pesquisa, síntese de evidências e produção científica, além de favorecer uma padronização maior de fluxos clínicos baseados em diretrizes. Outra transformação importante é o surgimento de uma nova competência profissional: a capacidade de formular boas perguntas, interpretar respostas geradas por sistemas de IA e validá-las à luz do conhecimento médico e da evidência científica.

Qual a importância de o Brasil ter uma regulamentação sobre a utilização de IA na Medicina?
A regulamentação é fundamental para garantir segurança, transparência e responsabilidade no uso da inteligência artificial na Medicina. Sem regras claras, há o risco de adoção de soluções sem validação adequada, o que pode comprometer a qualidade do cuidado e a segurança do paciente. Uma boa regulamentação ajuda a definir responsabilidades, proteger dados sensíveis, alinhar o uso da tecnologia às normas éticas e estimular a inovação responsável. O desafio é construir um marco regulatório que proteja o paciente sem inviabilizar o avanço tecnológico.

Quais países já são exemplos na utilização de IA na Medicina e como o Brasil pode replicar os seus feitos?
Países como Estados Unidos, China e Israel têm se destacado no uso da inteligência artificial na Medicina, cada um por motivos distintos, como investimento em tecnologia, qualidade dos dados ou integração com sistemas públicos de Saúde. O aprendizado para o Brasil passa menos por copiar modelos prontos e mais por adaptar estratégias à sua realidade. Investir na qualificação dos profissionais de Saúde, estruturar dados de forma adequada, criar projetos-piloto com métricas claras e estabelecer uma governança sólida são passos essenciais para que o País avance de maneira consistente e segura no uso da IA em Saúde.

Quais os objetivos do curso IA para Médicos do IESAPM? De que forma as aulas serão divididas?
O curso de Inteligência Artificial para Médicos tem como principal objetivo capacitar o profissional de Saúde a utilizar a IA como uma ferramenta de apoio ao raciocínio clínico, à tomada de decisão e à organização do trabalho médico. A proposta não é automatizar decisões nem substituir o julgamento humano, mas reduzir a sobrecarga operacional e cognitiva que hoje afeta grande parte dos médicos. A estrutura do curso foi desenhada de forma progressiva, iniciando pelos fundamentos da inteligência artificial e seus limites, avançando para aplicações práticas de produtividade e apoio à decisão clínica, e culminando em estratégias de implementação segura no consultório, no hospital e em serviços de Saúde. A divisão em módulos permite que o médico compreenda não apenas como usar as ferramentas, mas quando e por que utilizá-las.

O curso também abrange estudantes de Medicina? Qual a importância de eles estarem inseridos no tema?
Sim, o curso também é voltado a estudantes de Medicina, justamente porque a inteligência artificial tende a se consolidar como parte estrutural da prática médica nos próximos anos. Inserir o estudante nesse debate desde a formação inicial permite desenvolver uma relação mais crítica e consciente
com a tecnologia. Em vez de enxergar a IA como uma ameaça ou como uma solução mágica, o futuro médico aprende a utilizá-la como apoio ao estudo, à organização do conhecimento e à prática baseada em evidências. Esse contato precoce contribui para formar profissionais mais preparados para um cenário em que a tecnologia estará integrada à rotina assistencial.


Raio-X

FORMAÇÃO: Universidade Estadual de Londrina (UEL), com mestrado em Administração pela FGV e MBA em Healthcare pela University of Miami

ESPECIALIDADE: Radiologia

ATUAÇÃO: Radiologista do Instituto Prevent Senior e referência no desenvolvimento de soluções que conectam tecnologia e prática clínica


Matéria publicada na edição 754 (Janeiro/Fevereiro de 2026) da Revista da APM