Primeiro exame de sangue para Alzheimer com registro na Anvisa chega ao Brasil: veja quem pode fazer, quanto custa e o que o resultado revela

Dosagem da proteína p-tau217 pode encurtar a investigação de quem já tem queixas cognitivas, mas não serve para rastrear pessoas sem sintomas. Ministério da Saúde diz que não há pedido para avaliar a incorporação do teste ao Sistema Único de Saúde

O que diz a mídia

Um exame de sangue com registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) capaz de indicar se o cérebro apresenta as marcas biológicas do Alzheimer passou a ser oferecido no Brasil a partir desta quinta-feira (15), por ora em um único serviço: o Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre (RS). O teste pode dispensar, em boa parte dos casos, a punção lombar ou o exame de imagem usados hoje para confirmar a doença. Esse é o primeiro teste com registro na Anvisa no país.

O exame, que mede a proteína p-tau217, está disponível na rede privada por um valor estimado em cerca de R$ 3 mil. Destina-se apenas a pessoas que já têm sintomas e suspeita clínica de Alzheimer.

Um resultado positivo, sozinho, não basta para afirmar que há demência causada pela doença, e a chegada ao Sistema Único de Saúde (SUS) não tem data. O Ministério da Saúde informa que não houve demanda de avaliação do exame pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), etapa exigida para que uma tecnologia entre na rede pública.

Embora seja o primeiro teste sanguíneo de p-tau217 com registro na Anvisa, há ao menos uma outra iniciativa que já realiza exame baseado nesse biomarcador no Brasil. É o caso do teste oferecido pelo Richet em parceria com o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), que utiliza a tecnologia SIMOA.

O exame no Richet custa R$ 1,8 mil e, de acordo com a assessoria do Richet, mais de 500 laudos foram reportados. Atualmente, o exame é oferecido em parceria com o centro de pesquisa enquanto tramita o processo de aprovação formal para mercado, de acordo com a assessoria do laboratório.

Pista no sangue sobre o que se passa no cérebro

A p-tau217 é uma versão quimicamente modificada da proteína tau, presente nas células nervosas. Seus níveis no sangue acompanham o acúmulo de placas de beta-amiloide, uma proteína que se deposita no cérebro e é uma das marcas biológicas do Alzheimer.

O exame, portanto, não mede a demência em si, e sim um sinal indireto dessas alterações. A análise é feita em equipamento automatizado, característica que, segundo os autores de um dos principais estudos sobre o teste, favorece resultados semelhantes entre laboratórios diferentes.

O resultado pode ser positivo, negativo ou inconclusivo. Eduardo Zimmer, head de pesquisa da Unidade de Neurociência do Hospital Moinhos de Vento e responsável pela implementação do exame, estima que de 15% a 20% dos testes caiam nessa faixa intermediária. Nesses casos, o médico pode pedir um PET (tomografia por emissão de pósitrons) ou a análise do líquor, ou repetir o exame de sangue depois de 12 meses.

O desempenho da plataforma Lumipulse, da fabricante belga Fujirebio, foi avaliado em um estudo publicado em 2025 na revista Nature Medicine. A pesquisa incluiu 1.767 pessoas com sintomas cognitivos atendidas na Suécia, na Espanha e na Itália.

Os pesquisadores compararam o resultado do exame de sangue com o da análise do líquor, a punção lombar usada como referência para confirmar a alteração. Com um único ponto de corte, o valor que separa o resultado positivo do negativo, o sangue coincidiu com o líquor em 89% a 91% dos pacientes de serviços especializados. Com dois pontos de corte, a coincidência subiu para 92% a 94%, ao custo de deixar de 12% a 17% dos participantes sem resposta definida.

Zimmer afirma que a sensibilidade e a especificidade do exame passam de 90%, ou seja, que ele acerta tanto ao apontar quem tem a alteração quanto ao descartar quem não tem.

Segundo ele, a validação feita no hospital com amostras de sangue e de líquor alcançou 0,95 em uma escala em que 1 representa o acerto perfeito, e mais de mil dosagens já foram realizadas em Porto Alegre.

Esses dados locais ainda não passaram por revisão por pares: o artigo de validação será divulgado nesta semana como preprint, já submetido a uma revista científica, e a análise das mil dosagens segue em andamento.

Fonte: G1 – acesse aqui