Portal Saúde Insider entrevistou o presidente da APM sobre a Demografia Médica

Para o Dr. Antonio José Gonçalves é preciso investimento em atenção primária, prevenção, diagnóstico precoce, acompanhamento contínuo dos pacientes e integração entre os diferentes níveis de atendimento. Também será necessário ampliar a formação de especialistas e fortalecer equipes multiprofissionais

APM na imprensa

São Paulo, com 200 mil médicos, terá 340 mil em 2035. Maioria de mulheres vai aumentar

O estado de São Paulo fechou o ano de 2025 com 197,3 mil médicos, crescimento de 67,2% em dez anos. E o ritmo não vai arrefecer: a projeção para 2035 é de 339,9 mil profissionais, alta de 72,3% em relação ao número atual. Os dados são do estudo Demografia Médica no Estado de São Paulo, resultado de parceria entre a FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), a APM (Associação Paulista de Medicina) e a Secretaria de Estado da Saúde. Há também maior presença de médicos em relação à população. Eram 2,67 a cada 1 mil habitantes (em 2015), passaram a 4,28 (2025) e devem chegar a 7,29 daqui a dez anos. E 40% dos habitantes são vinculados a planos de saúde, maior percentual do país.

Apesar dos números crescentes, há um mapa de desigualdade na cobertura. “O aumento é relevante na oferta de profissionais, porém desigualmente distribuídos nas regiões do estado”, informou o estudo, coordenado pelo professor Mário Scheffer, livre-docente do Departamento de Medicina Preventiva da FMUSP. “O estado tem um sistema de saúde intrincado, estratificado e desigual, sendo predominante a dupla prática público-privada dos médicos”, afirmou Scheffer. A proporção de médicos por 1 mil habitantes varia de 2,1 (Região Administrativa de Registro, cidade a 190 quilômetros da capital) a 5,1 (região de Ribeirão Preto, a 315 quilômetros da capital). É de 4,6 na Grande São Paulo, onde se concentra mais da metade (50,6%) dos profissionais.

Entre os municípios mais populosos, destacam-se cinco com mais de seis médicos por 1 mil habitantes: Santos (7,9), Ribeirão Preto (7,8), São José do Rio Preto (7,5), Campinas (6,7) e a capital paulista (6,2). Na sequência aparecem Jundiaí (5,4), São José dos Campos (4,6), Sorocaba (4,4) e Santo André (4,2). O estado tem 645 cidades e excetuando-se as 16 mais populosas (com mais de 400 mil habitantes), a proporção cai. São 629 municípios com média um pouco abaixo de 3,2 médicos a cada 1 mil habitantes – 26% menor que a média do estado. Os 564 municípios com menos de 100 mil habitantes concentram 23,6% da população e 11,6% dos médicos. 

De acordo com os organizadores da pesquisa, o crescimento contínuo do número de médicos se verifica desde os anos 1980. E ganhou impulso em São Paulo pela expansão dos cursos de medicina “e, possivelmente, à atratividade estadual exercida pelas oportunidades de trabalho médico e de formação especializada”. Desde 2015, o estado recebeu 40 novas escolas, quase dobrando o número, que atualmente é de 87. A oferta é de 10,4 mil vagas por ano.

Mulheres. Pelo segundo ano seguido, as mulheres são maioria entre profissionais da medicina no estado: de 50,1%  (2024) para 52,2% (2025). Em 15 anos, enquanto o número de médicos (94,2 mil) cresceu 51%, o de médicas (103 mil) aumentou 145%. Nesse intervalo, elas passaram de 40,3% para 52,2% do total. E a projeção é que cheguem a 66,6% daqui a dez anos: serão 226,4 mil médicas. De acordo com a pesquisa, a idade média dos médicos tem diminuído. No ano passado, 35,4% tinham até 35 anos, 38,7%, de 36 a 54 anos e 25,9%, 55 para cima. “Nota-se que, em 2025, as mulheres são maioria justamente nas faixas etárias mais jovens”, afirmaram os autores da pesquisa. “O que aproxima os dois fenômenos, da feminização e da juvenização da medicina.”

