A infância contemporânea tem vivido uma transformação silenciosa. Se antes brincar, explorar o mundo e experimentar o tempo livre eram aspectos centrais do desenvolvimento infantil, hoje muitas crianças crescem sob uma lógica marcada pela produtividade, pelo excesso de estímulos e pela hiperconectividade. Entre tarefas escolares, cursos extracurriculares, pressão por desempenho e exposição precoce às telas, surge uma questão cada vez mais urgente: seria possível falar em burnout infantil?
Suas consequências incluem fadiga extrema (às vezes aparecendo como transtornos alimentares – excessos ou queda na alimentação); excesso ou ausência de sono; ansiedade elevada, muitas vezes confundindo-se com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade; queda no desempenho escolar, aparecendo sob a forma de desmotivação e perda crônica da atenção em sala de aula; e sintomas físicos e emocionais, além de risco de ansiedade patológica e depressão.
O burnout infantil é um estado de esgotamento emocional, mental e físico relacionado à exposição prolongada ao estresse. Diferente do cansaço comum, ele não desaparece após um período de descanso. A criança parece perder gradativamente a motivação, o interesse pelas atividades e até mesmo o prazer nas experiências antes consideradas significativas.
Entre os sinais mais frequentes estão fadiga intensa, irritabilidade, alterações no sono e no apetite, ansiedade, queda do rendimento escolar, dificuldade de concentração, desinteresse pelas tarefas cotidianas e isolamento social. Os sintomas de baixa autoestima e ansiedade podem ser observados quando crianças se sentem excluídas da atenção da escola por baixo rendimento ou, ao contrário, extremamente estimuladas a dar o seu melhor. O fracasso escolar pode se fazer através de uma dinâmica de “baixa autoestima” e trazer para o dia a dia escolar um aumento progressivo de ansiedade.
Muitas vezes, o sofrimento aparece disfarçado sob diagnósticos precipitados, sendo confundido com dificuldades atencionais ou hiperatividade quando, na realidade, a criança encontra-se emocionalmente sobrecarregada. Dificuldades de atenção que exigem esforço extra, que aparece quando as aulas não são motivadoras ou o material exposto pelo professor ainda “não cabe” na organização neurológica da criança.
Não é raro observar crianças exaustas tentando corresponder às expectativas que ultrapassam sua maturidade emocional e neurológica. Em muitos contextos escolares, conteúdos excessivos e avaliações precoces transformam o aprender em fonte contínua de tensão. O estresse acumulado não tem espaço para relaxamento: o ócio e o descanso (sempre acompanhados de uma atividade lúdica, como no ócio a contemplação de imagens naturais e, no relaxamento, usar a imaginação em brincadeiras e invenções mentais) são a proteção psíquica para o evitamento do estresse.
O Estresse e o Burnout
Estresse é uma invasão, na dinâmica intrapsíquica da criança, adolescente ou adulto, na qual sintomas diversos podem surgir. É uma reação natural do organismo a situações que exigem esforço, mudanças de conduta ou situações que são percebidas como ameaçadoras. Essa reação prepara o organismo infantil ou adulto para o “estado de alerta” (o mecanismo de luta e fuga) liberando hormônios como cortisol e adrenalina.
Os sinais mais frequentes do estresse podem ser tensão muscular e dores pelo corpo, cefaleias, arritmia cardíaca, secura intensa na boca e problemas digestivos ou intestinais, como dificuldade na digestão e inconstância do funcionamento intestinal, com alterações entre diarreias e prisão de ventre; e irritabilidade, crises de choro, oscilações de humor, ansiedade, agressividade imotivada e comportamento opositor/desafiador.
No caso do burnout, a criança pode ainda não se sentir motivada para participar de atividades extracurriculares, procrastinar ou se afastar das tarefas de casa e dos trabalhos escolares. Perde os interesses pelas coisas como a escola, os amigos, um esporte ou hobby favorito. Mudanças observáveis no comportamento podem incluir respostas ríspidas ou monossilábicas. Começa a apresentar comportamentos de evitação – pode estar evitando situações que antes não evitava. Por exemplo, adorava dormir na casa de amigos, mas agora quer ficar em casa.
