Indicadores de qualidade de hospitais privados da ANS ampliam transparência, mas ainda enfrentam desafios
Somente 48 hospitais enviaram dados integrais à ANS, em programa voluntário de transparência da saúde suplementar
A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) divulgou em 12 de fevereiro indicadores de qualidade de hospitais privados, que atuam com planos de saúde. A iniciativa tem adesão voluntária e contou com dados de 124 hospitais, sendo que 48 enviaram dados integrais de todos os indicadores.
Taxa de mortalidade institucional, tempo médio de internação e permanência na emergência, taxa de infecção do sítio cirúrgico e quedas com dano são alguns dos indicadores divulgados em painel disponível no site da ANS. De acordo com a agência, a ideia é dar mais transparência e estimular melhorias no setor.
Entre os hospitais de excelência, o Einstein e Hospital Alemão Oswaldo Cruz enviaram dados integrais. Já BP, Hcor e Moinhos de Vento fizeram envio parcial das informações. Não há informação sobre o envio de dados do Hospital Sírio-Libanês e do A.C.Camargo Cancer Center. Entre os hospitais que enviaram dados integrais, 50% são ligados às Unimeds.
Para fontes ouvidas por Futuro da Saúde, a divulgação merece ser celebrada como um pontapé inicial, mas é preciso estimular a participação de mais hospitais, uma vez que, de acordo com a ANS, 470 são elegíveis para o Programa de Monitoramento da Qualidade Hospitalar. Também apontam que é preciso evoluir para avaliar o tipo de paciente e doenças que desencadearam em cada dado, assim como avaliar o desfecho clínico, mais do que dados isolados. Os especialistas reforçam que a iniciativa da ANS é importante, mas ajustes podem ser feitos nos próximos passos e em divulgações futuras.
Para o ex-ministro Nelson Teich, advisor da Ekantika Consultoria, mestre em Economia da Saúde pela Universidade de York e ex-ministro da Saúde, apesar da participação ser voluntária, é preciso que o setor recompense aqueles hospitais que participaram e se dispuseram a enviar dados, mesmo que parciais. “Naturalmente essa iniciativa vai ter que ser aprimorada ao longo do caminho. Como ela é voluntária, de alguma forma tem que valorizar quem participa. Senão é muito fácil quem simplesmente não participando”, avalia Teich.
Já Adriano Londres, da Arquitetos da Saúde, aponta a necessidade de a agência dialogar com entidades representativas dos hospitais para buscar incentivar a participação. “Em uma iniciativa dessa magnitude, é natural a existência de instituições que aderem de largada e aquelas que não aderem, por receio ou falta de informação, e as que não vão aderir nunca. Isso faz parte do processo. Se for esperar ter ampla adesão, não vai andar. É melhor começar com o que já se tem,” afirma.
Participação de hospitais e importância
Segundo Londres, o lançamento do painel pode colaborar com a adesão de novos hospitais. Contudo, é pouco provável que isso se traduza em operadoras optarem por hospitais que demonstrem melhor qualidade. A região de atendimento e o preço ainda são determinantes para contratação, assim como as negociações envolvidas. Para ele, é preciso ter divulgação de indicadores das próprias operadoras, para conhecer os resultados em saúde que elas, através dos prestadores de serviços, entregam para a sociedade.
Este é um ponto que a Unimed tem trabalhado, de acordo com Gines Henrique Martines, superintendente de Saúde e Intercâmbio da Unimed do Brasil. A confederação já realiza um processo interno de acompanhamento dos indicadores de hospitais Unimeds. Dessa forma, se torna mais fácil participar do programa da ANS.
“Temos um setor chamado Núcleo de Desenvolvimento Institucional que faz esse monitoramento. A equipe entra em contato e aponta quando um índice está mal calculado ou está fora do parâmetro. Monitoramos a correção disso. Temos vários exemplos de situações em que um indicador com mau resultado gerou um trabalho de qualificação daquele hospital,” explica Gines.
Na visão dos especialistas, o principal benefício é estimular uma concorrência sadia e publicizar as informações. Essa possibilidade de comparação é citada pela própria Associação Nacional dos Hospitais Privados (Anahp), que possui desde 2003 seu próprio Sistema de Indicadores Hospitalares. Nele, os dados são compilados e exibidos de forma geral, sem detalhar os indicadores por instituição. De acordo com a última edição do Observatório Anahp, de 2025, 119 das 169 associadas à época imputaram dados e “cada hospital tem acesso a relatórios que permitem que a instituição faça análises comparativas com o conjunto dos associados Anahp”. Contudo, procurada pela reportagem, a entidade não respondeu sobre os resultados do painel da iniciativa da ANS até o fechamento.
Mesmo que a população tenha acesso às informações, o ex-ministro Teich reforça que é pouco provável que haja um uso amplo para, quando possível, escolher prestadores. “A ferramenta pode ter pouca utilidade prática. Se sou uma pessoa que quer fazer uma cirurgia, teria que ter uma ferramenta como um chatbot e perguntar qual o hospital que tem a melhor entrega em relação a um tipo de câncer, por exemplo. Tem que ser simples,” aponta.
Cuidado na análise dos indicadores
Apesar de as fontes avaliarem que os indicadores são pertinentes, reforçam que é preciso ir além, entendendo o perfil de pacientes e doenças que cada unidade atende. Isso porque a complexidade de cada atendimento pode impactar nos números apresentados, como mortalidade e reinternação.
“Ter uma mortalidade maior não significa que o lugar é ruim. Pode ser que ali se trate pacientes mais graves e que por isso estejam mais bem equipados. Às vezes, a comparação dos números é feita de forma ingênua. É muito difícil medir performance e qualidade, mas não há outra maneira a não ser colocar à luz,” pondera Marcos Santos, presidente da Sociedade Brasileira de Auditoria Médica (SBAM).
É o que reforça o presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), Antonio José Gonçalves, que avalia que a iniciativa é importante para promover uma competição sadia entre hospitais, além de contribuir com operadoras e profissionais em busca de melhores resultados.
“Logicamente, a permanência hospitalar tem que ser comparada dependendo das especialidades, mas se dentro de uma mesma especialidade um hospital tem uma permanência hospitalar menor que a de outro, na mesma patologia, obviamente esse hospital tem uma condição melhor e procura retirar o paciente o mais rapidamente possível do ambiente hospitalar”, explica ele, que também é professor titular do Departamento de Cirurgia da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo.
O ex-ministro Nelson Teich afirma ainda a importância de avaliar indicadores de desfecho clínico. Isso pode mostrar de fato o impacto no resultado no tratamento da população. E pode servir, segundo ele, inclusive para uma remuneração mais adequada na saúde suplementar, reduzindo desperdícios.
A visão é compartilhada por Marcos Santos, presidente da SBAM: “A remuneração do hospital pela quantidade de serviços que ele me entrega acaba pagando mais em casos em que o paciente tem maior permanência. Isso acaba estimulando a ausência de qualidade. No fee for service, hospital que trabalha pela qualidade recebe menos.”
Fonte: Futuro da Saúde – acesse aqui