Na última quinta-feira (27), o vice-presidente da Associação Paulista de Medicina – Piracicaba, Alex Gonçalves, participou do Jornal da Manhã da rádio Jovem Pan News Piracicaba para falar sobre Cadeia Produtiva Local da Saúde, inovação, inteligência artificial e muito mais.
Ele iniciou sua participação dizendo que hoje existe um ecossistema robusto que foi mapeado pela CPL — reconhecida pelo estado de São Paulo — para que a Saúde seja, de fato, uma vocação do município para a inovação. “Hoje, Piracicaba é reconhecida pela inovação no agro e, para que seja conhecida de fato como um polo de inovação geral, as outras áreas também têm que começar a inovar. Nós começamos com alguns projetos ligados à Saúde, trouxemos para Piracicaba a Associação Brasileira de Startups em Saúde (ABSS) e, além disso, temos muitos projetos para que a cidade passe a ser reconhecida também na área da Saúde”, explicou.
O médico destacou que hoje existe um problema muito grande, que é a falta de especialistas no Sistema Único de Saúde (SUS), e afirmou acreditar que a tecnologia pode ser uma ferramenta importante para amenizar essa escassez. “Nós podemos avaliar as solicitações dos médicos da atenção primária, qualificando e organizando a demanda para que os pacientes que mais necessitam cheguem primeiro aos especialistas. Hoje você tem uma fila criada basicamente por ordem de solicitação, sem ser qualificada. Acreditamos que a tecnologia pode auxiliar nesse processo.”
Ao ser questionado sobre o corredor da Saúde que está se formando com a ajuda do estado, o nefrologista contou que hoje existem cinco CPLs da Saúde reconhecidas (São José dos Campos, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Barretos e Piracicaba). Por ser um setor específico, a demanda foi levada à Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, com a ideia de conectar esse corredor também à Secretaria de Inovação e à Secretaria Estadual de Saúde. “Temos esses projetos para realmente conseguir que o ecossistema dessas cidades fique disponível para todos os participantes dessa coalizão”, completou.
Sobre a quantidade de dados produzidos pela Medicina, o presidente eleito foi questionado se Piracicaba está preparada para transformar essas informações em conhecimento e em decisões melhores. Ele respondeu que, hoje, ninguém está totalmente preparado para isso. “Temos políticas públicas de Saúde digital do Ministério da Saúde que tentam organizar os dados, e temos o Registro Nacional de Dados de Saúde (RNDS), que visa fazer uma compilação de tudo isso. A Saúde suplementar também está entrando nesses registros, então estamos
caminhando para essa integração. Contudo, os dados ainda são muito fragmentados, o que acontece na atenção primária não é acessível para quem está em uma UPA, na atenção secundária e, nos hospitais, menos ainda. Temos sistemas fragmentados e de difícil integração; a interoperabilidade hoje é um dos grandes gargalos dos dados em Saúde”, relatou.
O perigo da Inteligência Artificial nos consultórios
Para o médico, o maior perigo é exacerbar iniquidades e escalar erros. “Quando você tem um sistema operado por pessoas e uma erra, erra pontualmente. Quando um sistema de informação erra, pode escalar o erro para toda a rede. Esse é o principal desafio: ter sistemas com governança, transparência e que sejam rastreáveis, principalmente na tomada de decisão via inteligência artificial. Essa tomada de decisão nunca pode ser autônoma, sempre tem que ser validada por um humano. Por isso, nos nossos projetos de IA na Saúde, sempre mantemos a validação final por um profissional da área, como determinam as normas do CFM e todas as discussões mundiais a respeito disso.”
O médico completou dizendo que, em sua visão, quanto mais informação o paciente tiver, melhor. “Quando dizemos que o paciente tem que estar no centro do cuidado, se ele chegar a um nível de informação em que possa questionar o médico com mais propriedade, achamos isso muito benéfico para o tratamento.”
Quanto ao uso da inteligência artificial pelos médicos, o especialista reforçou que ela deve ser como ferramenta de apoio, e não como substituta da decisão clínica. “Hoje existem muitas ferramentas disponíveis e elas têm que ser bem selecionadas para a prática médica.”
CPL da Saúde e Inovação
Analisando a dinâmica econômica de Piracicaba, Alex Gonçalves reforça a necessidade de gerar empregos de alta qualificação e remuneração, alinhados à vocação do município. Nesse cenário, a geriatria e a longevidade despontam como campos promissores de atuação. Ele explica que o município abriga a primeira cidade geriátrica do país (o Lar dos Velhinhos), e que conta com dois novos empreendimentos em andamento voltados para a terceira idade.
Para o médico, a cidade precisa estar acessível a essa população, oferecendo assistência adequada para garantir longevidade com qualidade de vida, o que consolida o setor como uma área potencial de negócios, geração de empregos de alto valor e melhoria do bem-estar social, seja no SUS ou na Saúde suplementar.
O especialista acrescentou que, pautando-se por valores de humanização e equidade, é possível impulsionar esses negócios e inseri-los no conceito de cidades inteligentes, avançando em ambas as frentes de forma simultânea. Segundo ele, o ecossistema de startups e empreendedorismo precisa ter sustentabilidade financeira e social, estando diretamente atrelado aos pilares de ESG.
Por fim, o presidente eleito da APM Piracicaba ressaltou que, na condição de entidade gestora, o grande desafio atual é estruturar a governança com o envolvimento de diferentes elos da cadeia produtiva. Uma vez consolidada essa governança, o objetivo principal passa a ser a geração efetiva de negócios dentro da CPL da Saúde.



Fotos: Divulgação/Reprodução Jovem Pan News