“Crepúsculo dos Deuses” foi o filme escolhido para a terceira edição deste ano do Cine Debate promovido pela Associação Paulista de Medicina. A exibição aconteceu na última sexta-feira, 15 de maio. Considerado um dos grandes clássicos do cinema americano, o longa de 1950 recebeu 11 indicações ao Oscar e conquistou três estatuetas na época. Dirigido por Billy Wilder, a obra conta a história de Joe Gillis (William Holden), um roteirista em decadência que se envolve com Norma Desmond (Gloria Swanson), ex-estrela do cinema mudo presa à ilusão de um grande retorno.
Com o tema “Quando a personagem sobrevive à morte da pessoa”, o debate foi conduzido pelo psiquiatra e coordenador do Cine Debate, Wimer Bottura Junior, e contou com a participação do psiquiatra e professor do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), Arthur Kaufman, além do especialista em Desenvolvimento de Produtos Audiovisuais Yuri Teixeira.
Antes das considerações dos convidados, Bottura agradeceu a presença dos participantes e destacou a trajetória do projeto. “Precisamos comemorar os 29 anos do Cine Debate, que será celebrado em breve”, afirmou.


Análises
Arthur Kaufman ressaltou a relevância da obra que, segundo ele, não é apenas um filme sobre Hollywood. “Trata-se da loucura e da decadência, algo que pode atingir qualquer pessoa ligada ao universo do cinema. Este filme aborda a morte, o luto, a superação e a não superação”, comentou.
De acordo com ele, a personagem Norma Desmond representa um caso de luto patológico. “Ela é uma atriz que há anos espera retornar às telas. Além disso, utiliza a negação como um mecanismo de defesa para evitar encarar aquilo que, no seu íntimo, não é capaz de aceitar”, explicou Kaufman.
Ele também chamou atenção para a construção visual da personagem, sempre apresentada como protagonista de sua própria história. “A maquiagem marcante, as sobrancelhas finas e arqueadas, que dão um ar de superioridade, e o batom forte acentuam suas expressões. Em estado delirante, ela acredita estar o tempo todo em cena.”
Kaufman complementou a reflexão citando a indústria do entretenimento que, segundo ele, promove carreiras e cria ídolos, mas também os descarta quando deixam de corresponder aos padrões exigidos pelo mercado. “Muitas vezes, eles ficam consagrados apenas em determinados personagens. Vocês já imaginaram Mr. Bean fazendo papel dramático? Muitos artistas, esportistas e até políticos percebem a vida despencar quando a fama desaparece. Com isso, podem desenvolver quadros psicóticos, alcoolismo e dependência química. E hoje, qual será o futuro de diversas profissões? O que será de quem não sabe se adaptar? E o que acontecerá com quem não conseguir encontrar uma ocupação moderna e atualizada?”, questionou.
Adaptação
Para Yuri Teixeira, um dos aspectos mais impactantes do filme é justamente a maneira como retrata a transição do cinema mudo para o falado. “É interessante observar como atores e atrizes daquela época acabaram esquecidos porque não sobreviveram à mudança. Muitos tinham vozes inadequadas para o cinema falado ou mantinham uma atuação exagerada, típica do cinema mudo.”
O especialista acrescentou que a interpretação de Gloria Swanson evidenciava essa característica. “Ela atuava de forma caricata e intensa, porque veio de um período em que o cinema não era sutil e a pessoa tinha que fazer caras e bocas, porque as expressões faciais e os gestos eram fundamentais para transmitir emoções e mensagens.”
Wimer Bottura, por sua vez, complementou que o filme aborda sentimentos de culpa e ciúme. “A pessoa mata quem diz amar, algo comum nas relações marcadas pelo ciúme. É um longa sobre o narcisismo e o perigo do vício na admiração”, esclareceu.
O coordenador do Cine Debate concluiu sua análise retomando um ensinamento do professor Paulo Vaz Arruda, baseado nos conceitos de “saber”, “saber fazer” e “saber ser”. “O saber muda com o tempo. Coisas que conhecíamos no passado podem deixar de ser úteis, embora sirvam de base para novos conhecimentos. O saber fazer também muda. O professor que antes dava aula de uma maneira, hoje precisa ensinar de outra forma. Mas o mais importante é o saber ser, porque é preciso saber ser um professor, saber ser uma pessoa. No filme, o tempo passou e a Norma e os outros personagens só sabiam fazer no padrão antigo. Por isso, acredito ser muito interessante para as nossas reflexões a diferença entre saber, saber fazer e saber ser.”
O psiquiatra também reforçou a necessidade de adaptação constante diante das mudanças tecnológicas. “Nós envelhecemos com o passar do tempo e, se não soubermos ser, ficaremos presos ao passado. Desta forma, é importante aprender coisas novas, como mexer no computador e no celular”, concluiu.

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