Albertina Duarte: o amor pela Medicina que atravessou fronteiras

Ginecologista e obstetra foi indicada ao Nobel da Paz Coletivo em 2005, participou diretamente da elaboração do SUS e criou o Programa Saúde do Adolescente em SP

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Desde muito cedo na vida, Albertina Duarte já sabia que um dia se tornaria médica. Nascida em Portugal, todos os dias ela acordava para acompanhar a tia-avó, que era parteira, na realização dos partos das mulheres da aldeia em que vivia. Ela recorda que o som de sua infância era o choro das crianças que ajudava a trazer ao mundo e sentia que estava destinada a seguir neste caminho.

No entanto, sabia que, se quisesse fazer o sonho se tornar realidade, teria que ir embora de Portugal. Naquela época, o país permitia que mulheres estudassem apenas até o quarto ano primário. “O meu avô estava no Brasil e eu pedi para ele me trazer para cá. Eu era muito pequena. Ninguém na minha aldeia tinha estudado Medicina e, na minha família, eu fui a primeira mulher que soube ler.”

Após a sua chegada ao Brasil, não demorou para que o destino de Albertina cruzasse com a área da Saúde e da Educação. Aos oito anos, ela ajudava a fazer curativos nas idosas que moravam perto de sua casa e foi a responsável por ajudar a mãe e as irmãs a aprenderem a ler, por meio do método Paulo Freire, por saber que a alfabetização seria fundamental para a vida de todas elas.

A aprovação em Medicina na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) foi um momento de muita alegria. Durante a graduação, ela chegou a ficar balançada pela área da Neurologia, especialidade pela qual também nutria um carinho especial. “Mas quando eu estava no terceiro ano, em um dia 10 de outubro, ajudei a fazer o meu primeiro parto como estudante de Medicina, na Maternidade de São Paulo. Eu nunca vou esquecer esta data, porque não era habitual que estudantes participassem de partos. Mas foi neste momento que eu tive a certeza de que era isso o que queria fazer.”

Empenho
A partir daí, Albertina começou a se preparar para concursos e conseguiu uma vaga na Cruzada Pró-Infância, em que dava plantões aos domingos – ela relembra, com orgulho e bom humor, que aquele era o dia em que havia apenas ela de médica no local. “Eu achava muito legal, porque os homens saíam, iam ficar juntos e ver jogos, e eu ficava sozinha. Então era ótimo, eu ficava lá tomando conta de tudo e me sentia mais empoderada.”

No entanto, a médica destaca que o trabalho era desafiador. “Na verdade, eu sou de um tempo que na minha turma somente 10% eram mulheres e os outros 90% eram homens, o meu mundo sempre foi masculino. Nos plantões, eu era minoria total e não havia nem banheiros para as mulheres, para se ter noção. Mas acho que o maior obstáculo sempre foi a cobrança que existia e que eu precisava fazer comigo mesma, porque sabia que não bastava ser boa, tinha que ser a melhor.”

Por meio de sua dedicação, ocorreu a aprovação como assistente da Clínica Ginecológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), o início de uma longa jornada na instituição. Lá, Albertina realizou mestrado e doutorado e foi responsável por, ao lado do médico Álvaro da Cunha Bastos, criar o primeiro Ambulatório de Ginecologia da Infância e da Adolescência.

Ela destaca que Bastos sempre foi a sua maior inspiração. “O meu filho também se chama Álvaro, tamanha a minha gratidão. Além dele, outros nomes também me marcaram, como José Aristodemo Pinotti, Sérgio Arouca e Guilherme Rodrigues da Silva, que foi o primeiro homem negro a ser diretor do Hospital das Clínicas. Atualmente, eu diria que o que mais me inspira é o coletivo de mulheres nos vários movimentos sociais.”

