A Comissão dos Médicos pelo Meio Ambiente e pelo Clima da Associação Paulista de Medicina, representada pelo seu coordenador, Gilberto Natalini, participou, na noite da última quinta-feira, 14 de setembro, da live promovida pela Comissão de Clima e Biodiversidade da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção São Paulo (OAB-SP) com foco no tema “Quando o Clima Adoece: Desafios e Respostas para a Saúde Global”. Além de Natalini, também participaram os médicos Adriana Polachini do Valle e Helio Bacha e a advogada Andrea Struchel.
Ao fazer a introdução, Andrea explicou que a ocasião faz parte de um ciclo promovido pela OAB-SP a fim de dialogar sobre sustentabilidade e clima, chamado de Diálogo Climático. “As mudanças climáticas são a maior ameaça à Saúde global neste século, com impactos como ondas de calor, propagação de doenças e insegurança alimentar. Segundo a Organização Mundial da Saúde, estima-se que entre 2030 e 2050, ocorram aproximadamente 250 mil mortes adicionais por ano decorrentes de fatores como desnutrição, malária, diarreia e estresse térmico, entre outras. Os sistemas de Saúde, de fato, precisam se tornar mais resilientes ao clima, com capacidade de monitorar e responder os riscos climáticos.”
Adoecimento do clima
De acordo com Gilberto Natalini, o clima está adoecido e instável, provocando reações imprevisíveis, como aumento nas temperaturas em estações que costumam ser mais geladas ou fortes chuvas fora do período esperado. “Nós somos os provocadores dessas alterações. Desde 1850, estamos buscando a produção de energia queimando combustível fóssil, emitindo gases CO2, que vão acima da atmosfera.”
Segundo o coordenador da Comissão da APM, essas questões trazem estresse hídrico, já que a população não tem garantia de água potável para beber; estresse alimentar, uma vez que as alterações climáticas destroem as lavouras; adoecimento, tanto por meio de doenças novas quanto pelo reaparecimento de enfermidades que, até então, pareciam estar erradicadas; e mortes por acidentes ocasionados pelos fenômenos extremos, como enchentes e deslizamentos de terra.
“Nós temos um impacto direto desses fenômenos climáticos extremos na Saúde e na vida das pessoas. Isso cai no colo dos médicos que atendem no pronto-socorro, no hospital, na clínica. Os pacientes acabam vindo para nós da área da Saúde para que possamos atendê-los e resolvermos aquilo que for possível. Por isso, nós da Comissão da APM estamos levando a mensagem para que os médicos entendam os fenômenos e façam a ligação entre o clima e a Saúde humana”, detalhou.
Impactos nos idosos
Adriana Polachini, professora da Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp), é autora de estudo que monitorou, entre 2010 e 2023 – com exceção dos anos da pandemia de Covid-19 –, uma série de pessoas acima dos 60 anos de idade, residentes do estado de São Paulo, no intuito de observar se a tendência de internações para esta faixa etária era modificada em períodos de ondas de calor. No decorrer da pesquisa, a especialista pôde observar que, neste cenário, o risco de morte para pessoas idosas aumentava em até 75%.
Ela aproveitou a oportunidade para mencionar o relatório divulgado pelo Climate Impact Lab, que aponta que o mundo poderá ter aproximadamente 450 mil mortes adicionais relacionadas aos impactos do calor ocasionado pelo El Niño entre junho deste ano e fevereiro do ano que vem. “O Brasil iria contribuir com cerca de 13 mil mortes associadas. Os idosos têm deficiência para dissipar o calor extremo, pois suam menos, têm uma percepção de calor diminuída e tomam menos água. Isso leva à desidratação, hipotensão, aumento da frequência cardíaca e, se já tem alguma doença prévia, pode causar arritmias, isquemias e insuficiência cardíaca. Nosso maior desafio não é apenas prevermos que vai ter a onda de calor, mas transformar essa previsão em ações.”
Saúde Pública
Para o infectologista Hélio Bacha, a questão da Saúde Pública, climática e das doenças atreladas é muito importante para ser apenas uma responsabilidade dos médicos – ela deve ser uma responsabilidade de todos. Ele defendeu que a Organização Mundial da Saúde deve ser um orgulho para a humanidade. “Ela nos fez avançar muito em Saúde Pública. Tivemos muitas conquistas, como a queda estupenda da mortalidade infantil e a erradicação de doenças. Para mim, é crime ecológico falar mal da OMS.”
O médico salientou que os objetivos de desenvolvimento sustentável envolvem diferentes frentes, que englobam desde vacinação até a questão da mobilidade urbana e a redução de doenças, como tuberculose e arboviroses. “Apontar a questão climática não é só curar, mas também é ampliar o debate ideológico ao respeito e ao conhecimento técnico-científico. É assim que nós vamos fazer avanços”, concluiu.
Fotos: Reprodução live