A trajetória da oftalmologista Maria Auxiliadora Monteiro Frazão é marcada por determinação, excelência acadêmica e compromisso com o cuidado ao ser humano. Atual presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) para o biênio 2026–2027, sua história reflete não apenas conquistas individuais, mas também a evolução de uma especialidade essencial para a qualidade de vida da população.
Desde a infância, a Medicina já se desenhava como uma área de seu interesse, em cuidar das pessoas. Em determinado momento, chegou a ingressar no curso de Direito, mas logo percebeu que aquele não era o caminho a seguir.
A escolha da Oftalmologia surgiu no fim da graduação de Medicina, época que ela começou a ter acesso a várias especialidades, incluindo o contato com pessoas que não enxergavam. “Isso realmente me tocava e percebi o quanto seria importante cuidar dos olhos dos pacientes, porque a visão é importante para o desenvolvimento das pessoas, seja na cognição e nas suas relações interpessoais e profissionais”, destaca.
Sua trajetória profissional é marcada por realizações expressivas. Ela se formou pela Faculdade de Medicina de Jundiaí, fez Residência Médica e especialização em Oftalmologia na Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, doutorado em Oftalmologia pela Universidade de São Paulo e MBA em Gestão de Saúde pela Escola Paulista de Medicina.
“Sempre fui uma pessoa extremamente estudiosa, e os desafios na formação acadêmica são exatamente se adaptar quando você entra em uma boa universidade e passa por tantas coisas para desenvolver a inteligência emocional. Além disso, a faculdade de Medicina demanda que você tenha uma organização e um esforço para que a complete de forma exitosa”, descreve.
Trajetória
Ao longo de sua jornada, contou com a influência de mestres inspiradores que aliavam conhecimento técnico à sensibilidade no cuidado e no olhar com o paciente. “Uma pessoa que era extremamente exigente e teve uma influência grande foi a professora de Ginecologia e titular da USP, Lenir Mathias. Ela realmente inspirava a todos nós pela competência e seriedade.
Já na Santa Casa, ressalto Geraldo Vicente de Almeida, Ralph Cohen e Roberto Neufeld, pessoas que iniciei a especialidade e caminhei ao lado por muito tempo, aprofundando meus conhecimentos na área de uveítes, além de desenvolver habilidades em catarata de uma forma mais ampla na Oftalmologia geral”, explica.
Maria Auxiliadora foi presidente da Sociedade Brasileira de Uveítes (SBU) e chefe do setor de Uveítes da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Há alguns anos, é diretora do departamento de Oftalmologia da Santa Casa e ganhou alguns prêmios com trabalhos científicos. “As vitórias que a gente vai galgando com muito esforço dentro da carreira acadêmica – títulos, mestrados, doutorados e cargos – vão sendo ocupados exatamente pelo reconhecimento da sua trajetória acadêmica, questões que sempre marcam a nossa vida profissional.”
Com mais de 30 anos de atuação, a especialista testemunhou transformações significativas na Oftalmologia. A evolução tecnológica é, para ela, um dos aspectos mais impressionantes da especialidade. Entre os avanços mais marcantes, destaca a diferença da técnica cirúrgica da catarata, que passou da extracapsular para facoemulsificação, com implante de lentes intraoculares dobráveis.
“Na parte de diagnóstico e tratamento, temos a tomografia de coerência ótica (OCT), outro equipamento que fez uma grande diferença e avançou muito para que tivéssemos uma nova visão especialmente na área da retina. Fora a genética e estudos de medicações intraoculares que avançam a cada ano em termos de diagnóstico e tratamento das doenças oculares”, acrescenta. A presidente do CBO afirma que os desafios enfrentados pelas mulheres nesta especialidade, de modo geral, são por acesso.
“A sociedade tem mudado e toda vez que alguém dá acesso e capacitação igual, você consegue atingir lugares de forma igual. Na minha geração, particularmente, nunca tive problema por ser mulher. Me desenvolvi e avancei em tudo aquilo o que almejei, porque lutei por isso e conquistei. Sempre fui muito esforçada, estudei muito e me dediquei. Tive sorte também, porque meu pai, meu marido e meus professores sempre me incentivaram muito.”
Dedicação
Ao refletir sobre o futuro da especialidade, sua visão é otimista. Reforça que hoje existe uma visão mais holística de como prevenir a cegueira evitável no mundo inteiro, e ONGs e instituições estão trabalhando em prol disso. “Claro que temos que evoluir no desenvolvimento de tecnologias para diagnóstico e tratamento acessível, porque são caras. É extremamente necessário avançar na prevenção da cegueira de forma global, com acesso cada vez maior.
Existe um grande desafio para as especialidades no Brasil e no mundo todo”, comenta. Já no campo da pesquisa, Maria Auxiliadora enfatiza a necessidade de avanços em múltiplas frentes. “É preciso olhar desde questões epidemiológicas e sociais até questões técnicas e de Ciência básica. Implantar programas de prevenção da cegueira evitável é uma das prioridades, além de outras doenças que a gente precisa avançar com diagnóstico precoce e tecnologia mais avançada.”
Para os jovens médicos que desejam seguir na especialidade, a oftalmologista orienta investir continuamente em capacitação. “Em um cenário em constante transformação, tanto no ensino quanto no mercado de trabalho, o diferencial está no compromisso com o aprendizado permanente. Estudar, se atualizar e desenvolver um olhar crítico sobre a realidade são elementos essenciais para o sucesso em qualquer área da Medicina”, conclui.
Matéria publicada na edição 755 (Março/ Abril de 2026) da Revista da APM