Enamed: a política não pode substituir a competência médica
Será necessária vigilância permanente para que a avaliação dos futuros médicos seja guiada pela qualidade do ensino e pela segurança dos pacientes, e não por interesses políticos ou circunstanciais
A recente Medida Provisória do Governo Federal sobre a avaliação dos egressos dos cursos de Medicina reacendeu um debate que está longe de ser apenas técnico.
A iniciativa representa uma tentativa de esvaziar a proposta de exame de proficiência defendida há anos pelas entidades médicas, cujo objetivo é estabelecer um padrão nacional mínimo de qualidade para o exercício profissional, tipo “OAB de Medicina”.
O Enamed foi idealizado para avaliar as escolas médicas e serviu bem para este propósito. Porém não foi concebido para avaliar o formando pois um simples exame com testes de múltipla escolha seguramente não faz uma avaliação adequada do médico recém-formado. O próprio exame de Revalida para médicos formados em outros países poderem exercer a medicina no nosso país, contempla um exame prático.
Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma expansão acelerada dos cursos de Medicina, muitas vezes sem a estrutura adequada para garantir ensino de excelência.
Há relatos preocupantes de escolas com baixos indicadores de qualidade que já estariam substituindo parte do internato — etapa essencialmente prática da formação médica — por cursos preparatórios voltados exclusivamente para melhorar o desempenho dos estudantes em provas teóricas, como o Enamed.
Trata-se de uma distorção grave: formar candidatos para exames, e não médicos preparados para cuidar de pessoas.
O fato de entidades médicas participarem da comissão que discutirá o tema é um sinal positivo. Ainda assim, será necessária vigilância permanente para que a avaliação dos futuros médicos seja guiada pela qualidade do ensino e pela segurança dos pacientes, e não por interesses políticos ou circunstanciais.
Por Antonio José Gonçalves
Fonte: Estadão – confira aqui