Câmara terá renovação de quase metade da Comissão de Saúde e 40 deputados médicos em 2027
Eleição retira 24 titulares do colegiado e muda coordenações de frentes parlamentares. Ex-ministra da Saúde e ex-diretor da Anvisa estão entre os que entram na Casa em 2027
A Comissão de Saúde da Câmara dos Deputados perderá 24 de seus 49 integrantes titulares em 2027, o equivalente a 49% dos parlamentares que ocupavam essas cadeiras em setembro deste ano. A renovação alcança responsáveis por projetos e frentes parlamentares ligados a planos de saúde, hospitais, profissionais e indústria de dispositivos médicos. Entre os novos nomes para a 58.ª legislatura brasileira, estão antigos dirigentes do setor, como a ex-ministra da Saúde Nísia Trindade (PT-RJ) e o ex-diretor da Anvisa Agnelo Queiroz (PT-DF). Um levantamento do Saúde Insider que cruza dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e biografias institucionais dos 513 deputados identificou 40 deputados eleitos com formação médica.
Atualmente, a comissão possui 52 vagas de titulares, mas três estavam desocupadas na composição de 2 de setembro, utilizada como referência. Dos 49 deputados identificados, 25 foram reeleitos. A renovação poderá ser maior porque a permanência no mandato não garante a recondução ao colegiado. A distribuição das vagas dependerá dos acordos partidários e das indicações das lideranças em 2027. O PL, que elegeu 121 deputados, será a maior bancada da Câmara, seguido pela federação PT-PCdoB-PV, com 88 representantes. A composição dos blocos também influenciará a divisão dos assentos.
Entre os parlamentares ligados à saúde que deixam a Câmara está Silvia Cristina (PP-RO), que coordena três frentes parlamentares ligadas à saúde: combate ao câncer, prevenção de doenças cardiovasculares e saúde 4.0. A deputada também recebeu, em agosto, a relatoria do PL 3.022/2026, que prevê medidas administrativas em situações de atraso ou falta de pagamento da remuneração de médicos. O projeto é de autoria de Eduardo da Fonte (PP-PE) e Lula da Fonte (PP-PE).
Eduardo, que também não continuará na Câmara, é coautor de outras duas propostas de interesse direto das operadoras. O PL 1.653/2026, que vincula parte do reajuste anual dos planos a indicadores de reclamações dos beneficiários e o PL 1.651/2026, que estabelece regras e sanções para os chamados planos falsos coletivos. Ambos aguardam designação de relator na Comissão de Saúde. Lula da Fonte conquistou novo mandato e continuará como um dos autores das propostas no Congresso.
Outra saída relevante é a do Dr. Zacharias Calil (MDB-GO), coordenador da Frente Parlamentar Mista da Saúde e relator do PL 1.200/2026, sobre participação consultiva de organizações da sociedade civil em instâncias da Anvisa. A saída dos parlamentares, no entanto, não resulta no arquivamento dos projetos de lei, mas eles podem mudar de ritmo, de foco ou ganhar novos entendimentos sob outra relatoria.
Frentes parlamentares. A renovação também alcançará frentes especializadas cujos coordenadores também são ligados à pauta da saúde. Rodrigo Valadares (União-SE), que não conquistou mandato para 2027, coordena a Frente Parlamentar em Defesa da Ética na Saúde Suplementar, registrada em dezembro de 2025. Luisa Canziani (União-PR), também fora da próxima Câmara, está à frente da Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Cuidados Paliativos, criada em 2023. As duas áreas têm agendas próprias de interesse para operadoras, hospitais e prestadores de serviços.
Outros coordenadores não estarão na próxima legislatura. Eduardo Velloso (Solidariedade-AC) conduz as frentes de telemedicina, oftalmologia e prevenção da cegueira. Erika Kokay (PT-DF), que disputou o Senado, coordena a frente de enfrentamento às infecções sexualmente transmissíveis, HIV/aids e hepatites virais. A definição das coordenações em 2027 dependerá da reorganização das frentes parlamentares, que precisam ser novamente constituídas e registradas para a nova legislatura.
Quem fica. Os quatro atuais dirigentes da Comissão de Saúde foram reeleitos: o presidente Giovani Cherini (PL-RS) e os vice-presidentes Rosângela Reis (PL-MG), Pedro Westphalen (PP-RS) e Rafael Simoes (União-MG). Também conquistaram novo mandato parlamentares com atuação no colegiado, como Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Jorge Solla (PT-BA), Osmar Terra (PL-RS), Ana Pimentel (PT-MG), Beto Preto (PSD-PR), Adriana Ventura (Novo-SP) e Iza Arruda (MDB-PE).
