Estadão: Artigo de diretor da APM alerta para os perigos de avaliar a Medicina por prova única

Para Fernando Tallo, um teste escrito não avalia adequadamente questões como o exame físico, comunicação médico-paciente, profissionalismo, tomada de decisão em ambiente real, habilidades procedimentais ou desempenho clínico supervisionado

APM na imprensa

Competência médica não cabe numa prova

A questão é defender uma avaliação que realmente meça aquilo que importa: a competência médica

O Brasil está diante de uma das mais profundas transformações na regulação da educação médica de sua história – e talvez de uma das menos debatidas. A proposta atual atribui a uma única prova cognitiva, essencialmente declaratória, múltiplas funções simultâneas: avaliar estudantes, influenciar processos seletivos, produzir consequências regulatórias para escolas médicas e servir como elemento central da política nacional de formação médica. O problema não é a existência de uma avaliação nacional.

Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Alemanha e Austrália possuem avaliações nacionais ou mecanismos de aferição de competências. O problema é outro: nesses sistemas, a avaliação do conhecimento não é confundida com a avaliação global da competência médica, nem substitui processos complexos de acreditação institucional.

Uma prova escrita mede conhecimento. Ela não avalia adequadamente exame físico, comunicação médico-paciente, profissionalismo, tomada de decisão em ambiente real, trabalho em equipe, habilidades procedimentais ou desempenho clínico supervisionado.

A literatura internacional em educação médica é clara ao reconhecer que a competência profissional é um construto multidimensional. Reduzi-la a uma prova cognitiva significa reduzir a própria Medicina a um exercício de memorização e reconhecimento de alternativas.

Mas existe uma questão ainda mais profunda. A sociedade brasileira tem razões legítimas para se preocupar com a qualidade da formação médica. A expansão acelerada e, frequentemente, desordenada dos cursos de Medicina, a insuficiência de cenários de prática, a heterogeneidade da formação clínica e as fragilidades dos mecanismos de supervisão são problemas reais e amplamente reconhecidos.

O que se discute é se uma prova cognitiva nacional constitui uma resposta adequada a esses desafios. Há o risco de que se esteja oferecendo à sociedade uma solução aparentemente simples para um problema estrutural extremamente complexo. Em vez de enfrentar as causas profundas das fragilidades da educação médica brasileira, transfere-se o debate para o desempenho dos estudantes numa única avaliação.

Mais preocupante ainda é a arquitetura regulatória proposta. O mesmo sistema estatal responsável por autorizar, reconhecer, supervisionar e fiscalizar escolas médicas passa a produzir o exame que será utilizado para julgar os resultados desse próprio sistema. Em outras palavras, o regulador passa a avaliar a eficácia da regulação que ele mesmo construiu. Trata-se de um evidente problema de governança institucional. Não há separação clara entre quem regula, quem avalia e quem sofre as consequências da avaliação.

Ao concentrar a atenção em uma prova nacional, corre-se o risco de deslocar o foco do verdadeiro debate: a necessidade de uma reforma profunda, moderna e baseada em evidências da regulação da educação médica brasileira. A pergunta fundamental permanece sem resposta: como chegamos até aqui?

Quem permitiu milhares de vagas e centenas de cursos sem a correspondente ampliação dos cenários de prática e formação clínica. Quem reconheceu cursos com estruturas insuficientes? Quem supervisionou instituições que apresentavam fragilidades conhecidas? Quem deveria garantir a qualidade do sistema antes da chegada dos estudantes ao último ano da graduação? Uma avaliação aplicada ao final do curso pode medir parte dos resultados do sistema. Ela não substitui a responsabilidade de construir um sistema regulatório capaz de prevenir problemas de qualidade desde a sua origem. O risco é transformar a educação médica brasileira numa gigantesca indústria de preparação para testes.

Faculdades pressionadas por indicadores regulatórios tendem a direcionar esforços para maximizar o desempenho em provas. Alunos passam a ser treinados para responder questões, e não necessariamente para examinar pacientes, comunicar más notícias, liderar equipes ou tomar decisões complexas à beira do leito. A consequência previsível é a substituição gradual da formação médica centrada em competências por uma cultura de treinamento para exames.

O Brasil precisava de uma reforma profunda da educação médica. Precisava fortalecer a acreditação independente, ampliar a avaliação prática, incorporar modelos estruturados de aferição de habilidades clínicas, valorizar o internato, aperfeiçoar a supervisão dos cenários de prática e construir mecanismos transparentes de governança regulatória. Precisava aproximar-se das melhores experiências internacionais, nas quais a qualidade da formação médica é protegida por sistemas robustos de acreditação, avaliação longitudinal, supervisão permanente e participação efetiva da comunidade profissional e acadêmica.

Tínhamos a oportunidade de promover uma verdadeira modernização da regulação da educação médica. Corremos o risco de substituir essa agenda por uma resposta regulatória simplificada, centrada em uma única prova, atribuindo-lhe responsabilidades que nenhum instrumento isolado é capaz de cumprir. A questão não é ser contra a avaliação. A questão é defender uma avaliação que realmente meça aquilo que importa: a competência médica.

E competência médica jamais caberá inteiramente em uma folha de respostas.

Fonte: Estadão – confira aqui