Longa “Um Filho” é apresentado na sessão de setembro do Cine Debate

Debate se aprofundou no tema “A Psiquiatria e o sentido da vida”

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Setembro é o mês oficial da conscientização e prevenção contra o suicídio. Popularmente conhecida como Setembro Amarelo, a campanha teve início em 2014 no Brasil, por meio da iniciativa da Associação Brasileira de Psiquiatria em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).

Para reforçar a importância dessa discussão, a Associação Paulista de Medicina exibiu na última sexta-feira, 11 de setembro, o filme “Um Filho”, abordando a temática “A Psiquiatria e o sentido da vida”. O longa de 2020, dirigido por Florian Zeller, conta a história de Nicholas, um adolescente melancólico que está lidando com o divórcio dos pais e acaba indo morar com o pai, Peter, e a nova parceira dele, Beth. No decorrer da história, o jovem enfrenta relevantes questões relacionadas à sua Saúde mental, enquanto o pai tenta fornecer o suporte necessário.

Temática aflitiva
Para o debatedor Joaquim Pereira da Silva Júnior, psicanalista formado pela Universidade Federal do Pará e coordenador do Grupo de Estudos sobre Psicanálise e Suicídio, o filme tem muitas camadas e um dos motivos para não ter sido um grande sucesso de bilheteria pode ser atribuído ao fato de que o suicídio ainda é um tema difícil para a sociedade digerir.

“O suicídio continua sendo bastante impactante, e acho que não é à toa que esse filme não fez tanto sucesso assim, porque é um tema áspero. Mas eu costumo dizer que é um filme muito didático, nós vemos de forma muito clara o que devemos ou não fazer diante do drama, da tragédia que é o suicídio”, explicou.

O especialista divide a obra em três partes. “A primeira, que acho muito ilustrativa, é que é um filme muito próximo a nós, principalmente se considerarmos a nossa classe social, e é uma parte em que não há diálogo, as pessoas chegam trazendo monólogos que tentam que sejam ouvidos pelo outro, mas não tem conversa, não tem troca. Na segunda parte, começam as tentativas de se fazer alguma coisa, começam a dar um pouco de escuta para esse sujeito que sofre. E, por fim, essa expectativa de que tenha alguma saída, que seja uma grande chance de elaborar um pouco mais essa questão do suicídio.”

Pereira relembrou que existe uma força-tarefa por parte da Organização Mundial da Saúde (OMS) desde 2013, visando transformar o trabalho em torno das mortes autoprovocadas em uma questão de Saúde pública, por conta da alta incidência. Ele também recordou que há uma ocorrência muito ampla de que pacientes que não tenham conseguido realizar o ato, voltem a tentar novamente, acendendo alerta para pais e profissionais da Saúde. “No decorrer de todo o filme o menino deixa claro que tem muito mais coisas para serem investigadas dentro dele, que ele tem uma dor e que precisa mudar algo, mas não sabe o que é. Então, precisamos parar e escutar.”

Orientação
A psicóloga Maria Christina Saraiva descreveu que o filme mexe com o público principalmente por conversar diretamente com cada um dos espectadores, que também já foram adolescentes e podem compreender a agonia que o personagem Nicholas enfrenta. “Nós também já sentimos uma dor que não sabíamos dar nome, estava doendo, mas não sabíamos identificar. E o que nos ajudou para estarmos aqui hoje, todos nós? Algum apoio, alguma orientação que nos deu um norte e uma luz para seguir.”

A especialista também abordou a questão da automutilação presente no enredo, demonstrando que não necessariamente está atrelada a um suicídio próximo. “O filme mostra isso, eu me mutilo para que essa dor que está lá dentro venha para fora, porque eu não consigo falar dela, eu não consigo nem identificá-la bem, então eu a coloco para fora e daqui a pouco vira uma cicatriz. E todos nós temos cicatrizes, mas interiores, que trabalhamos e conseguimos resolver. No filme, tudo é falado até o meio, as frases não finalizam e fica subentendido. E o subentendido é muito perigoso.”

Maria Christina ainda pontuou a questão da cobrança que existe na sociedade, a necessidade de valorização e a maneira como os indivíduos em vez de utilizarem uma pessoa como seu modelo de inspiração, na realidade acabam confundindo isso e a tornam como o fundamento central de tudo aquilo que vão fazer.  

“Nós vemos a exigência em nível altíssimo, de todos os lados, para alguém que não está estruturado. Uma outra coisa que observamos é que o menino está sempre em segundo plano. São várias situações em que isso aparece. Então, temos que estar atentos a isso também, ver em que plano estamos colocando as pessoas e, inclusive, nós mesmos”, concluiu.

Importância da escuta
Finalizando, o psiquiatra e coordenador do Cine Debate, Wimer Bottura Júnior, chamou a atenção para a figura do psiquiatra neste filme, que não é tratado como um carrasco. Segundo o médico, sabe o que é depressão somente quem tem, quem convive e quem a trata, enquanto o restante apenas especula.

“A depressão não é uma coisa de uma pessoa só, ela altera toda a vida do sistema. É como uma pedra que se joga na água, ela reverbera, vai e volta, e fere a todos, inclusive o médico que trata, porque isso, na minha área, é o pior que podemos enfrentar e ficamos nos perguntando ‘onde é que eu errei?’, porque por mais que se tenha feito, sempre fica aquela sensação de que tinha algo mais e você não fez. O que nós buscamos não é apenas prevenir o suicídio, mas fazer com que as pessoas encontrem o sentido da vida”, descreveu.

Ele também pontuou a importância da escuta e da validação para quem está enfrentando episódios depressivos. “É preciso que aquela pessoa se sinta ouvida, porque nós vimos no decorrer do filme a dificuldade que as pessoas tinham em escutar a processar a informação do outro. Isso é importante, pois mobiliza a dar sentido à vida. Quando eu escuto alguém, estou dizendo automaticamente ‘você é importante, você tem significado, você é inteligente’.”

Fotos: Reprodução Cine Debate APM