A média no ano passado era de 44,5 anos, ante 45,1 em 2010. Parece pouco, “mas em uma população que naturalmente envelhece a cada ano, a manutenção da média etária já indicaria forte renovação”. Os homens têm idade média de 47,3 e as mulheres, de 41,8 anos. Os generalistas (79,5 mil) – definidos como médicos sem título de especialista ou sem Residência Médica concluída – somam 40,3% do total. No ano 2000, representavam 23,3%. Os especialistas (117,7 mil) passaram de 76,7% para 59,7%. Os responsáveis pela pesquisa observam que a formação tem implicações para o “planejamento de políticas, o funcionamento de serviços e o atendimento às necessidades de saúde da população”. 

Entre as especialidades, a pesquisa destaca, entre outros, a Medicina de Família e Comunidade, que cresceu 821,1% desde 2011 (+3,3 mil), para um total de 3,7 mil profissionais. “O aumento, contudo, foi insuficiente para suprir a rede de atenção primária do SUS no estado de São Paulo.” Em termos relativos, “possivelmente devido às oportunidades no mercado de trabalho”, três especialidades cresceram mais: Medicina de Emergência (alta de 6.750% desde 2011), Medicina Legal e Perícia Médica (1.502%) e Angiologia (1.500%). A Cardiologia cresceu 2,5 vezes (+3,9 mil especialistas), atingindo 6,4 mil, e a Geriatria, 4,6 vezes (de 258 para 1,2 mil), “número ainda insuficiente diante do envelhecimento da população paulista”.

Seis perguntas para o presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), Antonio José Gonçalves:

Saúde Insider – O que mais chama a sua atenção na pesquisa?
Antonio José Gonalçaves – São Paulo continua sendo um retrato do que tende a ocorrer em todo o país. O crescimento acelerado do número de médicos, impulsionado pela expansão dos cursos de Medicina, vem modificando o perfil da profissão, com mais profissionais jovens e generalistas ingressando no mercado. No entanto, a formação especializada não acompanha esse ritmo, já que a oferta de vagas de residência médica permanece insuficiente.

Saúde Insider – O que explica esse aumento dos generalistas?
Antonio José Gonalçaves – O número de recém-formados cresce em ritmo muito superior ao da oferta de vagas de residência médica, fazendo com que muitos profissionais ingressem no mercado sem especialização. Isso reforça a necessidade de ampliar os programas de residência, que representam o essencial da formação médica.

Saúde Insider – E sobre o perfil do profissional?
Antonio José Gonalçaves – Chama a atenção a crescente participação das mulheres na medicina. Cada vez mais mulheres têm ocupado espaço em todas as especialidades e funções de liderança. Trata-se de uma mudança positiva, que acompanha a evolução da sociedade e exige que as instituições de saúde e de ensino adaptem suas políticas às novas características da força de trabalho médica.

Saúde Insider – Mesmo com a ampliação, os grandes centros seguem como os principais destinos…
Antonio José Gonalçaves – Sim. Esses dados mostram que o desafio deixou de ser apenas quantitativo. É preciso assegurar qualidade na formação, fortalecer a especialização e adotar políticas que promovam distribuição mais equilibrada dos médicos [pelo estado], garantindo melhor assistência à população.

Saúde Insider – Na apresentação da pesquisa fala-se em desafios, como o envelhecimento da população. O estado se encontra preparado para enfrentá-los?
Antonio José Gonalçaves – O envelhecimento da população é um dos maiores desafios para o sistema de saúde paulista e brasileiro. Embora São Paulo tenha uma estrutura mais desenvolvida do que a maioria dos estados, ainda não está plenamente preparado para responder ao aumento das doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, câncer e demências.

Saúde Insider – O que falta?
Antonio José Gonalçaves – Mudança de modelo assistencial, com maior investimento em atenção primária, prevenção, diagnóstico precoce, acompanhamento contínuo dos pacientes e integração entre os diferentes níveis de atendimento. Também será necessário ampliar a formação de especialistas e fortalecer equipes multiprofissionais.

Fonte: Saúde Insider – confira