Novamente o envelhecimento com saúde 

Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020

O que diz a mídia

Nunca houve um momento mais importante ou estimulante para estudar a intersecção entre envelhecimento e saúde. Vivemos a era do crescimento e envelhecimento sem precedentes da população; em 2030, 1 em cada 6 pessoas terá mais de 60 anos através do mundo e também no Brasil. Esta mudança na população exige que melhoremos a nossa compreensão do processo de envelhecimento para sustentar e cuidar dos idosos tanto no futuro próximo como no futuro distante.

O tema do envelhecimento, por definição, abrange uma ampla gama de assuntos, tornando-se um tópico de pesquisa e assistência bastante complexo. Embora geralmente alinhado aos campos clínicos e científicos da geriatria e da gerontologia, o envelhecimento é um processo que dura a vida toda. Especificamente, muitas doenças e condições que se manifestam na velhice frequentemente se desenvolvem anos, senão décadas, antes, devido a uma combinação de fatores genéticos, de estilo de vida e de exposição. Para tanto, a fim de realmente avançar no campo do envelhecimento, devemos ampliar nosso escopo de “o que constitui envelhecimento” para “o que não constitui envelhecimento”. Um dos desafios mais importantes é definir o que significa “envelhecer bem”.

Envelhecer bem é mais do que a ausência de fragilidade e doenças. Independência, participação social e a capacidade de buscar o que é mais importante estão entre as principais prioridades para os idosos. Isso significa que a pesquisa precisa ir além das avaliações tradicionais de saúde física e cognitiva para abranger uma compreensão mais completa do processo de envelhecimento, desde os fatores biológicos até os sociais.

Estudos mostram que os dois fatores mais importantes da longevidade são a existência de cuidadores e a manutenção do ciclo social como amigos e família. Fatores ligados à medicina são os fatores seguintes. Nosso objetivo deve ser atender a essa necessidade, desenvolvendo processos de alta qualidade, com um contexto amplo e uma perspectiva translacional, ao longo de todo o ciclo de vida. Para atingir esse objetivo, intencionalmente amplo, devemos desenvolver ações de uma vasta gama de disciplinas, incluindo demografia, ciências sociais, pesquisa de políticas públicas, trabalho experimental, epidemiologia e estudos clínicos.

Devemos promover a pesquisa e assistência interdisciplinar e multiprofissional e fornecer uma plataforma para interação em todos os aspectos do envelhecimento, com focos centrados no ser humano. Ao mesmo tempo, o foco principal no envelhecimento nunca deve ser perdido. Especificamente, devemos abordar tópicos como saúde do adolescente, economia da saúde ou modelos experimentais, que devem incluir o envelhecimento como um fio condutor comum e devem abordar os aspectos translacionais e as implicações clínicas para o envelhecimento da população humana.

Dessa forma, devemos buscar construir uma comunidade compartilhada onde profissionais de saúde e cientistas interessados ​​em envelhecimento estejam conectados por meio da ciência aberta, com a possibilidade de contribuir não apenas com artigos de pesquisa originais, mas também artigos de opinião, editoriais, protocolos e revisões temáticas.

Dado ao recente crescimento da pesquisa sobre envelhecimento e a ampla disponibilidade de grandes conjuntos de dados, precisamos aderir aos mais altos padrões para garantir a qualidade dos trabalhos produzidos e implantados. Por fim, esperamos que todos tenham entusiasmo neste desafio para toda a sociedade e humanidade.

A comunidade que trabalha com o envelhecimento merece alternativas robustas para a desenvolvimento de seus trabalhos, com um foco claramente definido, assim como em outras áreas da medicina. Para tanto, nosso compromisso deve ser construir uma comunidade que gere um efeito multiplicador, fortalecendo ainda mais os estudos do envelhecimento como uma verdadeira disciplina médica e de saúde pública por meio da inovação e da excelência. Deixo claro que, com os meus 75 anos de idade, certamente, há aqui um enorme conflito de interesse….

Carmino Antônio De Souza é professor titular da Unicamp. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo na década de 1990 (1993-1994) e da cidade de Campinas entre 2013 e 2020. Secretário-executivo da secretaria extraordinária de ciência, pesquisa e desenvolvimento em saúde do governo do estado de São Paulo em 2022, Presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, membro do Conselho Superior e vice-presidente da Fapesp, pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera da Fapesp.

Fonte: Hora Campinas – confira