A recente Medida Provisória do Governo Federal sobre a avaliação dos egressos dos cursos de Medicina reacendeu um debate que está longe de ser apenas técnico.
A iniciativa representa uma tentativa de esvaziar a proposta de exame de proficiência defendida há anos pelas entidades médicas, cujo objetivo é estabelecer um padrão nacional mínimo de qualidade para o exercício profissional, nos moldes de uma “OAB da Medicina”.
O ENAMED foi idealizado para avaliar as escolas médicas e serviu bem a esse propósito. Porém, não foi concebido para avaliar o formando, pois um simples exame com testes de múltipla escolha seguramente não faz uma avaliação adequada do médico recém-formado. O próprio Revalida, para médicos formados em outros países poderem exercer a Medicina no Brasil, contempla uma etapa prática.
O risco de treinar para prova, e não para cuidar de pessoas
Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma expansão acelerada dos cursos de Medicina, muitas vezes sem a estrutura adequada para garantir ensino de excelência.
Há relatos preocupantes de escolas com baixos indicadores de qualidade que já estariam substituindo parte do internato – etapa essencialmente prática da formação médica – por cursos preparatórios voltados exclusivamente para melhorar o desempenho dos estudantes em provas teóricas, como o ENAMED.
Trata-se de uma distorção grave: formar candidatos para exames, e não médicos preparados para cuidar de pessoas.
O fato de entidades médicas participarem da comissão que discutirá o tema é um sinal positivo. Ainda assim, será necessária vigilância permanente para que a avaliação dos futuros médicos seja guiada pela qualidade do ensino e pela segurança dos pacientes, e não por interesses políticos ou circunstanciais.
Dr. Antonio José Gonçalves – CRM-SP 25.374 | RQE-SP 18.049 e 19.162
Fonte: Brazil Health – confira aqui