Em meio à onda de procedimentos estéticos e busca por um padrão de beleza inalcançável, diversas são as alternativas que surgem prometendo resultados milagrosos. Emagrecimento, rejuvenescimento, aumento da libido e longevidade estão entre alguns dos efeitos da “hormonologia”, termo utilizado para definir as terapias feitas por meio de reposição hormonal e que, na teoria, proporciona soluções extraordinárias.
No entanto, quando manipulada sem necessidade ou sem a supervisão adequada, os resultados podem ser catastróficos e estão associados ao aumento de acne, queda de cabelo, doenças cardiovasculares e até mesmo a casos de câncer. Além disso, apesar de a hormonologia prometer ser personalizada de acordo com as necessidades de cada paciente, a produção dos hormônios fabricados em laboratórios tem escala industrial, o que contradiz a ideia de um tratamento pessoal e individualizado.
Segundo o presidente da Associação Médica Brasileira, César Eduardo Fernandes, o País conta com produtos hormonais registrados e reconhecidos pela Anvisa, em que na bula são relatados as indicações e os efeitos adversos. No entanto, a preocupação ocorre nos produtos manipulados. “Eles dão margem a formulações inadequadas com doses incorretas e que podem ser danosas aos pacientes. É sempre mais seguro fazer uso de medicações cujas formulações mereceram análise e aprovação para que pudessem ser comercializadas e prescritas aos nossos pacientes.”
Contexto
Na Medicina, o manejo de hormônios é foco do trabalho e estudo de endocrinologistas e a reposição hormonal é recomendada em casos específicos, quando o especialista enxerga a necessidade de tratamento – também sendo foco da atuação de ginecologistas, no caso das mulheres.
Também é importante salientar que, no Brasil, a Endocrinologia e Metabologia é uma especialidade consolidada desde 1950 e a residência médica para adentrar esta área, de dois anos, não é de acesso direto, ou seja, primeiramente é preciso realizar dois anos de residência em Clínica Médica. Bem como a Ginecologia e Obstetrícia, especialidade que demanda três anos de residência médica.
Isso demonstra o tempo, comprometimento e dedicação aplicados na especialização, o que traz o embasamento científico necessário para a recomendação das terapias hormonais e acende a importância de que pacientes se consultem com profissionais habilitados para proporcionar não apenas esse tipo de tratamento, mas que estejam preparados para lidar com as eventuais intercorrências que podem suceder nesse ínterim.
Como alternativa à longa jornada na especialização médica, cursos com foco na “especialização em hormonologia” vêm ganhando popularidade atualmente e são vendidos em abundância – grande parte deles, patrocinados por farmácias de manipulação que estão em ascensão neste ramo. Alguns deles têm o formato on-line e duração de somente um fim de semana, o que não condiz com o tempo de formação devotado pelos endocrinologistas e ginecologistas.
César Fernandes, que também é professor Titular de Ginecologia da Faculdade de Medicina do ABC, reforça que a chamada hormonologia não é uma especialidade médica legalmente reconhecida e, por isso, nenhum médico pode se intitular como hormonologista. Além disso, ele também alerta para o uso inadequado dos hormônios.
“Quando bem indicados, nas doses apropriadas e pelas vias de administração correta, podem trazer grandes benefícios aos pacientes que padecem da deficiência desses hormônios. Em contrapartida, quando mal-empregados, sem indicações aceitas pelas diretrizes médicas editadas em consensos nacionais e internacionais, podem comprometer seriamente a vida dessas pessoas. Ou seja, eles podem ser usados terapeuticamente e trazer benefícios aos pacientes. No entanto, assistimos nos tempos atuais o uso indiscriminado, incorreto e perigoso, que, claro, precisa ser combatido e evitado”, manifesta o presidente da AMB.
Ele explica de que maneira é possível conscientizar os pacientes sobre os prejuízos da hormonologia. “Eu acredito que devem ser informados acerca da realidade que existe por trás da prescrição de hormônios. Precisam saber com absoluta transparência a importância de sua prescrição, dos potenciais eventos adversos e, particularmente, dos riscos que sofrem quando as prescrições não seguem as recomendações médicas tradicionais conforme recomendam as diretrizes terapêuticas nacionais e internacionais que tratam do assunto.”
E também acrescenta: “Precisam, sobretudo, saber dos enormes riscos que correm quando a prescrição é feita em desobediência ao que as sociedades médicas de especialidades preconizam por meio de seus consensos”.
Posicionamento
A Associação Paulista de Medicina reitera que é impossível resumir anos de estudo e pesquisa em cursos curtos e sem treinamento prático. Por este motivo, se posiciona integralmente contrária à “hormonologia” e enfatiza que não se trata de uma especialidade médica, representando uma prática inadequada, perigosa e sem evidências científicas.
Em nota, a Associação Médica Brasileira reforçou que “a ‘hormonologia’ vem sendo anunciada nas redes sociais, nos consultórios médicos, em cursos e congressos com o objetivo de tentar legitimar práticas inadequadas não baseadas em evidências científicas e titular profissionais autoaclamados como especialistas sem a formação adequada para manejar hormônios. Conclamamos os órgãos de imprensa e as redes sociais a não darem guarida a esse tipo de exploração indevida de noções e conceitos falsos que, em última instância, desrespeitam os pacientes e a sociedade.”
A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia também já manifesta que “a utilização de hormônios com finalidades estéticas não é reconhecida pela entidade e também está associada com a possibilidade de ocorrerem vários efeitos adversos”, salientando que profissionais que utilizarem hormônios no tratamento de pacientes sem deficiências hormonais devem ser responsabilizados na esfera cível e penal.
A APM destaca que profissionais sem a habilitação necessária para o manejo hormonal, principalmente nos casos em que não há necessidade de indicação, devem ser responsabilizados pela má prática médica e por colocarem a Saúde e a vida dos pacientes em risco. A entidade também manifesta a importância de as sociedades de especialidades, conselhos e demais associações médicas se manterem unidos na preservação da Medicina baseada na Ciência e na ética, combatendo, assim, a disseminação da desinformação e da negligência.