Fibromialgia de Elisa em ‘Quem Ama’: por que o diagnóstico costuma demorar e os tratamentos mais indicados, segundo nova diretriz

Personagem da novela das 21h joga luz sobre doença marcada por dor crônica, fadiga e dificuldade de diagnóstico; especialistas afirmam que informação, exercícios físicos e acompanhamento multidisciplinar são pilares do tratamento

O que diz a mídia

A trajetória da personagem Elisa (Isabela Garcia) na novela Quem Ama Cuida retrata uma realidade vivida por muitas pessoas com fibromialgia: anos de dores intensas, cansaço constante e consultas médicas, até que o diagnóstico finalmente seja confirmado. A personagem, que vive a mãe da protagonista Adriana (Letícia Colin), deve começar a ver o quadro melhorar nos próximos capítulos, após o diagnóstico da doença.

Segundo especialistas da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR), essa demora é comum porque a fibromialgia não possui exame laboratorial, marcador biológico ou exame de imagem capaz de confirmar a doença. O diagnóstico é clínico, baseado na história do paciente e na avaliação dos sintomas.

A condição afeta cerca de 2% a 3% da população brasileira, o que representa aproximadamente 7 milhões de pessoas, segundo a SBR.

A discussão sobre a condição ganha ainda mais relevância com a publicação das novas Diretrizes Brasileiras para o Tratamento da Fibromialgia, que atualizam recomendações publicadas em 2010 e reforçam uma mudança importante no cuidado: os tratamentos não farmacológicos passam a ocupar posição central no controle da doença.

Por que a fibromialgia demora para ser diagnosticada?

De acordo com o reumatologista José Eduardo Martinez, presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia, uma das principais dificuldades é que os sintomas são subjetivos e dependem do relato do paciente.

Além disso, não existe um exame que confirme ou descarte a doença. Como os sintomas podem se confundir com outras condições, muitas pessoas passam por uma investigação extensa antes de receberem o diagnóstico correto.

Segundo o especialista, o diagnóstico é feito a partir da identificação de sintomas compatíveis e da exclusão de outras doenças que possam explicar o quadro clínico.

Quais são os principais sintomas?

A dor generalizada é considerada a principal característica da fibromialgia. Diferentemente de dores provocadas por lesões ou inflamações, o problema está na forma como o organismo percebe a dor.

Além dela, são frequentes:

  • fadiga persistente;
  • sono não reparador;
  • alterações cognitivas, como dificuldade de concentração;
  • sensação de formigamento nas mãos e nos pés;
  • ansiedade e depressão associadas.

A doença provoca impacto importante na qualidade de vida e pode comprometer atividades do dia a dia, especialmente quando coexistem ansiedade, depressão ou outras doenças reumatológicas.

O que pode desencadear uma crise?

Segundo Martinez, o principal desencadeador das crises é o estresse emocional.

Outras situações, como infecções virais e alterações de temperatura, também podem favorecer o agravamento dos sintomas, mas o componente emocional é apontado como o fator mais importante.

Internação é comum?

Apesar de a personagem da novela enfrentar uma internação, especialistas ressaltam que isso é raro. O reumatologista Eduardo dos Santos Paiva afirma que a hospitalização pode ocorrer, mas não costuma trazer benefícios para a maioria dos pacientes com fibromialgia.

Segundo ele, o objetivo é que a pessoa aprenda estratégias de automanejo das crises juntamente com sua equipe médica, reduzindo a necessidade de procurar serviços de urgência.

Paiva acrescenta que muitos profissionais de pronto-socorro não estão familiarizados com o manejo da fibromialgia, o que reforça a importância da educação do paciente e do acompanhamento contínuo.

Novas diretrizes reforçam papel do tratamento sem medicamentos

As novas diretrizes da Sociedade Brasileira de Reumatologia destacam que o tratamento deve ser interdisciplinar e centrado no paciente.

Entre as estratégias com maior nível de evidência científica estão:

  • educação do paciente e da família;
  • exercícios físicos, especialmente a combinação de atividade aeróbica e fortalecimento muscular;
  • terapias psicológicas, como Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT);
  • acupuntura;
  • técnicas de neuromodulação para controle da dor;
  • práticas complementares, como Tai Chi Chuan e exergames, como apoio ao tratamento convencional.

As diretrizes também ressaltam que equipes formadas por médicos, fisioterapeutas, psicólogos, educadores físicos, nutricionistas e outros profissionais conseguem melhores resultados na qualidade de vida dos pacientes do que o cuidado exclusivamente médico.

E quando os medicamentos são necessários?

Segundo o documento, os medicamentos têm como objetivo aliviar sintomas e melhorar a funcionalidade, mas não controlam sozinhos toda a doença.

Entre os fármacos com melhor evidência científica estão:

  • a amitriptilina, especialmente para dor e distúrbios do sono;
  • a duloxetina, para controle da dor;
  • e a pregabalina, que apresenta benefícios na dor, no sono e na qualidade de vida.

As diretrizes não recomendam o uso rotineiro de opioides, anti-inflamatórios, canabinoides, benzodiazepínicos e terapias intravenosas devido à falta de eficácia comprovada e ao risco de efeitos adversos.

Martinez ressalta ainda que o tratamento deve ser individualizado, considerando tanto os sintomas quanto possíveis doenças associadas antes da definição do plano terapêutico.

“Nas doenças crônicas, a gente não fala em cura. A gente fala em controle e a gente busca o que a gente chama de remissão, o que realmente é mais difícil na fibromialgia. O que a gente procura é melhorar a qualidade de vida e a capacidade funcional”, acrescenta o médico.

Informação pode reduzir preconceito e favorecer o diagnóstico

Para Eduardo dos Santos Paiva, a representação da fibromialgia em uma obra de ficção pode contribuir para aumentar a conscientização da população e favorecer o diagnóstico precoce.

Ele destaca que é importante mostrar que o tratamento vai além dos medicamentos e inclui educação em saúde, atividade física e terapia cognitivo-comportamental.

Martinez também reforça que muitos pacientes enfrentam preconceito porque a dor não é visível e não existe um exame que comprove a doença. Segundo ele, quando os sintomas não são reconhecidos, o sofrimento emocional pode aumentar e agravar ainda mais o quadro clínico.

Apesar dos desafios, o presidente da SBR afirma que a maior parte dos pacientes consegue ter boa qualidade de vida quando segue o tratamento de forma adequada, especialmente com adesão às medidas não farmacológicas e à prática regular de exercícios físicos.

Fonte: G1 – acesse aqui