A Academia de Medicina de São Paulo realizou, na última quarta-feira (12), mais uma edição da sua tradicional tertúlia. O evento acontece mensalmente de maneira híbrida, na sede da Associação Paulista de Medicina. Neste mês, o convidado foi o infectologista David Everson Uip, que ministrou a palestra “Infectologia: Passado, presente e futuro”.
Hélio Begliomini, presidente da AMSP, saudou todos os presentes e fez a apresentação do palestrante. Formado pela Faculdade de Medicina do ABC, Uip ingressou em 1973 na residência médica em moléstias infecciosas e parasitárias no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC/FMUSP). Na mesma instituição, concluiu o mestrado em 1989, com a dissertação intitulada “Diagnóstico Precoce da Leptospirose por Biópsia do Músculo da Panturrilha”.
Em 1982, ingressou como médico-voluntário do Instituto do Coração (Incor) do HC/FMUSP onde, inicialmente, desenvolveu protocolos de controle de infecção hospitalar em pacientes submetidos a cirurgias cardíacas. O infectologista também foi um dos principais porta-vozes do enfrentamento da epidemia de Aids no Brasil e no exterior, tendo sido responsável pela elaboração de protocolos de atendimento a pacientes com HIV e de prevenção para médicos, dentistas e outros profissionais de Saúde no País.
Em São Paulo, fundou e dirigiu por oito anos a Casa de Aids do HC/FMUSP. Entre os anos de 2009 e 2013, dirigiu o Instituto de Infectologia Emílio Ribas, maior centro de tratamento de doenças infecciosas da América Latina. Na época, o médico foi porta-voz do enfrentamento da pandemia de Influenza H1N1. Em setembro de 2013, assumiu o cargo de secretário de Estado da Saúde de São Paulo, função que exerceu até abril de 2018.
Entre 2020 e 2022, coordenou e integrou o Centro de Contingência contra a Covid-19 do Governo de São Paulo. Atualmente, além de reitor e professor Titular de Infectologia do Centro Universitário FMABC, o médico atua como diretor nacional de Infectologia da Rede D’Or e como professor convidado do Grupo Educacional CEUMA.
Histórico das epidemias
David Uip iniciou sua apresentação falando sobre as epidemias que aconteceram em Atenas entre 430 e 426 a.C. Naquela época, as hipóteses eram de febre tifoide, tifo, varíola, sarampo e peste bubônica, com mortes de aproximadamente 25% da população de Atenas. Já no século XXI, estudos em ossadas e análises genéticas sugerem que a febre tifoide foi a causa provável da peste em Atenas. Essa epidemia trouxe consequências sociais e políticas, como pânico,
corpos abandonados nas ruas, explicações sobrenaturais, desorganização política e a derrota do governo. Essa é considerada uma das maiores epidemias da Antiguidade.
A Peste Negra, uma das maiores catástrofes da história da humanidade (1347–1353), causada pela bactéria Yersinia pestis, foi uma pandemia devastadora, provocando a morte de aproximadamente 1/3 da população europeia, com estimativa de 50 milhões de mortos. Já a gripe espanhola (1918–1920) foi uma epidemia global causada pelo vírus Influenza A H1N1. A estimativa de mortos ficou entre 20 e 50 milhões. Já no Brasil, cerca de 35 mil mortes foram confirmadas.
Sobre a Meningite Meningocócica, em 1975, o médico conta que o surto aconteceu quando ele já era aluno de Medicina. Ele relata que, na época, as aulas foram suspensas e muitos hospitais ficaram lotados. Neste momento, criaram o Programa Nacional de Imunizações (PNI). Com isso, a cidade de São Paulo vacinou, em quatro dias, 11 milhões de pessoas. “Foi algo absolutamente espetacular. O pessoal se vacinava sem questionar a origem da vacina”, completa.
A respeito da Aids, que começa em 1981, o primeiro caso autóctone no Brasil (1983) saiu do consultório em que Uip era assistente. Luc Montagnier identificou o LAV (vírus associado à linfadenopatia); já Robert Gallo descreveu o HTLV-III (vírus linfotrópico de células T humanas tipo III). Em 1986, o Comitê Internacional de Taxonomia de Vírus oficializou o nome HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana). O medicamento AZT surgiu em 1988 e, naquele momento, presumiam que a vacina contra o HIV estaria disponível em meses. “Estamos em 2026 e não temos a vacina contra o HIV”, destaca o médico.
