Temperaturas mais baixas podem aumentar em até 30% as mortes por doenças cardiovasculares  

Frio, clima extremo e poluição entram no centro do debate cardiovascular no 46º Congresso da SOCESP

Radar

A chegada do inverno acende um alerta importante para a saúde do coração. Evidências científicas recentes mostram que períodos de frio estão associados ao aumento de infartos, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e descompensações da insuficiência cardíaca, um fenômeno observado em diversos países, inclusive no Brasil. Estudos publicados em revistas de alto impacto, no ano passado, indicam que temperaturas mais baixas e ondas de frio elevam significativamente o risco cardiovascular, com eventos podendo ocorrer dias após a exposição ao frio intenso. 

Pesquisas internacionais apontam que a queda da temperatura está diretamente relacionada ao aumento de hospitalizações por infarto, enquanto episódios de frio extremo podem elevar o risco em até mais da metade em populações vulneráveis. A sazonalidade também impacta fortemente a insuficiência cardíaca, com crescimento consistente das internações e maior mortalidade durante os meses mais frios, especialmente entre idosos. 

Os mecanismos por trás desse cenário envolvem respostas fisiológicas complexas: vasoconstrição, elevação da pressão arterial, aumento da atividade do sistema nervoso simpático, além de maior inflamação e instabilidade de placas ateroscleróticas. No Brasil, dados do Instituto do Coração (InCor) indicam que temperaturas abaixo de 14°C podem estar associadas a um aumento de até 30% nas mortes por doenças cardiovasculares. 

Outro fator relevante é o impacto das infecções respiratórias, mais comuns no inverno. Vírus como influenza e Covid-19 desencadeiam processos inflamatórios que podem agravar doenças cardiovasculares e precipitar eventos agudos. “A vacinação é uma estratégia essencial de prevenção, com evidências mostrando redução do risco de infarto e mortalidade cardiovascular entre pessoas imunizadas”, destaca a cardiologista Jaqueline Scholz. 

Diante desse cenário, o 46º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP) traz uma abordagem inovadora ao integrar o tema das mudanças climáticas e seus impactos na saúde do coração por meio da Arena ESG. “O espaço será dedicado a discutir como fatores ambientais, sociais e de governança influenciam diretamente o risco cardiovascular e a organização dos sistemas de saúde”, completa Jaqueline Scholz, uma das coordenadoras da Arena ESG. 

Ao longo da programação, autoridades e lideranças acadêmicas irão debater temas como os efeitos da poluição do ar e de partículas ambientais na formação e progressão da aterosclerose, a relação entre qualidade ambiental e incidência de doenças cardiovasculares e o impacto de temperaturas extremas, tanto frio quanto calor, sobre eventos como o infarto. Também estarão em pauta os efeitos de eventos climáticos intensos, como chuvas e inundações, e sua relação com o agravamento de condições cardíacas. 

Jaqueline Scholz conta que a Arena ESG ainda abordará questões estruturais, como a necessidade de adaptação dos sistemas de saúde frente às mudanças climáticas, estratégias de descarbonização e o papel da saúde digital. “No eixo social, serão discutidos modelos de gestão e políticas públicas voltadas à melhoria da saúde cardiovascular, além do impacto da poluição nas internações por infarto e AVC e a relação entre ambientes mais sustentáveis e maior expectativa de vida”, completa. 

Com essa iniciativa pelo segundo ano consecutivo, o congresso reforça que os desafios da cardiologia vão além dos fatores tradicionais de risco e passam, cada vez mais, por determinantes ambientais e sociais. “A proposta é ampliar o olhar sobre a prevenção e preparar profissionais e gestores para um cenário em que clima, urbanização e saúde estão profundamente interligados”, conclui o presidente da SOCESP, Ricardo Pavanello.