Além disso, a ginecologista e obstetra é autora de diversos livros – acadêmicos e não acadêmicos – voltados à Ginecologia e ao empoderamento feminino, e eles também contribuíram para que ela se consolidasse como uma das maiores referências na Saúde da mulher. “Eu ajudei a escrever o primeiro livro de Ginecologia infantojuvenil e fui autora de ‘Gravidez na Adolescência: Ai, como sofri por te amar’. Isso me fortaleceu e eu sempre vivi entre três mundos, o do HC, o da saúde pública e o do consultório. Isso me motivou, a prova é que fui a primeira ginecologista que também fez um ano de Saúde Pública na Faculdade de Medicina da USP.”

Realizações marcantes
A médica define que determinados marcos estabelecem um antes e depois na Medicina, como ultrassom, ressonância, exames laboratoriais sofisticados para a Saúde da mulher, dosagens hormonais, novas formas não invasivas de cirurgias, reconstituição da mama nos casos de cânceres, fertilização in vitro, avanços no tratamento do HIV/Aids e vacina do HPV. “Mas a grande questão, para mim, foi a construção do Sistema Único de Saúde. A possibilidade de você ter toda a técnica dos hospitais de referência com acessibilidade para todo o Brasil. Isso foi um marco histórico na minha vida. Eu louvo a criação do SUS, que eu ajudei a desenhar.”

Com uma trajetória marcada pelo pioneirismo, Albertina foi responsável por fundar o Programa do Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, em 1986, no qual ainda atua como coordenadora. Também por conta de sua atuação, contribuiu para diminuir em 55% a gravidez na adolescência no estado de São Paulo e foi reconhecida com diversos prêmios, como o Prêmio SUS, o HC Calor Humano e o Destaque Mulher em Saúde.

Porém, entre essas condecorações, uma se destaca. Ter sido indicada ao Prêmio Nobel Coletivo da Paz, em 2005. “A Suíça fez uma proposta pela Associação 1000 Mulheres pela Paz e dessas mil mulheres, somente dez eram médicas, e eu era uma delas. Foi um comitê internacional que nos elegeu e é incrível ter esse reconhecimento, estar ao lado de tantas mulheres incríveis, só de lembrar eu já me emociono muito. Nós perdemos para um indiano, que tinha uma proposta de Economia solidária, mas só a indicação já faz parte da minha vida.”

Albertina também guarda no coração e na memória o fato de sempre ter tido o apoio do marido, que era clínico geral, para ajudá-la a conciliar a rotina complexa entre ser médica e mãe. Neste sentido, as vidas profissional e pessoal se entrelaçaram quando ela teve oportunidade de fazer o parto dos três netos. “A minha filha me concedeu essa honra e essa confiança”, diz, com emoção.

Futuro
A ginecologista diz enxergar com certa preocupação o futuro da Medicina, já que a tecnologia, por mais que contribua para auxiliar os profissionais, não pode substituir aquilo que considera como as três ferramentas fundamentais: o contato, a escuta e o olhar.

“Se você não gosta de gente, não faça Medicina, porque na imensa maioria das especialidades você tem que olhar no olho do seu paciente, saber o nome dele, a sua história. Você tem que estudar todos os dias e ter a humildade de compartilhar quando não sabe de algo, não tenha vergonha de pedir ajuda”, argumenta.

Para Albertina, o acompanhamento psicológico é indispensável para garantir que os médicos tenham uma boa experiência profissional e possam promover o cuidado de excelência. “Eu acho que todos eles deviam ter acompanhamento terapêutico, porque são tantos os desafios. A Saúde mental dos médicos é tão importante, por isso acho que a APM e as demais entidades médicas deviam fazer campanha para que os médicos pudessem ter apoio psicológico para seus medos e suas dúvidas.”

Ela finaliza relembrando que as escolas de Medicina precisam começar a resgatar a anamnese, já que representa a queixa, os sentimentos e as emoções. “Precisamos entender que a mulher é um todo e há muita responsabilidade envolvida neste processo de cuidado.”

Matéria publicada na edição 756 (Mai/ Jun de 2026) da Revista da APM