Nascem preocupações, ansiedade e medo – a criança pode estar sentindo um aumento no medo, nas preocupações e na ansiedade. Quando a ansiedade se torna insuportável para as crianças, pode causar choro, mal-estar (incluindo dores de barriga e de cabeça), tremores, suor e até mesmo paralisia, entre outros sintomas.
Outros sintomas são mudança de atitude – a atitude do sujeito mudou para uma mentalidade predominantemente negativa; e concentração – pode ter dificuldade para se concentrar, seja em conversas com outras pessoas, na escola, ao fazer a lição de casa ou em outras atividades, e muitas vezes pode estar se frustrando facilmente com situações ou coisas que antes não o incomodavam.
Na escola e no social acontecem queda no rendimento, desinteresse pelos estudos, dificuldade de concentração, desmotivação para ir até o prédio da escola, isolamento, perda de interesse em atividades prazerosas, alterações no apetite e distúrbios do sono.
Embora as atividades extracurriculares sejam importantes para o desenvolvimento integral da criança, o excesso e a falta de equilíbrio podem ter efeito contrário. O problema não é o de levar a criança a atividades extras, mas sim a falta do descanso (ócio) necessário.
A mentalidade de crescimento (growth mindset) é um conceito desenvolvido pela psicóloga Carol Dweck que descreve a crença de que habilidades, inteligência e competências podem ser desenvolvidas ao longo do tempo por meio de esforço, aprendizagem, prática e persistência. No entanto, deve ser equilibrada com o prazer e atividades lúdicas (brincadeiras), evitando o esgotamento mental e a exaustão emocional. O burnout infantil, nesse sentido, pode ser compreendido não apenas como excesso de tarefas, mas como exaustão subjetiva diante da impossibilidade de falhar.
Mentalidade de crescimento não significa exigir mais da criança (“você consegue, então tente mais”). Se mal utilizada, ela pode virar mais uma forma de pressão. A saída, propõe Dweck, seria ensinar que dificuldades fazem parte do aprender, preservando espaço para erro, tempo psíquico e uma relação menos persecutória com o desempenho.
A rotina sobrecarregada pode ainda prejudicar o vínculo familiar, já que muitas vezes pais e filhos mal conseguem compartilhar momentos de escuta, afeto e convivência verdadeira. Por vezes, vamos encontrar cuidadores também afetados por excesso de estresse ou mesmo um quadro expressivo de burnout. Nossa atenção deve dobrar, pois esse comportamento psicológico pode evoluir para quadros semelhantes à depressão ou abuso de substâncias na adolescência.
Honoré, em A Criança Sob Pressão, observa que a infância vem tendo um excesso de cobrança da produtividade, do desempenho e da competição. Crianças passam a viver com rotinas que não permitem o tempo da brincadeira, do ócio, do descanso. O autor coloca que a sociedade muitas vezes transforma crianças em projetos de investimento para um futuro competitivo, no qual acontece essa exaustão emocional que Dweck apresenta em seus estudos.
Sob uma perspectiva psicanalítica, Honoré traz o psicanalista Donald Winnicott ao colocar que a falta do espaço para brincar e experimentar a si mesma são fatores para o esgotamento emocional e a ansiedade intensa, compreendidos como burnout infantil. Sem o brincar, a criança não aprende a conviver no mundo real, no social, no ambiente escolar e familiar. Winnicott coloca que “o brincar conduz aos relacionamentos grupais”, ensina sobre o superego, a interagir e relacionar.
Na sociedade contemporânea, a válvula de escape apresentada são as telas. No mundo digital, as crianças fogem dessas cobranças, se distraem, porém, são falsas soluções. O digital provoca determinados comportamentos como o imediatismo, o consumismo (de informações e jogos), e a competitividade é reforçada. O que estes estudos de Dweck e Honoré mostram é que a compulsividade que as telas provocam acaba por intensificar as causas de burnout; e o que o digital faz é substituir o mundo real, as angústias e cobranças excessivas do real pelas angústias e cobranças do mundo virtual.
