Na última quarta-feira, 11 de março, a Academia de Medicina de São Paulo realizou mais uma edição da sua tradicional tertúlia – de maneira híbrida, com transmissão a partir da sede da Associação Paulista de Medicina. O convidado desta edição foi o urologista Sidney Glina, que fez uma apresentação sobre “A História da Medicina Sexual: Dos mitos ao Viagra”.
Helio Begliomini, presidente da AMSP, iniciou a sessão ressaltando a trajetória do palestrante. Graduado na tradicional Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), onde também se especializou em Cirurgia e em Urologia, realizou um research fellowship em infertilidade na Cleveland Clinic Foundation, nos Estados Unidos. Durante os anos de 1991 a 2016, assumiu a chefia da Clínica Urológica do Hospital Ipiranga, onde criou o programa de Residência em Urologia, iniciado em 1996 e reconhecido pela Comissão Nacional de Residência Médica e pela Sociedade Brasileira de Urologia.

Glina também foi fundador e presidente da Associação Brasileira de Inadequações Sexuais (1989-1991) e secretário-geral (1994-2000); presidente da Sociedade Latino-Americana de Medicina Sexual (2011-2015); e da Internacional Society of Sexual Medicine – ISSM (2000-2002). Atualmente, é professor Titular de Urologia da Faculdade de Medicina do ABC.
Evolução da Sexualidade
Ele iniciou sua apresentação comparando a evolução da sexualidade entre animais e humanos. E explicou que, enquanto nos animais a ovulação é visível e o sexo ocorre basicamente para reprodução, nos humanos a ovulação é oculta e o sexo acontece por prazer e para fortalecer vínculos, independentemente da fertilidade.
Historicamente, a visão sobre o sexo mudou muito. Na Antiguidade, era visto como uma energia vital e divina. No Judaísmo, foi integrado à ética e valorizado como algo normal. Já no Cristianismo, o desejo passou a ser vigiado moralmente, tratando a virgindade e o celibato como ideais superiores. Na Idade Média, o sexo era visto como pecado e o conhecimento científico foi reprimido. O cenário só começou a mudar no Renascimento, quando o corpo humano voltou a ser objeto de estudo da Ciência. Mais tarde, na Era Vitoriana, houve muita repressão sexual, embora tenha sido nesse período que surgiram os primeiros preservativos de borracha e as primeiras leis de divórcio.
A grande revolução veio em 1960 com a pílula anticoncepcional. Ela permitiu que o prazer fosse visto como um direito e que a reprodução se tornasse uma decisão planejada pela mulher. Na mesma época, os pesquisadores William Masters e Virginia Johnson provaram, após observarem 10 mil ciclos sexuais em laboratório, que a idade não impede a resposta sexual. Na área médica, os avanços continuaram com a criação da prótese peniana inflável nos anos 1970 e a chegada do Viagra em 1998. Curiosamente, o Viagra era usado inicialmente para dilatar as coronárias, mas os pacientes não queriam devolver o remédio porque ele causava ereção como efeito colateral.
Em 1993, os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) do Estados Unidos fizeram um consenso, em que colocaram que a prevalência da disfunção erétil no mundo era muito grande, sendo um problema de saúde. Estatísticas mostraram que a condição atingia 32% dos homens no Reino Unido, 42% na França e no Brasil, e 54% no Japão. Em 1999, a Organização Mundial de Saúde, junto com a Sociedade Internacional da Medicina e da Saúde Sexual, inclui o direito à saúde sexual entre os direitos humanos.
Sidney Glina explicou que a disfunção erétil é uma condição clínica de grave prevalência. E ao se questionar sobre o porquê não se faz diagnóstico, o urologista diz que é porque o paciente não fala e o médico também não pergunta.
“Nós temos uma sociedade altamente sexualizada. Alta expectativa de desempenho, mas ela é pouco educada sexualmente. Se a gente olhar as redes sociais hoje em dia, se fala muito pouco de sexualidade. Os tratamentos são altamente eficazes e seguros, porém, a classe médica não está educada para aplicar esses tratamentos. As disfunções sexuais são prevalentes, porém, os pacientes procuram pouco. Então, apesar de ter toda essa evolução que a gente teve na história da sexualidade, chegando a tratamentos muito bons, muito efetivos, a gente continua com uma dificuldade muito grande de tratar esses pacientes”, concluiu.

Texto e fotos: Maria Lima (sob supervisão de Giovanna Rodrigues)