Parte das pautas em andamento tem autores que continuarão no Congresso. Beto Preto é autor do PL 3.339/2026, que propõe regime especial de aquisição de medicamentos, equipamentos e serviços para hospitais filantrópicos e Santas Casas que atuam no SUS. Pedro Westphalen, atual segundo vice-presidente da comissão, coordena a Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Serviços de Saúde. Em abril, promoveu discussão sobre os efeitos de alterações nas tarifas de importação de dispositivos médicos sobre os custos da assistência.
Fora da Comissão de Saúde, Antonio Brito (PSD-BA) foi reeleito e continuará na Câmara. Ele coordena a Frente Parlamentar de Apoio às Santas Casas, Hospitais e Entidades Filantrópicas e participou de debates sobre financiamento dessas instituições. Também foram reeleitos Márcio Jerry (PCdoB-MA), coordenador da Frente SUS, Pedro Campos (PSB-PE), da frente de promoção da saúde mental, e Renilce Nicodemos (MDB-PA), da frente em defesa da saúde das mulheres, além de Domingos Neto (PSD-CE), relator do PL 7.419/2006, que reúne propostas de alteração da Lei 9.656/1998, que regulamenta os planos de saúde.
Quem chega. A próxima legislatura terá deputados com experiência anterior no comando de órgãos e serviços de saúde. Nísia Trindade (PT-RJ), socióloga, presidiu a Fundação Oswaldo Cruz entre 2017 e 2022 e foi ministra da Saúde de 2023 a 2025. À frente da pasta, participou das discussões sobre financiamento do SUS, assistência especializada, vacinação e produção nacional de medicamentos e vacinas.
Outro nome relevante é o de Agnelo Queiroz (PT-DF), médico que integrou a diretoria da Anvisa entre 2007 e 2010. Ele também foi governador do Distrito Federal, ministro do Esporte e deputado federal. Sua trajetória inclui atuação em entidades representativas da medicina.
Marcelo Belinati (PP-PR), ex-prefeito de Londrina, retorna à Câmara. Formado em medicina, com pós-graduação em ortopedia e traumatologia e formação em auditoria e gestão em saúde, foi deputado federal entre 2015 e 2017. Nesse período, integrou a Comissão de Saúde e participou da CPI das Órteses e Próteses, que investigou irregularidades envolvendo esses dispositivos.
Bancada médica. O levantamento feito para esta reportagem identificou 40 médicos entre os 513 deputados federais eleitos em 2026. Desse total, 30 declararam a ocupação de médico ao TSE. Outros dez foram identificados por informações profissionais constantes de biografias institucionais. O resultado difere do levantamento da APM (Associação Paulista de Medicina), que contabiliza 38 deputados médicos, divididos em 19 reeleitos e 19 novos mandatos.
A diferença nominal está em Ana Pimentel (PT-MG) e Carlos Bezerra Jr. (PSD-SP), identificados no levantamento documental, mas ausentes da relação apresentada pela APM. A biografia oficial de Ana Pimentel na Câmara registra sua formação em medicina pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Carlos Bezerra Jr. é formado em medicina, com especialização em ginecologia e obstetrícia, segundo a Câmara Municipal de São Paulo. Entre os 49 titulares da Comissão de Saúde identificados em setembro, 18 têm formação médica, e oito não estarão na próxima legislatura.
No ciclo eleitoral de 2022, foram 35 médicos eleitos, segundo levantamento do CFM (Conselho Federal de Medicina) à época. Destes, 19 integrantes conquistaram novo mandato na Câmara. Entre os 16 que não foram reeleitos estão Alexandre Padilha (PT-SP), atual ministro da Saúde, que não disputou a eleição, e André Fufuca (PP-MA) e Fernando Máximo (PL-RO), ambos eleitos para o Senado.
Questões essenciais
Quantos integrantes da Comissão de Saúde da Câmara deixarão o colegiado em 2027?
Dos 49 deputados que ocupavam vagas de titulares em 2 de setembro de 2026, 24 não estarão na próxima legislatura. Outros 25 foram reeleitos, mas a permanência na Câmara não garante a recondução à Comissão de Saúde.
Quantos médicos foram eleitos deputados federais em 2026?
O levantamento do Saúde Insider identificou 40 deputados eleitos com formação médica, o equivalente a 7,8% das 513 cadeiras. Desse total, 30 declararam ao TSE a ocupação de médico e dez foram identificados por biografias profissionais e institucionais.
Quem vai comandar as frentes parlamentares da saúde em 2027?
As novas coordenações ainda não foram definidas. Os registros das frentes parlamentares são extintos ao fim da legislatura, e os grupos precisam apresentar novos pedidos de registro à Câmara. Parlamentares reeleitos poderão participar da reorganização, mas isso não garante a manutenção dos cargos anteriores.
Fonte: Saúde Insider – confira aqui