Associação Paulista de Medicina se posiciona sobre o Enamed

A avaliação ocorrerá em dois momentos da graduação: ao final do quarto ano, com caráter diagnóstico, e no último ano do curso, para aferir a proficiência necessária ao exercício da Medicina

APM na imprensa

A recente Medida Provisória do Governo Federal sobre a avaliação dos egressos dos cursos de Medicina reacendeu um debate que está longe de ser apenas técnico.

A iniciativa representa uma tentativa de esvaziar a proposta de exame de proficiência defendida há anos pelas entidades médicas, cujo objetivo é estabelecer um padrão nacional mínimo de qualidade para o exercício profissional, tipo “OAB dos Médicos:.

O ENAMED foi idealizado para avaliar as escolas médicas e serviu bem para este propósito. Porém não foi concebido para avaliar o formando pois um simples exame com testes de múltipla escolha seguramente não faz uma avaliação adequada do médico recém formado. O próprio exame de revalida para médicos formados em outros países poderem exercer a medicina no nosso país contempla um exame prático.

Pela nova política, a avaliação ocorrerá em dois momentos da graduação: ao final do quarto ano, com caráter diagnóstico, e no último ano do curso, para aferir a proficiência necessária ao exercício da Medicina.

O que está em jogo é a formação dos futuros médicos e, consequentemente, a segurança dos pacientes. Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma expansão acelerada dos cursos de Medicina, muitas vezes sem a estrutura adequada para garantir ensino de excelência.

Há relatos preocupantes de escolas com baixos indicadores de qualidade que já estariam substituindo parte do internato — etapa essencialmente prática da formação médica — por cursos preparatórios voltados exclusivamente para melhorar o desempenho dos estudantes em provas teóricas, como o ENAMED. Trata-se de uma distorção grave: formar candidatos para exames, e não médicos preparados para cuidar de pessoas.

Por outro lado, a implementação das novas regras será gradual e atingirá apenas os estudantes que ingressarem nos próximos anos. Isso significa que ainda há tempo para amadurecer a discussão e construir um modelo de avaliação mais robusto e equilibrado.

Uma prova de conhecimentos é importante, mas insuficiente. A Medicina exige habilidades práticas, capacidade de comunicação, raciocínio clínico e tomada de decisões sob pressão. Por isso, avaliações práticas obrigatórias, semelhantes às adotadas em diversos países, precisam integrar esse debate.

O fato de entidades médicas participarem da comissão que discutirá o tema é um sinal positivo. Ainda assim, será necessária vigilância permanente para que a avaliação dos futuros médicos seja guiada pela qualidade do ensino e pela segurança dos pacientes, e não por interesses políticos ou circunstanciais.

O Brasil precisa decidir se deseja apenas multiplicar diplomas ou garantir médicos efetivamente preparados. A resposta a essa pergunta definirá não apenas o futuro da profissão, mas a qualidade da assistência oferecida à população.

Antonio José Gonçalves, presidente da Associação Paulista de Medicina

Fonte: Brasil Confidencial – confira aqui