“Ciúme – O Inferno do Amor Possessivo” abre a primeira edição do Cine Debate 2026

Filme reflete os impactos psicológicos e sociais do ciúme nas relações

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No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a primeira edição de 2026 do Cine Debate da Associação Paulista de Medicina, realizada na última sexta-feira, 13 de março, exibiu o filme “Ciúme – O Inferno do Amor Possessivo” (1994), obra que aborda uma temática extremamente atual.

Dirigido por Claude Chabrol e estrelado por François Cluzet (Paul) e Emmanuelle Béart (Nelly), o longa retrata um casamento aparentemente tranquilo, no qual o marido passa a ser consumido por um ciúme obsessivo e paranoico em relação à esposa, desencadeando um processo de intensa degradação psicológica.

Para participar do debate intitulado “Ciúme entre o amor e a loucura”, o psiquiatra e coordenador do Cine Debate, Wimer Bottura Junior, convidou o crítico, professor de Cinema e cineasta Miguel Forlin e o psiquiatra e psicoterapeuta de adultos e adolescentes Alfredo Toscano.

Bottura iniciou agradecendo a presença dos participantes e explicou que o ciúme pode assumir um caráter profundamente destrutivo. “Muitas pessoas acreditam, como a própria personagem do filme acreditava, que ele é um sinal de amor.”

Segundo ele, é possível identificar diferentes formas de manifestação do ciúme. “Existe a pessoa que é ciumenta, aquela que está com ciúme e a que fica com ciúme. A pessoa ciumenta sofre e também provoca sofrimento. Muitas vezes, ela não aceita buscar ajuda e prefere apontar o outro como problema, em vez de olhar para si mesma. Quando ocorre uma traição, por exemplo, a relação muitas vezes não termina”, explicou.

O psiquiatra acrescentou que, no Brasil, a violência contra a mulher tem aumentado. “Para se ter ideia, em 2025 foi registrado o maior número de casos da história. Aproximadamente 75% dos casos de feminicídios estão associados a situações de ciúme. Este fato exige uma reflexão de todos nós, e não estou falando apenas do ciúme do filme, mas do nosso.”

Reflexões

Para Miguel Forlin, um dos aspectos mais interessantes da obra é que o ciúme de Paul não nasce de fatos, mas de interpretações. “Não temos uma prova contundente e incontestável de que Nelly trai o marido. Existem comportamentos e situações que podem sugerir uma possível infidelidade. Para uma mente perturbada como a de Paul, isso já é suficiente para transformar pequenas ocorrências em grandes suspeitas”, analisou.

De acordo com o crítico, os acontecimentos cotidianos passam a ser interpretados como suspeitos. “Um olhar, um sorriso, um atraso ou uma conversa casual são indícios dentro da lógica paranoica do personagem”, observou.

Forlin acrescentou que o ciumento acaba se tornando uma espécie de “romancista paranoico”, criando uma narrativa própria em que cada detalhe passa a integrar uma trama imaginária de infidelidade. “O problema é que, para quem está preso nessa lógica, a imaginação passa a parecer evidência. A pessoa começa a confundir realidade e fantasia, perdendo a capacidade de diferenciar o que de fato aconteceu do que foi produzido pela própria mente. O longa mostra como o ciúme extremo pode evoluir para vigilância, humilhação, agressão psicológica e violência física, o que hoje chamamos de amor tóxico.”

Alfredo Toscano, por sua vez, reforçou a satisfação de participar mais uma vez do Cine Debate. “Nesta minha participação, quero dizer que este é um filme bonito, denso e intrigante. Pretendo conduzir a discussão um pouco mais para a Psicopatologia e para os aspectos que chamo de relacionais. Também percebi algumas coisas relacionadas ao casal e reforço que, em hipótese alguma, podemos culpar a Nelly. Não sabemos dizer, de fato, se algo aconteceu, porque isso existia dentro da relação deles. Eram situações facilmente interpretadas por Paul, lembrando que a patologia era dele,” complementou.

O psiquiatra acrescentou que patologias orgânicas, neurodegenerativas e sequelas de acidente vascular cerebral podem ocasionar ciúme. “Nas demências também ocorrem, mas não da forma como acontece no filme. Espero ter contribuído com vocês para a gente pensar e principalmente sentir”, concluiu.

Fotos: Divulgação