No último dia 07 de outubro de 2026, na sede da Associação Paulista de Medicina na cidade de São Paulo, assumi a cadeira de número 52 da Academia de Medicina de São Paulo (AMSP). A AMSP é uma das mais tradicionais do Brasil. Foi fundada em 1885, portanto, ainda no período imperial, poucos anos após a criação da Academia Nacional de Medicina com sede no Rio de Janeiro, capital do Brasil nesse período. Certamente, é uma grande honra fazer parte desta entidade após uma eleição junto aos acadêmicos e em primeiro escrutínio. Para ser eleito exclusivamente pelos pares, o candidato deve ter, pelo menos, 50% mais um voto dos 130 membros titulares (não dos acadêmicos votantes, mas de todos).
A AMSP congrega e congregou, grandes nomes da medicina nacional. Apenas como exemplo, até por que não poderíamos citar todos os seus membros ou patronos neste espaço, vou falar apenas da cadeira 52.
A cadeira 52 tem como patrono o Prof. Raul Carlos Briquet, nascido em Limeira em 1887. O Prof. Briquet teve uma formação multifacetada, abrangente e profunda, não apenas no campo da medicina como também na psicologia, filosofia, educação e artes. Foi formador de uma geração de médicos e cientistas, deixando um legado importante, através de seus ensinamentos, atuação, de seus livros e artigos. Sempre foi um autor exigente e rigoroso e foi criador de uma importante escola de ginecologia e obstetrícia em São Paulo. Iniciou, em nosso meio, a assistência ao recém-nascido em berçários. Foi um dos pioneiros da “Escola Nova” em 1932. Sua atuação nas letras justificou também sua posse na Academia Paulista de Letras.
O próximo membro que vou apresentar foi um grande amigo e exemplo em nossa cidade e estado. Por absoluta e feliz coincidência para mim, o próximo membro desta cadeira 52 foi meu grande mentor em gestão pública, o Prof. José Aristodemo Pinotti. O Prof. Pinotti nasceu em São Paulo em 1934 e graduou-se em 1958 pela Faculdade de Medicina da USP. Fez sua residência médica em São Paulo e especialização na Universidade de Firenze tendo ainda trabalhado em Milão, na Itália.
O Prof. Pinotti, como é do conhecimento de grande parte da comunidade acadêmica brasileira, teve grande destaque como médico, professor e gestor. Foi Professor titular de Ginecologia e Obstetrícia tanto da Unicamp como da USP. Foi Diretor da FCM da Unicamp por duas gestões e Reitor entre 1982-1986. Nesse período, promoveu uma extraordinária expansão na Universidade, sendo marcantes a finalização das obras do Hospital das Clínicas e a criação, dentre muitas instituições, do CAISM – Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (que tem o seu nome).
No campo da Hematologia e Hemoterapia, minha especialidade, criou o Hemocentro de Campinas na Unicamp em 1985, tendo me indicado para as ações de implantação. Em 1988, agora como Secretário de Saúde do Estado de São Paulo, criou a Hemorrede, uma marca nacional e que foi capaz de enfrentar e ultrapassar um dos maiores problemas ligado a transmissão do vírus HIV através das transfusões de sangue, componentes e derivados. Fui novamente designado por ele para comandar este enfrentamento. Em meu discurso de posse na AMSP, ressaltei que minha especialidade deve muito ao Prof. Pinotti por ter criado a Hemorrede e construído vários Hemocentros através do Estado. O Prof. Pinotti foi autor de mais de 1300 obras científicas e literárias, dentre elas, 37 livros, sendo dois de poemas. Foi também titular da cadeira 22 da Academia Nacional de Medicina. Foi ainda Secretário de Saúde e de Educação do Estado e do Município de São Paulo bem como Deputado Federal por duas legislaturas.
O último membro a ocupar a cadeira 52 antes de mim foi o Prof. Ênio Buffolo. O Prof. Ênio nasceu em 1941 também em São Paulo e se formou pela Escola Paulista de Medicina, hoje, a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) em 1965. Fez residência médica em cirurgia e longa carreira acadêmica com dedicação integral. Tem dezenas de publicações científicas, mas uma foi absolutamente fundamental. Desenvolveu a técnica de revascularização sem by-pass cardiovascular publicado em 1996. Que não ouviu falar ou acompanhou alguém que tenha colocado um stent? Em consequência dessa técnica pioneira, o Prof. Buffolo ganhou reconhecimento internacional tendo sido colocado um tijolo com seu nome em monumento a Hipócrates (pai da Medicina), na Ilha de Cós, Grécia, durante o Congresso Mundial da Sociedade de Cirurgia Cardiotorácica. Recebeu inúmeras honrarias e prêmios por sua extraordinária carreira.
Caros leitores, este é um breve relato sobre os membros titulares que já ocuparam a cadeira de número 52 da AMSP que hoje está sendo ocupada por mim.
Por este brevíssimo relato sobre meus antecessores, vocês podem avaliar a minha responsabilidade. Vou fazer todo o possível para honrar e deixar um legado compatível com a importância desta entidade que é a AMSP e seus membros.
Fonte: Hora Campinas – confira