Burnout digital: o esgotamento mediado pelas telas
Se a sobrecarga acadêmica já é um fator de risco, a hiperexposição digital adiciona uma camada ainda mais complexa ao sofrimento infantil. Celulares, tablets, videogames e redes sociais passaram a ocupar um espaço crescente no cotidiano das crianças, muitas vezes substituindo o convívio familiar, as brincadeiras presenciais e o contato espontâneo com outras crianças.
O uso excessivo de telas favorece estados contínuos de hiperestimulação. A criança passa a viver entre recompensas imediatas, excesso de informação e comparações sociais constantes. Em consequência, atividades cotidianas mais lentas — estudar, esperar e brincar sem estímulos digitais — tornam-se emocionalmente menos toleráveis. Além disso, a exposição precoce às redes pode intensificar sentimentos de inadequação, ansiedade e dependência emocional da aprovação externa.
Do ponto de vista neuropsicológico, situações prolongadas de estresse, associadas ao excesso digital, podem impactar sistemas cerebrais relacionados à memória, à regulação emocional e à capacidade atencional. Em uma fase do desenvolvimento em que o cérebro ainda está em intensa maturação, especialmente o córtex pré-frontal, o excesso de estímulos pode dificultar a construção gradual do equilíbrio entre emoção, impulso e pensamento reflexivo.
Isso não significa demonizar a tecnologia, mas compreender que o excesso de exposição digital, sem mediação afetiva, limites e pausas para experiências humanas concretas, pode contribuir para um estado de sobrecarga emocional compatível com o burnout precoce.
Diante deste cenário, talvez a questão central não seja apenas quanto tempo a criança permanece diante das telas, mas o que está sendo perdido enquanto ela permanece conectada. Quando o brincar espontâneo, o convívio afetivo, a contemplação, o tédio criativo e os espaços de escuta vão sendo substituídos por estímulos constantes e exigências de desempenho, a infância corre o risco de transformar-se em um território de esgotamento precoce.
O burnout digital não surge apenas como efeito do excesso tecnológico, mas como sintoma de uma cultura que, progressivamente, reduz o tempo emocional necessário para que a criança possa simplesmente existir, brincar, imaginar e se desenvolver psiquicamente.
E o bullying?
Bullying é uma palavra de origem inglesa que designa atos de agressão e de intimidação repetitivos contra um indivíduo que não é aceito por um grupo, ou quando algum colega inicia uma dinâmica de calúnias ou injúrias sem um fundamento lógico. As vítimas de bullying podem sofrer agressões verbal, física e psicológica de uma pessoa isolada ou de um grupo. O bullying escolar é o tipo mais comum.
As consequências do bullying vão desde o isolamento social da vítima ao suicídio (muito frequente em países ocidentais). O alvo usual do bullying é o tipo de pessoa que não se enquadra nos padrões sociais tidos como normais, por questões físicas (como crianças em processo de inclusão por diagnósticos variados), psicológicas ou comportamentais (incluindo diferenças monetárias, que aparecem nos objetos que são levados para a escola, qualidade de vida financeira, pertencimento a um clube de valor social elevado ou mesmo a marca ou modelo do carro dos pais).
As agressões podem ser de ordem verbal, física e psicológica, comumente acontecendo as três ao mesmo tempo. As vítimas são intimidadas, expostas e ridicularizadas. São chamadas por apelidos vexatórios e sofrem variados quadros de agressão com base em suas características físicas, seus hábitos, sua sexualidade e sua maneira de ser. Esse grupo pode atuar apenas como “espectadores inertes” da violência, que indiretamente contribuem para a continuidade da agressão.