De acordo com dados da UNAIDS de junho de 2026, atualmente, aproximadamente 40 milhões de pessoas vivem com HIV; 1 milhão de novas infecções por HIV ocorreram em 2026; 570 mil mortes relacionadas; 30,8 milhões de pessoas em tratamento; e 9,2 milhões de pessoas sem acesso ao tratamento. Houve uma redução de 63% nos novos casos desde 1996 e de 71% nas mortes desde 2024.
O médico explica que, quando você negativa o vírus no sangue e nas secreções, corta-se a transmissão. Segundo Uip, hoje acabou a transmissão materno-fetal. Para o futuro global, projetam-se 6 milhões de novos casos de HIV até 2029, principalmente em países como Estônia, Letônia, Espanha, Portugal, Argentina e Brasil. “A meta era acabar com o HIV em 2030, mas isso não vai acontecer. De qualquer forma, o grande objetivo é que tenhamos pessoas diagnosticadas, com carga viral indetectável e tratadas”, comenta.
No período em que foi secretário de Saúde, enfrentou ativamente as epidemias de Dengue e de Febre Amarela. “A dengue é uma doença muito antiga, mas que voltou a aparecer de uma forma muito intensa nos últimos anos. Nós enfrentamos a febre amarela de uma forma muito diferente. Naquele momento, os casos iam surgindo, os macacos eram responsabilizados e mortos e o mundo tinha 70 milhões de doses da vacina da febre amarela. O Brasil tinha 30 milhões de doses para vacinar 100 milhões de pessoas. Então, fizemos algo inusitado, que foi o fracionamento da vacina em dízimos de cinco”, explicou.
Em janeiro de 2020, a OMS declarou que havia perigo iminente de uma pandemia de Covid-19. Em fevereiro, foi confirmado o primeiro caso no País, em São Paulo. Menos de um mês depois, o Brasil declarou transmissão comunitária da Covid-19. Nos dois primeiros anos de pandemia, Uip integrou o Centro de Contingência contra a Covid-19 em São Paulo. Ele conta que viu países ruírem, mas o estado conseguiu dar conta.
O médico relata que, quando começou a pandemia, o estado de São Paulo tinha 3.500 leitos de UTI adultos e, depois do aumento do número de casos, esse total subiu para 14 mil. “O Brasil estava pronto para iniciar o processo de vacinação em outubro de 2020, mas só foi vacinar em 2021. Essa demora custou 200 mil mortes”, destaca.
No retrospecto, em setembro de 2021, 174 milhões de pessoas já haviam sido vacinadas. De acordo com dados da OMS de junho de 2026, a positividade global é de 1,7%, com 14 mil novos casos notificados em 57 países e 100 novas mortes notificadas.
Presente e Futuro
Para o especialista, a Infectologia caminha para ser cada vez mais preventiva, preditiva e personalizada, apoiada pelo avanço tecnológico e da Ciência. Ele conta que os desafios atuais são a detecção preventiva de doenças e identificar rapidamente novas doenças infecciosas para agir antes que se tornem crises.
Além da resistência antimicrobiana, que é uma ameaça crescente que compromete o tratamento de infecções e a segurança dos pacientes em todo o mundo. Estima-se que, até 2050, a resistência antimicrobiana possa causar mais mortes do que o câncer e as doenças cardiovasculares, com até 10 milhões de mortes por ano.
Sobre o movimento antivacina, Uip diz que é uma das maiores barbaridades que já viu na vida. Para ele, essas campanhas antivacina, muito bem orquestradas, são um desastre. “Quando você discute vacina, você não está discutindo um bem pessoal, você está discutindo um bem social”, completa.
Por fim, para o médico, o futuro da Infectologia é colaborativo, tecnológico e centrado na prevenção, para construir um mundo mais saudável, resiliente e sustentável.





Texto e fotos: Maria Lima (sob supervisão de Giovanna Rodrigues)