Dando continuidade às apresentações do “Fórum Médico Jovem, Lideranças e Centros Acadêmicos em Medicina”, realizado no último sábado, dia 23 de maio, na sede da Associação Paulista de Medicina, os participantes puderam conferir a mesa sobre os aspectos atuais da formação médica no Brasil, moderada pelo diretor adjunto de Previdência e Mutualismo da APM, Clóvis Francisco Constantino.
Ele relembrou que a formação profissional está em uma fase muito atualizada e moderna. “Nós sabemos que atualmente o que se pretende como médico, ao se formar e iniciar a sua atividade profissional, é que ele tenha a específica capacidade de articular conteúdos, habilidades, atitudes e resolução de problemas. O nosso objetivo é o médico assistindo bem à população, tendo conforto na sua vida profissional e pessoal, fazendo com que as sociedades associativas sejam realmente um abraço.”

Graduação e Proficiência
Falando sobre graduação e proficiência, a pediatra Ana Cristina Ribeiro Zolner iniciou a sua palestra pedindo para que os participantes respondessem, por meio de um QR Code, o que a graduação significava para eles. Segundo a médica, as respostas do público se dividiram entre “momento de formação”, “conhecimento”, “estudo e aprendizado”, entre outros.
“Nós não definimos graduação por nada além de tudo o que vocês colocaram, essa é a verdade. Esses seis anos são para criar proficiência. A escola de Medicina tem que trazer para vocês um cuidado com a capacidade de aplicar o que vocês aprenderam, o conhecimento científico, a tomada de decisão clínica, o que vocês vão precisar na rotina, saber se comunicar com seus pacientes, professores e preceptores. Ter ética. A gente sem ética não consegue nem trazer uma conversa com outras pessoas que tenham opiniões divergentes, e divergir é sensacional, porque nos obriga a estudar mais”, afirmou.
A médica também esclareceu que a graduação não é o produto final no processo de aprendizado – e que, na Medicina, isso não existe, já que a necessidade de atualização é constante –, além de relembrar que as dificuldades podem ser algo que no início da carreira os médicos não compreendem, mas que farão sentido conforme as experiências obtidas com o tempo. “O que vai nos diferenciar é a questão da empatia, que tanto se fala e pouco se exercita. Saber se comunicar e contextualizar de forma humana aquilo que a pessoa traz para você.”


Residência Médica e Especializações
Em seguida, o diretor Científico da Associação Médica Brasileira e conselheiro do Conselho Federal de Medicina, José Eduardo Lutaif Dolci, evidenciou que a Residência Médica não acompanhou o crescimento da graduação. Trazendo dados, o médico demonstrou que entre 2017 e 2018 havia 17 mil egressos para 13 mil vagas de residência, enquanto em 2023 essa média foi para quase 33 mil egressos e 16 mil vagas de residência, relembrando que a tendência é que esta distância entre egressos e números de vagas fique cada vez maior.
Dolci também fomentou as disparidades na distribuição de profissionais ao redor do País e os desafios que fazem com que haja uma elevada desistência na realização da residência. “Cidades com menos de 50 mil habitantes contam com só 8% dos médicos e isso acontece porque elas não têm infraestrutura, os hospitais são precários ou nem há hospitais, além de não oferecerem suporte para a família do médico […]. Na Residência Médica, estamos falando de 60 horas semanais, sem contar a bolsa do residente, que é baixa. Então se torna desumano, desgastante e exaustivo. Nem todo mundo está disposto a passar por isso.”
Segundo o palestrante, uma alternativa para o pequeno número de vagas de residência é por meio das sociedades de especialidades, que contam com centros de ensino e treinamento, promovendo a formação de qualidade dos médicos. “Eu não tenho dúvida do que estou falando, porque as sociedades vistoriam e fazem avaliações realmente rigorosas. Nós precisamos, sim, fortalecer as sociedades de especialidades, porque elas podem, por meio de seus centros de ensino e treinamento, aumentar o número de vagas para a Residência Médica com a qualidade necessária. Esta é uma proposta da AMB e temos lutado muito para isso.”

Debates
Relatora da mesa, Monaí Barbosa Oliveira recapitulou o que foi falado durante as apresentações. “A graduação tem limitações, nós bem sabemos, é um curso puxado, e é fundamental que nós desenvolvamos a empatia para com os nossos colegas e os pacientes e desde sempre o estudante tem um papel de protagonismo nesse processo. A proteção à Saúde da população brasileira deve ser o nosso norte e o intuito, no final das contas, é aumentar a formação de especialistas e lidar com todo esse panorama que enfrentamos atualmente.”
Posteriormente, o diretor de Eventos da APM e membro da Comissão Nacional de Residência Médica, Fernando Sabia Tallo, foi debatedor das palestras e aproveitou a oportunidade para comentar sobre o Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica). “Ele é uma prova definitiva, terminal, de conhecimento declaratório. Em países como Estados Unidos, Canadá e Austrália, eles não avaliam o sujeito de uma forma cognitiva, vão avaliando de forma longitudinal. O Estado não faz o seu papel regulatório e agora quer culpar o executor. O Enamed tende a piorar o currículo e as faculdades vão focar em preparar o aluno apenas para a prova e não para a prática da profissão.”
Dando continuidade ao debate, Enrico Stefano Suriano, diretor de Projetos da Comissão Especial de Médicos Jovens da APM, salientou os diferentes caminhos que os egressos de Medicina escolhem após concluir a graduação, relembrando que a Residência Médica é uma das maneiras que mais expõem que o profissional ainda tem muito a aprender. “A prática da vida real vai escancarar que a gente ainda não sabe muita coisa e isso é uma brecha para a gente melhorar. Dói e é difícil, mas acho que é por isso que vale ouro e é tão relevante.”
Finalizando, o presidente da Cerem-SP (Comissão Estadual de Residência Médica), Paulo Fernando Constancio de Souza, também apresentou o seu ponto de vista a respeito dos temas debatidos, pontuando a sua preocupação pelo fato de as Cerems não terem representatividade na Comissão Nacional de Residência Médica e falando sobre a distribuição de médicos no estado de São Paulo. “Quando se fala em interiorização, precisamos pensar em qual tipo nós queremos, a formal ou a legítima, aquela que vai realmente atuar com competência para formar o médico especialista.”




Fotos: Alexandre Diniz