Os abusos perpetrados por outros no corpo da criança, como abusos físicos, sexuais, de isolamento ou abusos morais (como o bullying, por exemplo), trazem, como consequências muitas vezes irreversíveis, a perda da autoestima e a insensibilidade (perda da empatia e a não formação da compaixão) e o aumento da agressividade hetero e autodirigidas.
Normalmente, chamamos de bullying o comportamento agressivo sistemático cometido por crianças e adolescentes. Quando um comportamento parecido acontece entre adultos, geralmente no ambiente de trabalho, classificamos o ato como assédio moral.
As discussões sobre o bullying são relativamente recentes, chamando a profunda atenção dos especialistas em comportamento humano apenas nas últimas duas décadas. Até a década de 1970, não se falava sobre bullying. O comportamento agressivo e a perseguição sistemática de algumas crianças contra outras era visto como um traço comportamental natural. Comumente, o bullying é uma prática injusta, visto que os agressores ou agem em grupo (ou com o apoio do grupo) ou contra indivíduos que não conseguem se defender das agressões.
Apesar de considerarmos o sofrimento da vítima, também devemos tentar entender o comportamento dos agressores. Muitas vezes, são jovens que passam por problemas psicológicos ou que sofrem agressões no ambiente familiar e na própria escola, e tentam transferir os seus traumas por meio da agressividade contra os outros. Outras vezes, com frequência, trata-se de crianças ou jovens com um traço de personalidade perverso (personalidade psicopática), com histórias anteriores de agressão a irmãos, animais ou outras crianças.
O bullying pode acontecer no condomínio, na vizinhança, em grupos ou agremiações esportivas etc. Porém, é na escola onde os jovens passam grande parte de seu tempo e interagem com um número maior de pessoas. Também é na escola o lugar em que os reflexos da sociedade fazem com que se crie uma espécie de micro-organismo social, que tende a recriar a sociedade em um espaço menor e isolado. A sociedade em geral é agressiva e excludente, e esses fatores tendem a se repetir entre os jovens no âmbito escolar.
Na escola, os cruéis padrões de beleza e comportamento ditados pela sociedade aparecem como normas. Em geral, um grupo dominante reafirma e dita esses padrões dentro do âmbito escolar, fazendo com que se estabeleça uma regra (a normalidade) e tudo aquilo que fuja dessa regra seja considerado como inferior e digno de sofrimento e exclusão. O grau de popularidade dos que se consideram superiores e a sua maior aceitação pelo grupo fazem com que eles se sintam no direito de tratar mal aqueles que não são populares e não se enquadram no padrão do grupo.
O bullying provoca o isolamento social da vítima. As consequências podem ser devastadoras e irreversíveis para a vítima. A partir do isolamento social, pode haver uma queda no rendimento escolar, na autoestima, quadros de depressão, transtorno de ansiedade, síndrome do pânico e outros distúrbios psíquicos. Quando não tratados, esses quadros podem levar o jovem a tentar o suicídio.
Se os traumas do bullying não forem tratados, a vítima pode guardar aquele sofrimento em seu subconsciente, que virá a se manifestar diversas vezes em sua vida adulta, dificultando as relações pessoais, a vida em sociedade, afetando a sua carreira profissional e até levando ao desenvolvimento de vícios em drogas e álcool.
Enfim, deixar a criança brincar e existir
Talvez um dos maiores desafios contemporâneos seja devolver à infância o direito de ser infância. Isso implica rever modelos educacionais excessivamente competitivos, reduzir a pressão por desempenho precoce, limitar a hiperexposição digital e recuperar espaços de convivência humana.
A criança não deve viver como um adulto em miniatura, permanentemente treinada para performar. O desenvolvimento saudável exige pausas, falhas, brincadeiras, descanso e experiências emocionais suficientemente boas. Uma infância excessivamente estimulada pode tornar-se uma infância emocionalmente exausta. Mais do que preparar crianças para o futuro, talvez seja necessário garantir que elas possam viver plenamente o presente.
Ivan Capelatto (CRP-SP 162), psicoterapeuta
Matéria publicada na edição 756 (Mai/ Jun de 2026) da Revista da APM