Comunicação é ferramenta terapêutica, não ‘soft skill’
Os anos de espera até o diagnóstico da doença de Hailey-Hailey ensinaram duas coisas para o então estudante de medicina e hoje geneticista Dr. Paulo Victor Zattar Ribeiro: não se sentir ouvido faz parte do processo de adoecimento e, muitas vezes, a cura pode vir do próprio diagnóstico. “Eu não me sentia ouvido”, relata o médico formado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP). “Só uma médica realmente perguntou como eu me sentia com aquilo e qual era o impacto da doença na minha qualidade de vida. Todos os outros médicos só queriam investigar tecnicamente a minha doença.”
Essa percepção não é individual. Uma a pesquisa qualitativa publicada no periódico Clinics investigou como 60 pacientes do Ambulatório de Avaliação Pré-operatória do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP constroem satisfação e confiança nos médicos.
“A minha experiência clínica me mostrou que essa associação entre comunicação e desfechos clínicos existe, mas me deixou curioso para entender como ocorre”, explica o líder do estudo, Dr. Carlos Frederico Confort Campos, que é médico de família e pesquisador no Centre for Medical and Health Sciences Education da Universidade de Auckland, na Austrália.
A pesquisa revelou que pacientes frequentemente não conseguem separar competência técnica de competência relacional. Em um dos depoimentos incluídos no artigo, um paciente afirmou confiar no médico porque ele “olhou nos meus olhos” e falou “de igual para igual”. Outro relatou satisfação porque a médica “escutou” antes de presumir que já sabia tudo sobre o caso.
“A comunicação raramente altera diretamente um marcador biológico isolado, como pressão arterial ou colesterol, mas pode influenciar resultados intermediários fundamentais para o cuidado”, explica Dr. Carlos. “A comunicação estrutura o estabelecimento de uma relação terapêutica. E esta relação terapêutica, sim, pode afetar os desfechos clínicos.”
Os pesquisadores identificaram três grandes grupos de fatores envolvidos na construção de satisfação e confiança: competências médicas, subjetividade do paciente e contexto institucional do cuidado. Na prática, isso significa que os pacientes avaliam a consulta não apenas pela resolução objetiva do problema de saúde, mas também por sinais aparentemente simples, como contato visual, disposição para ouvir, clareza das explicações, gentileza e interesse genuíno durante a conversa.
A experiência de Dr. Paulo Victor ilustra exatamente esses achados. “A comunicação na saúde envolve escutar muito mais do que falar”, afirma. Na genética médica, consultas frequentemente envolvem incertezas, doenças sem tratamento curativo e conversas potencialmente devastadoras para pacientes e famílias. Para ele, nesses contextos, a comunicação pode alterar profundamente a experiência emocional do adoecimento.
“Eu sempre sou honesto sobre o diagnóstico”, conta. “Mas também preciso trazer esperança, expectativa e pontos positivos.” Segundo ele, um dos maiores erros da medicina é associar cura exclusivamente à ausência de doença. “Muitas vezes a cura, para uma família, é finalmente entender o que está acontecendo.”
O geneticista lembra o caso de uma criança que chegou ao serviço após anos sem diagnóstico, com comprometimento grave da visão, da audição, da fala e do desenvolvimento neuropsicomotor. Quando a síndrome genética finalmente foi identificada, a mãe começou a chorar. “Ela disse: ‘Estou chorando de alívio, porque finalmente sei o que meu filho tem'”, relata o Dr. Paulo Victor. “Ela se culpava pelo quadro da criança e acreditava que nunca encontraria outra família vivendo aquilo. O diagnóstico foi a cura dela.”
Quando a tecnologia afasta o paciente
“O aumento da tecnologia, dos exames subsidiários e dos equipamentos leva muitas vezes o médico a olhar só para o exame, esquecendo a parte da história e do exame clínico, que são fundamentais para chegar a um diagnóstico”, alerta Dr. Antonio José Gonçalves, presidente da Associação Paulista de Medicina (APM) e professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Uma análise sistemática de publicações científicas entre 2010 e 2024, que teve como coautora a pesquisadora Aline Rodrigues Gomes, vinculada ao Centro Universitário de Volta Redonda (UniFOA), identificou que consultas mecanizadas, excesso de linguagem técnica e interrupções constantes durante o relato do paciente estão entre os principais fatores que prejudicam a qualidade do atendimento.
“Muitos pacientes deixam o consultório sem compreender totalmente o diagnóstico, o tratamento prescrito ou os riscos relacionados à própria doença”, explica a especialista em comunicação e doutoranda em administração.
“Os erros de comunicação mais observados são a falta do chamado ‘olho no olho’ e a falta de explicação clara sobre sintomas e tratamentos”, observa Dr. Antonio José. Segundo ele, exames precisam ser interpretados “à luz do que sente o paciente”.
Os caminhos práticos da escuta
“Só o fato de o paciente ser ouvido já tem um efeito terapêutico”, afirma a psiquiatra Dra. Fabrícia Signorelli, mestre em distúrbios do desenvolvimento pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo ela, muitos pacientes abandonam tratamentos ou trocam repetidamente de profissional quando sentem que sua fala foi desconsiderada durante a consulta.
No estudo da USP, os autores discutem que confiança e satisfação funcionam como desfechos intermediários entre comunicação e saúde, influenciando comportamento do paciente, adesão e continuidade do tratamento.
“Criar espaço para que o paciente fale sem interrupções no início da consulta é fundamental”, explica Aline. “Perguntar se o paciente compreendeu ou se tem dúvidas funciona como um feedback importante para entender até que ponto a mensagem foi assimilada.”
“Falar uma linguagem que o paciente entenda é essencial”, reforça Dr. Antonio José. “Frases como ‘Entendo que isso possa ser difícil’ fazem diferença”, observa Aline. “É importante construir decisões compartilhadas, considerando realidade, cultura e possibilidades daquele paciente.”
Dr. Carlos observa que habilidades relacionais ainda ocupam papel secundário na formação médica. “Muito do aprendizado dessas competências acontece pela observação direta de exemplos. E muitas vezes os alunos acompanham ambientes extremamente mecanizados ou desumanizados.”
Para Dr. Antonio José, a medicina precisa recuperar características humanísticas. Ao citar o médico canadense Dr. William Osler, ele resume: “O bom médico trata a doença; o grande médico trata o paciente que tem a doença”.
Daniela Barros é jornalista, com pós-graduação lato sensu em jornalismo social pela PUC-SP e aluna especial no Departamento de Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP). Escreve sobre medicina há 23 anos, colaborando com diversas publicações direcionadas ao tema.
Roseane Santos é jornalista especializada em Saúde, com destaque nas coberturas de ciência e medicina. Atuou na Folha de S.Paulo e no UOL, além de colaborar com publicações científicas do Instituto Nacional do Câncer (INCA) e do Hospital Israelita Albert Einstein.
Fonte: MedScape – confira